Autor analisa como a produção acadêmica nas Ciências Humanas ainda reproduz lógicas coloniais ao impor epistemologias eurocêntricas sobre saberes amazônicos e indígenas
Por Rafael Ademir Oliveira de Andrade
Sociólogo, Doutor em Desenvolvimento Regional, Coordenador do Laboratório de Estudos em Populações Negligenciadas (Afya Porto Velho) e professor permanente do PPG em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (UNIR).
Colonialidade, de-colonialidade e colonização epistêmica
Primeiramente, vamos definir os conceitos que são base para este texto. A colonialidade é uma expressão debatida amplamente por intelectuais do Sul Global, especialmente latino americanos e africanos sobre como os processos de colonização-ocupação das colônias pela Europa e depois pelos países centrais do capitalismo levaram e foram impulsionados por uma dominação das formas de ser e viver dos povos colonizados. Em suma – pois sim, é complexo – quando os países foram colonizados, não apenas uma ocupação física, mas uma dominação simbólica sobre os colonizados deu força para tal ocupação.
Assim, esta dominação simbólica é chamada de colonialidade e tem muitas formas (cito aqui Aníbal Quijano, 2000): do poder (organizando quem tem acesso ao poder político e suas outras formas), do ser (dizendo quais vidas são valorizadas e quais não são, quais religiões são verdadeiras, quais sexualidades são boas ou ruins) e do saber (classificando os saberes entre mais ou menos válidos, mais ou menos “de verdade”, quais filosofias/literaturas são de fato ou não, dentre outras).
Dialogando com Aníbal Quijano (2000), a colonização epistêmica pode ser entendida como o processo pelo qual o pensamento europeu moderno se impõe como medida universal de verdade, racionalidade e conhecimento, silenciando outras formas de saber e existência. Ela é uma dimensão da colonialidade do poder-saber, que não apenas domina territórios e corpos, mas também controla a produção do saber e a maneira de compreender o mundo. Nesse sentido, a colonização epistêmica subordina os conhecimentos indígenas, africanos e populares, classificando-os como “inferiores” ou “não científicos”. Para Quijano (2000), romper com essa lógica exige a descolonização do saber: reconhecer a pluralidade epistêmica e abrir espaço para outras racionalidades, modos de viver e interpretar a realidade que foram historicamente negados pelo projeto moderno-colonial.
Considerando esses temas, vamos à nossa tese do texto.
Ciências Humanas e colonização epistêmica
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
++++
Edgardo Lander (2005), em diálogo com Quijano (2000), aprofunda a crítica à colonização epistêmica mostrando como o conhecimento moderno ocidental se constituiu junto com o processo colonial. Para ele, a ciência moderna não é neutra nem universal: ela é parte de um projeto histórico eurocêntrico que definiu o que conta como conhecimento legítimo e o que deve ser descartado como mito, crença ou atraso. Lander (2005) argumenta que essa imposição produziu uma monocultura do saber, que marginalizou epistemologias não europeias, ao mesmo tempo em que legitimou o domínio econômico, político e cultural do Ocidente. E onde entram as ciências humanas e sociais nisto e como se relacionam com o nosso contexto Rondoniense-amazônico-brasileiro e na pesquisa com povos indígenas?
Segundo Lander (2005) as ciências sociais/humanas são, muitas das vezes, elementos de colonização. Destacamos agora alguns pontos a partir da leitura do autor e correlações próprias.
- As ciências humanas e sociais (incluindo as mais dialógicas como Antropologia, Psicologia e Sociologia) são instrumentos de colonização quando se posicionam enquanto verdades ou organizações verdadeiras dos dados das comunidades que estão em contato (ou coletando dados). Ao colocar o método enquanto única leitura possível ou até mesmo ditar caminhos para a comunidade, é uma forma de violência simbólica;
- As ciências humanas e sociais – em suas Instituições – são colonizadoras quando privilegiam seus espaços centrais de produção e ignoram ou diminuem os espaços periféricos. A Academia Superior reproduz a lógica de dominação colonial quando, por exemplo, instituições do Sul-Sudeste do Brasil afirmam fazer uma análise da Amazônia sem dialogar com instituições regionais ou mesmo ignorar décadas de pesquisa na região ou quando seus pesquisadores coletam seus dados e ganham seus títulos e abandonam o campo (e as pessoas) após tal conquista, tratando-os como objetos de pesquisa – de fato.
- Pesquisadores/as desta área atuam como colonizadores quando, mesmo em seus lugares de fala, se recusam a organizar uma ciência loco-regional, auxiliar as comunidades nos campos e vivem em lógicas internas à academia. Mesmo com teorias decoloniais, agem como neoliberais ao “tom de Thatcher”, cada um por si e a solidariedade vai para o espaço. Não há função social/coletiva em sua pesquisa, são eternos “vieses de confirmação” de uma realidade individualista-egoísta, algo que nem a ciência clássica, nem as mais contemporâneas topariam encampar. Se sua pesquisa de nada serve e dialoga mais com seu orientador(a) ou com um campo teórico do que com as pessoas que ela descreve, você é um colonizador-soft.
- É preciso produzir com, auxiliar na formação e no acesso das comunidades outroras estudadas para que essas se tornem comunidades-sujeitos que estudam: fazer pesquisa com as comunidades e chamar de sujeitos ao invés de colaboradores não pode ser uma mudança textual apenas: é preciso lutar por bolsas, por novos PPGs, por cotas sociais/raciais, pela formação científica de base e muitas outras coisas. Apesar de muitos pensarem que isso se consegue abraçando árvore e acreditando na energia vibracional das pessoas, na verdade se consegue isso publicando, participando de editais, escrevendo projetos científico/sociais, criando/participando de redes e muitos outros elementos. Sua boa energia de nada serve para ajudar na formação de recursos humanos inclusivos se você só pensa no seu equilíbrio energético. Vamos deixar a vibe txai-ayahuasqueiro de condomínio para quem estuda em um estado que capta milhares de bolsas por ano, por aqui, precisamos adotar uma estratégia mais combativa – SP captou mais de 23 mil bolsas de PG via CAPES, já Rondônia, 226 (GEOCAPES, 2025). São essas bolsas que devem ser usadas para fortalecer pesquisadoras/es das comunidades tradicionais, não o diploma que você ganha (e aumenta seu salário apenas).
Por fim, precisamos pensar como fazer uma ciência (não uma pesquisa) que fortaleça nossa região, em especial as comunidades/povos/extratos sociais mais periferizados. Descer do altar da academia não se faz apenas mudando terminologia (objeto para sujeito, pesquisado para colaborador, dentre outras), mas também indo em direção ao campo com o que nós, operadores científicos, podemos colaborar. Usar nossos títulos para concorrer em editais – e se preparar para a reprovação – que ajudem as comunidades ou pessoas em formação é uma das coisas que podemos fazer diretamente, indiretamente são muitas outras.
Em Rondônia, todo mundo é decolonial, menos quem é.
Referências
GEOCAPES. Bolsas Capes ano, 2025. Acesso em: https://geocapes.capes.gov.br/geocapes/
LANDER, Edgard. Ciências Sociais: saberes locais e eurocêntricos. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas Latinoamericanas. Edgardo Lander (org). Colección Sur Sur, CLACSO: Ciudad Autônoma de Buenos Aires, Argentina, 2005.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. Buenos Aires: CLACSO, 2000.









