Como desastres ambientais recentes expõem riscos atuariais e reforçam a necessidade de critérios ESG na gestão previdenciária
Nos últimos anos, uma série de episódios ao redor do mundo deixou evidente algo que, até pouco tempo atrás, muitos gestores públicos ainda tratavam como detalhe: ignorar riscos ambientais pode comprometer o futuro financeiro de milhões de pessoas.
Quando falamos de fundos de pensão, regimes próprios de previdência e grandes investidores institucionais, isso significa algo ainda mais sério, insegurança atuarial.
Ou seja, o patrimônio acumulado para pagar aposentadorias pode, de repente, tornar-se insuficiente.
A crença de que aspectos ambientais são assuntos “laterais”, ou mero adorno ideológico, já não se sustenta.
O mercado internacional vem mostrando exatamente o contrário: questões ambientais e climáticas são riscos econômicos concretos, capazes de destruir valor de empresas e, por tabela, afetar fundos que investem nelas.
A seguir, trago três casos emblemáticos dos últimos cinco anos que ilustram por que institutos de previdência estaduais, como os brasileiros, precisam incorporar critérios ESG (Ambientais, Sociais e de Governança) de forma técnica, responsável e, acima de tudo, prudente.
O caso PG&E: quando incêndios florestais queimam também o patrimônio dos investidores
A PG&E, gigante do setor elétrico na Califórnia, entrou em colapso após ser responsabilizada por incêndios devastadores entre 2017 e 2018, incluindo o tristemente célebre Camp Fire, que destruiu 85% da cidade de Paradise e causou 85 mortes.
A empresa enfrentou US$ 25,5 bilhões em indenizações e acabou declarando falência em janeiro de 2019.
O que isso tem a ver com previdência? Tudo!
A queda abrupta das ações da PG&E — que chegaram a perder mais de 85% do valor de mercado, afetou diretamente investidores institucionais que mantinham posições na empresa, incluindo fundos de investimento e carteiras diversificadas de grandes gestores de recursos.
O que precipitou o desastre não foi apenas um acidente, mas a incapacidade da empresa de gerir riscos ambientais e climáticos crescentes, como secas prolongadas e infraestrutura vulnerável.
Em outras palavras: o risco ambiental transformou-se rapidamente em risco financeiro concreto.
3M e o custo dos “produtos eternos”: o passivo que engoliu bilhões
Outro exemplo marcante vem da 3M, empresa multinacional envolvida em litígios relacionados ao uso e descarte de substâncias químicas conhecidas como PFAS, apelidadas de “forever chemicals” por permanecerem no ambiente por décadas.
Em junho de 2023, a companhia anunciou um acordo de US$ 10,3 bilhões (valor presente) para resolver ações judiciais movidas por concessionárias de água contaminada nos Estados Unidos.
O acordo, que pode alcançar US$ 12,5 bilhões em valores nominais ao longo de 13 anos, recebeu aprovação final do tribunal em março de 2024.
A despesa bilionária afetou o caixa, o valor de mercado e a credibilidade da 3M e, novamente, quem sentiu o impacto foram fundos de investimentos e previdência que possuíam ações ou títulos da empresa.
A lição é direta: empresas com alto passivo ambiental carregam um risco oculto, que pode explodir anos depois e corroer a carteira de quem investe nelas.
ESG que não se sustenta: quando rótulos verdes enganam investidores
Finalmente, um fenômeno recente merece atenção: o chamado “retrocesso ESG” e o problema do greenwashing.
Dados de mercado mostram que fundos ESG enfrentaram seu pior ano em 2023, registrando saídas líquidas de US$ 13 bilhões nos Estados Unidos, a primeira vez que isso acontecia desde que esse tipo de investimento ganhou popularidade.
Em 2024, as saídas continuaram, superando US$ 13 bilhões apenas no primeiro semestre.
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
O problema não foi apenas político.
Pesquisas e relatórios de mercado revelam que diversos fundos classificados como ESG, supostamente com forte compromisso ambiental e social, apresentaram desempenho abaixo da média em 2022 e 2023.
Parte significativa dessa performance negativa decorreu de fatores setoriais: muitos fundos ESG concentravam investimentos em empresas de tecnologia e energia renovável, setores duramente afetados pela alta de juros e mudanças macroeconômicas.
Porém, outro fator pesou: o greenwashing.
Casos como as multas aplicadas pela SEC (Securities and Exchange Commission) à DWS Group em 2023 e à Goldman Sachs em 2022 por exagerar compromissos ESG mostraram que o rótulo “sustentável” nem sempre correspondia à realidade.
Segundo pesquisa da EY de 2024, 85% dos investidores institucionais consideram que o greenwashing é um problema maior hoje do que há cinco anos.
O resultado foi simples e preocupante: rentabilidade abaixo da média, perdas para investidores institucionais e revisão das estratégias de investimento de grandes fundos de pensão, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.
Por que isso importa para os institutos de previdência brasileiros?
Institutos estaduais de previdência, como os Regimes Próprios (RPPS), administram recursos públicos que precisam durar décadas.
Cada má decisão hoje é uma crise atuarial amanhã. E, se o ambiente global nos ensina algo, é isto: riscos ambientais não são abstratos, empresas sem boa governança custam caro, ignorar sustentabilidade gera perdas reais, e incorporar critérios ESG é uma estratégia de proteção, não de militância.
Fazer a gestão previdenciária com responsabilidade fiscal e atuarial significa olhar para o futuro, inclusive o futuro ambiental.
Na prática, isso envolve desde evitar empresas com passivos ambientais significativos e históricos de multas até priorizar investimentos em companhias certificadas, analisar riscos climáticos de longo prazo e exigir governança transparente.
Quando um Instituto de Previdência aplica seus recursos em empresas sólidas do ponto de vista ambiental, ele não está cedendo a uma moda: está protegendo aposentadorias.
E esse talvez seja o ponto mais importante: cuidar do meio ambiente é, cada vez mais, cuidar do futuro financeiro das pessoas.
REFERÊNCIAS
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