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RESENHA POLÍTICA
“Eu sou da direita e os valores da direita não pertencem a Bolsonaro”, diz deputado Rodrigo Camargo

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Parlamentar reforça posições sobre aborto, drogas e princípios conservadores ao discutir identidade ideológica e pauta moral durante entrevista

Por Informa Rondônia - terça-feira, 09/12/2025 - 10h08

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Porto Velho, RO – A entrevista concedida pelo deputado estadual Delegado Camargo ao podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, percorreu uma extensa série de temas relacionados à administração pública de Rondônia, às condições do sistema de saúde, ao comportamento de parte da bancada federal e às perspectivas eleitorais para 2026. Durante a conversa, ele afirmou que profissionais de saúde em Guajará-Mirim estariam utilizando sacolas plásticas por falta de luvas, mencionou pacientes no corredor do Hospital João Paulo II e declarou que o governador Marcos Rocha “nunca foi lá”. O diálogo também abordou o orçamento para o próximo ano, críticas ao aumento do ICMS, questionamentos sobre a escolha de gestores e a possibilidade de disputar um cargo majoritário no pleito seguinte.

Camargo abriu sua participação respondendo à contextualização feita pelo apresentador sobre o cenário político atual. Robson Oliveira afirmou que o parlamentar passou a aparecer nas pesquisas como potencial pré-candidato do Podemos “ou a governador, ou a senador, a deputado federal, deputado estadual”, descrevendo-o como alguém “extremista” nas posições, mas “muito apaixonado pelo que defende”. Na sequência, afirmou que Camargo já começa a “pontuar em todas as pesquisas”, figurando ao lado de nomes como o ex-governador Confúcio Moura, a deputada federal Sílvia Cristina e, em algumas sondagens, “não muito longe de Fernando Máximo”.

O deputado respondeu que sua atenção está voltada às dificuldades cotidianas do Estado e não às eleições do ano seguinte. Ele declarou: “Eu posso te assegurar olhando profundamente no seu olho. Eu não estou preocupado com isso. Eu estou preocupado em dar o meu melhor hoje. Em fazer o que é correto, o que é certo e o que o povo deposita em mim hoje”. A partir disso, associou sua resposta ao que define como um cenário grave da saúde estadual.

Ao mencionar o Hospital João Paulo II e unidades do interior, Camargo afirmou: “Sabe com o que eu estou preocupado mesmo, agora que estou aqui conversando com você? Sabe o que me vem à memória agora? As pessoas que estão no corredor do João Paulo II lá”. Ele relatou, ainda, episódio que, segundo disse, ocorre em Guajará-Mirim: “Os profissionais da área de saúde, lá em Guajará-Mirim, estão colocando sacolas de plástico em suas mãos porque não têm luva cirúrgica”.

O parlamentar também relatou situações envolvendo pacientes aguardando procedimentos no interior. Declarou: “As pessoas que estão lá no hospital de Cacoal, no hospital que um padre fundou, há mais de 40 dias aguardando uma cirurgia. Pessoas que sofrem um acidente de moto são colocadas dentro de uma ambulância e são levadas toda quebrada pra Guajará-Mirim fazer uma cirurgia ortopédica”. Segundo ele, essas condições reforçam a necessidade de visita in loco por parte das autoridades. “Eu te convido a ir lá comigo, se acharem que é fake news o que eu tô falando, como já convidei governador várias vezes pra ir”, disse.

Camargo expandiu as críticas para a política fiscal do Estado. Ele recordou seu voto contra o aumento da alíquota do ICMS aprovado em 2023. Na entrevista, repetiu que a medida produziu redução de receita ao invés de alta, referindo-se à Curva de Laffer: “Há um teórico e economista, Laffer, chamada Curva de Laffer. Chega um ponto que você aumentou tanto a carga tributária, tanta arrecadação, que o contribuinte não consegue mais honrar com aquela carga tributária”. O deputado afirmou que, quando esse limite é ultrapassado, parte dos contribuintes passa para a informalidade ou à sonegação. “Aquele ato que você buscava aumentar a receita do Estado acaba diminuindo, porque acabou a capacidade contributiva do cidadão”, afirmou.

Ele acrescentou que alertou os demais parlamentares sobre as consequências. “Eu avisei meus colegas, falei, vai acontecer em Rondônia exatamente isso. Nós estamos no limite da arrecadação. Está na hora de tomar medidas de contingenciamento. Diminuir os custos da máquina pública. Tirar o número exorbitante de cargos em comissão”.

Na avaliação de Camargo, a organização administrativa atual precisa de mudanças estruturais. “O Estado é um cabide de emprego. Precisa de uma reforma administrativa urgente”, afirmou, concordando com Robson quando este classificou o governo como “perdulário”. Para justificar sua crítica, declarou que gestões anteriores criaram milhares de cargos comissionados: “Você criou mais de 10 mil cargos para colocar pessoas ali dentro para trabalhar para você”.

Quando tratou do orçamento para o próximo exercício, disse que a arrecadação caiu e que a proposta enviada pelo governo prevê redução de recursos em áreas estratégicas. “O orçamento irá diminuir. A arrecadação do Estado diminuiu? Sim, diminuiu”, resumiu. Ele afirmou que a saúde será uma das áreas impactadas e citou a resposta que obteve em audiência pública: “Perguntei claramente pra ele. É verdade. E ele confirmou. É verdade”, disse ao narrar conversa com o secretário de Saúde, coronel Jefferson. Afirmou, ainda, que a secretária de Planejamento teria indicado essa queda em reunião interna.

A escolha do coronel Jefferson para comandar a Sesau também foi questionada. Para Camargo: “Ao meu ver, por mais competência ou por mais boa vontade que tenha, não tem conhecimento técnico da pasta onde está. Ele deveria assumir então a SESDEC como coronel e cuidar da polícia e não ser um secretário de saúde”. Para reforçar o argumento, criou um paralelo hipotético: “É mais ou menos como se eu chegasse lá para os meus colegas de farda: ‘Olha gente, agora o secretário aqui da SESDEC da segurança pública vai ser o doutor João. Ele é médico lá do Aripuanã’. Os caras, ‘não, peraí. Como assim, Camargo? Vai trazer um médico? O que esse médico sabe de segurança pública?’ Agora inverte. Tu coloca um profissional de segurança pública pra gerir a saúde”.

O deputado também afirmou que o governador Marcos Rocha não visitou unidades hospitalares citadas durante a entrevista. Segundo ele: “Secretário Jefferson, nesses praticamente oito anos do governador, ele já colocou os pés alguma vez no João Paulo II? Nunca. No Santa Marcelina, nas Irmãs? Já colocou os pés? Nunca”. Declarou que enxerga ausência de atuação presencial e que essa situação, combinada ao cenário orçamentário, aponta tendência de agravamento: “O cenário que se avizinha para o ano que vem é de diminuição dos recursos da saúde”.

Camargo passou então a tratar da atuação da bancada federal, afirmando que não observa engajamento em questões estruturantes, sobretudo logística. “Tem questões tão importantes para o nosso Estado que eu não vejo ninguém falar”, disse. Ele apontou que a discussão costuma se restringir à BR-364, embora essa seja apenas uma das vias modais. Ao comentar sobre ferrovias, setor aéreo e transporte hidroviário pelo Rio Madeira, declarou: “Eu não vejo discussão disso. Nossos deputados federais, nossos senadores tinham que ser debruçados”.

Ele fez uma única exceção. “Sabe qual foi o único que eu vi ser debruçado sobre isso? Eu vou dizer pra você. Léo Moraes. Tá fazendo a regularização fundiária de toda a zona portuária aqui, porque já se ligou nisso”. Segundo Camargo, a rota via Pacífico, no Chile, pode reduzir em 15 dias o tempo de viagem para o mercado asiático ao utilizar a transoceânica, criando vantagem competitiva para a produção rondoniense.

Durante a entrevista, também surgiram temas eleitorais. Robson Oliveira disse ter conversado com o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, e com dirigentes partidários, relatando que o gestor teria dito que Camargo seria o nome ao Senado em um possível projeto. O deputado confirmou que mantém aproximação com Léo e que essa relação antecede o ingresso na política. Ele relatou ter buscado conselhos do atual prefeito quando iniciou sua trajetória pública.

Questionado sobre as exigências para disputar o governo ou o Senado, Camargo afirmou que as funções requerem coragem, honestidade e preparo. “Primeira coisa, coragem. Coragem pra quê? Pra, primeiro, colocar o nome à disposição. Tem que ter coragem pra isso. E coragem pra, quando lá estiver, tomar as decisões necessárias a serem tomadas”. Ele descreveu corrupção como “falha de caráter” e disse que falta de preparo é uma “falha de formação”, corrigível com estudo e com equipes qualificadas.

Ao detalhar uma resposta dada tanto a Deus quanto a Léo Moraes, afirmou: “Uma resposta sendo pragmática pra você. Duas respostas. Uma pra Deus. ‘Eis-me aqui, Senhor. Que precisares, aqui estou’. E foi a mesma resposta que eu dei pro Léo”. E completou que, se houver demanda popular por sua candidatura em 2026, estará disposto. “Se o ano que vem aparecer um projeto que o povo olhe pra mim e diga que eu preciso, eu aqui estou pelo que for”.

O apresentador perguntou diretamente se Camargo aceitaria disputar o governo caso fosse aconselhado a enfrentar o “sistema”. Ele respondeu: “Eis-me aqui”, mas acrescentou que não entraria em projeto que gerasse divisão. “Eu só não vou pra nenhum projeto que Deus não esteja à frente e que eu seja motivo de divisão em qualquer lugar”. Em seguida: “Aonde eu for causa de divisão, ali não é o meu lugar. Não é o meu lugar”.

Ao ser provocado sobre um cenário que incluísse o próprio governo de Marcos Rocha, o deputado disse que há decisões que não dependem da vontade individual. “Há coisas na política que não dependem de você. Você tem que fazer a sua parte e responder pelo seu CPF. E o povo julgará quem deve chegar e quem não deve chegar”. Sem confirmar ou descartar eventual composição, declarou que não deseja ser “causa de divisão em nada”.

Em relação à sua posição ideológica, afirmou que se identifica como conservador de direita. Disse não ter “nenhum problema” em declarar que é contra o aborto e “absolutamente contra a legalização de qualquer tipo de droga, inclusive da maconha”. Ele afirmou que os valores da direita não pertencem a nenhuma figura específica: “Eu sou da direita e os valores da direita não pertencem a Bolsonaro, a A, a B, a C, a E, a ninguém. São valores universais que eu acredito”.

Ao comentar Jair Bolsonaro, Camargo afirmou ver méritos e também falhas, sem detalhá-las. “O Bolsonaro possui inúmeras características inegáveis”, disse. Avaliou que o ex-presidente mudou a forma como a população percebe política e instituições. “Antes do Bolsonaro, ninguém sabia quem eram os ministros do STF, não sabia o que era a esquerda e direita. Com a entrada dele, goste as pessoas ou não goste dele, tá tudo certo, ele trouxe essa realidade para o centro das discussões”. Segundo Camargo, hoje “se discute política no Brasil como nunca se havia se discutido”, enfatizando que Rondônia é “um estado de direita” que “vai muito além do bolsonarismo”.

A entrevista também abordou episódio envolvendo o deputado federal Coronel Crisóstomo, que tocou, pelo celular, uma música de autopromoção durante sessão de CPI em Brasília. Robson classificou o ato como “caricata” e “vergonhosa”, afirmando que a música teria sido feita com inteligência artificial. Camargo concordou: “Concordo com você. Achei que foi uma atitude totalmente desnecessária, que não apenas acabou o expondo, o próprio Crisóstomo, porque se você observar na imagem ali, os demais parlamentares que estavam na sua retaguarda, atrás, o Kim Kataguiri, ficou rindo”. Ele afirmou que a cena expôs “a imagem do próprio parlamentar” e “do próprio Estado”. O deputado acrescentou que acredita que Crisóstomo não imaginava o impacto negativo, mas concordou com a crítica: “De fato, acabou. E eu concordo com você”.

O apresentador disse que o caso decorreu da “falta de estudo” do ambiente institucional, afirmando que “aquele ambiente não é para esse tipo de coisa”. Ao término, ao ser provocado por Camargo sobre um ponto em que deveria melhorar, Robson respondeu: “Não seja um parlamentar caricato”.

Nos instantes finais, a entrevista voltou-se para temas técnicos e impressões pessoais. Camargo afirmou ser “leitor compulsivo de tudo que é conteúdo” e disse que isso o auxilia a compreender Rondônia, discutir modais de transporte, logística e desenho administrativo do Estado. Ao falar da possibilidade de transformar Porto Velho em “grande hub logístico”, retomou a regularização fundiária da zona portuária conduzida por Léo Moraes e mencionou conversas sobre o assunto.

Ele refletiu sobre gestão e conhecimento técnico em cargos de comando, após ouvir de Robson o exemplo de José Serra, lembrado como “um dos melhores ministros da Saúde” apesar de ser economista. Camargo reconheceu a importância da gestão, mas insistiu na necessidade de “conhecimento mínimo” do setor onde se atua. Para ele, a combinação de capacidade técnica e liderança seria fundamental.

O parlamentar diferenciou cargos efetivos e comissionados, afirmando que concursos são mecanismos de meritocracia. “Passar em um concurso não é fácil, cara. Nenhum concurso público é fácil de passar”, afirmou, mencionando seu ingresso como delegado e o concurso de magistratura da esposa. Ele disse compreender que certos postos exigem cargos de confiança, mas defendeu “equilíbrio” entre concursados e comissionados.

A entrevista foi encerrada com agradecimentos e menções ao alcance do Resenha Política nas plataformas de TV, rádio e redes sociais. Robson relatou que escolheu quatro entrevistas para encerrar o ano — com o governador, o prefeito Léo Moraes, o deputado Delegado Camargo e o senador Marcos Rogério. O deputado finalizou afirmando que pretende “regassar as mangas” em 2026 e declarou que “a quem mais será dado, mais será cobrado”, reafirmando que, caso seja chamado para integrar um projeto político considerado necessário, sua resposta continuará sendo: “Eis-me aqui”.

AUTOR: INFORMA RONDÔNIA





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