Entre festas, pedágios e traições: os movimentos que redesenham — e limitam — o tabuleiro político de Rondônia às vésperas de 2026
RESENHA POLÍTICA
Robson Oliveira
ANIVERSÁRIO
Nos últimos anos, por razões demais para serem listadas sem enfado, tenho evitado convites de políticos para festas, convescotes e celebrações onde a hipocrisia costuma brindar antes do bolo. Domingo, contudo, abri uma exceção e compareci ao aniversário do prefeito da capital, Léo Moraes (Podemos).
PACIFICADOR
Ao chegar ao clube social da OAB-RO, local da comemoração, deparei-me com uma multidão que sacrificou o fim de semana em família para homenagear o aniversariante. Havia de tudo: deputados federais e estaduais, prefeitos, vereadores. Esquerda e direita dividindo o mesmo espaço, sem gritos, sem xingamentos, sem o histrionismo que infesta as redes sociais e os grupos de WhatsApp. Um fenômeno sociológico raro. Léo Moraes demonstrou, com a própria festa, que ainda é possível divergir politicamente sem se comportar como selvagem.
RESPEITO
Todas as mídias nacionais que avaliam a popularidade dos prefeitos das capitais anunciam índices de aprovação superiores a noventa por cento, obtidos pela alquimia estatística de somar “ótimo”, “bom” e até “regular”, o aniversário ofereceu uma medida mais concreta: Léo é, de fato, respeitado pela maioria da classe política. A popularidade é real.
FUTURO
No discurso improvisado, reconheceu o peso da responsabilidade que carrega, admitiu erros e afirmou tentar corrigi-los com rapidez. Ao final, traído pela empolgação, não resistiu a enviar recados a desafetos bem conhecidos. Nada que comprometesse a noite. A festa foi boa, animada, e o prefeito inicia seu segundo ano de gestão com os dois pés fincados no futuro e de bem com o eleitor.
ALTERNATIVA
Infelizmente para o estado, e felizmente para Porto Velho, Léo Moraes não sinalizou disposição para torrar seu capital eleitoral numa aventura estadual, renunciando ao cargo para disputar o governo. Do ponto de vista eleitoral, seria uma alternativa real à polarização previsível entre Marcos Rogério (PL) e Adaílton Fúria (PSD).
CENÁRIO
Com Léo no páreo, o tabuleiro estadual poderia ser redesenhado, obrigando caciques acomodados a refazer cálculos que hoje tratam a polarização como destino manifesto. Mas o prefeito não piscou até agora em direção ao Palácio Rio Madeira, tampouco sondou discretamente amigos comuns. Ainda assim, a especulação serve ao menos para animar um cenário modorrento.
REJEITADO
Não está claro onde pretende chegar o ex-deputado federal Expedito Neto (PSD) ao plantar notas na mídia sugerindo que o PT o deseja como candidato a governador. A coluna apurou, junto a um dirigente petista respeitado, que foi o próprio Neto quem pediu audiência à Executiva Estadual, pedido prontamente atendido, já que ele se declara eleitor de Lula. Mas não há nada de concreto sobre candidatura a governador.
PERFIL
A eventual candidatura de Expedito Neto, porém, não empolga a militância petista. Quem conhece as entranhas do PT sabe que a legenda costuma rifar quadros históricos desalinhados com a tendência majoritária. Imagine, então, abraçar um político conhecido por arroubos verbais, pouca tolerância a divergências e nenhuma familiaridade com o funcionamento interno do partido. O temperamento que ostenta, confrontado com o do petismo, é nitroglicerina pura.
CONSTRANGIMENTO
Este escriba também ouviu outros dois expoentes petistas. O Diretório Regional não leva a postulação a sério e evitará polemizar publicamente apenas porque o interessado declara voto em Lula. As movimentações de Neto constrangem, na verdade, o pai, Expedito Júnior, presidente do PSD, que trabalha com afinco pela candidatura de Adaílton Fúria. Quem conhece o PT e conhece Neto sabe que essa relação nasce com prazo de validade vencida.
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
INCOMODADO
A coluna conversou também com Expedito Júnior, presidente do PSD. Foi direto: o filho é maior de idade, tem CPF próprio e age por conta própria. Lamentou, porém, que a flertada pública com o PT gere desgaste político e dissabores familiares. Garantiu que o PSD segue firme com Adaílton Fúria e que os movimentos do filho incomodam, mas não interferem na estratégia do partido.
PRESIDÊNCIA
Expedito Júnior adiantou ainda que o PSD deve indicar candidato próprio à Presidência da República, com nomes como Tarcísio de Freitas ou Ratinho Júnior. Quem for o ungido nacionalmente será também o presidenciável de Adaílton Fúria em Rondônia. Lula, definitivamente, não está nos planos do PSD local.
PEDIGREE
A adesão inusitada do ex-parlamentar aos quadros da esquerda faz sangrar a candidatura direitista de Fúria não apenas pelo gesto em si, mas pelo simbolismo. Trata-se de alguém que presidiu o PSD até dias atrás e, detalhe nada irrelevante, é filho de quem é. Em política, pedigree pesa. Às vezes, mais do que ideias.
ÓDIO
Não é segredo para ninguém que o PT rondoniense mantém uma relação quase uterina com o empresário da Cascavel, Acir Gurgacz (PDT). Este, por sua vez, cultiva um ódio mortal por Expedito Júnior e não aceitará, em hipótese alguma, que a frente de esquerda seja representada justamente pelo rebento do desafeto a quem atribui, com fervor quase religioso, a responsabilidade por todos os infortúnios penais que passou a enfrentar a partir de 2018.
PEDÁGIO
Todos desejam que a BR-364 seja uma via expressa capaz de suportar um volume de tráfego muito maior do que aquele de quarenta anos atrás, quando foi inaugurada. É evidente que não há recursos disponíveis para investimentos volumosos em infraestrutura, especialmente em uma rodovia cravada entre rios e floresta, como é a velha 364 que corta Rondônia ao meio. A restauração da 364, com a cobrança de pedágio, era algo inevitável para que a iniciativa privada pudesse aportar os recursos de que o Tesouro Nacional não dispõe. Até aí, nada contra. A privatização, com a adoção do pedágio, era a única opção viável no cenário atual.
PROMESSA
O que está ocorrendo em Rondônia, contudo, é bem diferente do que se viu na privatização de rodovias em outros estados. A Nova 364 passou a cobrar pedágio antes de realizar as obras de duplicação e restauração. Isso significa que os recursos pagos nas praças de pedágio é que deverão formar o caixa necessário para a execução das obras. Em bom português, começamos a pagar por uma via expressa segura, com duplicação e restauração, sem que nada disso tenha sido entregue. O consórcio recebe antecipadamente, sustentado apenas pela promessa de executar os serviços no futuro.
AÇÃO
A cobrança e os valores do pedágio são tão vergonhosos que provocaram reação dos rondonienses e causaram desgaste nos membros da bancada federal, omissa no processo e incompetente na ação. O que se vê são políticos medíocres se esquivando de responsabilidades e culpando terceiros como estratégia para enganar o eleitor. Como estamos em ano eleitoral, é hora de cobrar vergonha na cara e mandar essa bancada para casa. É a única ação que resta ao contribuinte enganado.
FICA
Como previsto por esta coluna ainda em novembro passado, o governador Marcos Rocha declarou publicamente, pela primeira vez, no programa de TV do jornalista Everton Leoni, que deverá permanecer no governo, recuando da pré-candidatura ao Senado Federal. A previsão estava assentada em premissas e observações sólidas, construídas ao longo do tempo, a partir das quais fomos formando opiniões e percepções consistentes.
MILAGRE
Mesmo reconhecendo que não pretende entregar o governo a quem o traiu, Marcos Rocha deixou uma pequena fresta para um futuro incerto ao admitir que poderá voltar a cogitar uma candidatura ao Senado se for da “vontade de Deus”. Para decifrar o milagre — ser candidato e, ao mesmo tempo, não entregar o governo a quem o traiu — só restam duas hipóteses: algum contratempo jurídico que impeça o vice de assumir a titularidade ou, quem sabe, um castigo dos céus. Há quem acredite em milagres. O governador é um exemplo.
ACABOU
A decisão de Marcos Rocha não prejudica apenas os planos iniciais da esposa e do irmão, que pretendiam disputar, respectivamente, as vagas de deputada federal e deputado estadual. Ela praticamente sepulta a pré-candidatura do vice-governador Sérgio Gonçalves. Sem a máquina na mão, Sérgio — que nunca foi um líder político — não tem nada a oferecer aos partidos nem aos candidatos numa disputa cara e competitiva. O sonho de o vice-governador chegar ao comando do Palácio acabou ontem. Em poucos dias, os que ainda orbitam ao seu redor devem começar a evitá-lo e seguir em busca de candidaturas sólidas e viáveis.









