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JURÍDICO DESCOMPLICADO
Quando o Meio Ambiente Falha, a Previdência Sente: lições globais para fundos de pensão e institutos previdenciários

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Como desastres ambientais recentes expõem riscos atuariais e reforçam a necessidade de critérios ESG na gestão previdenciária

Por Vinicius Miguel - terça-feira, 09/12/2025 - 08h24

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Nos últimos anos, uma série de episódios ao redor do mundo deixou evidente algo que, até pouco tempo atrás, muitos gestores públicos ainda tratavam como detalhe: ignorar riscos ambientais pode comprometer o futuro financeiro de milhões de pessoas.

Quando falamos de fundos de pensão, regimes próprios de previdência e grandes investidores institucionais, isso significa algo ainda mais sério, insegurança atuarial.

Ou seja, o patrimônio acumulado para pagar aposentadorias pode, de repente, tornar-se insuficiente.

A crença de que aspectos ambientais são assuntos “laterais”, ou mero adorno ideológico, já não se sustenta.

O mercado internacional vem mostrando exatamente o contrário: questões ambientais e climáticas são riscos econômicos concretos, capazes de destruir valor de empresas e, por tabela, afetar fundos que investem nelas.

A seguir, trago três casos emblemáticos dos últimos cinco anos que ilustram por que institutos de previdência estaduais, como os brasileiros, precisam incorporar critérios ESG (Ambientais, Sociais e de Governança) de forma técnica, responsável e, acima de tudo, prudente.

O caso PG&E: quando incêndios florestais queimam também o patrimônio dos investidores

A PG&E, gigante do setor elétrico na Califórnia, entrou em colapso após ser responsabilizada por incêndios devastadores entre 2017 e 2018, incluindo o tristemente célebre Camp Fire, que destruiu 85% da cidade de Paradise e causou 85 mortes.

A empresa enfrentou US$ 25,5 bilhões em indenizações e acabou declarando falência em janeiro de 2019.

O que isso tem a ver com previdência? Tudo!

A queda abrupta das ações da PG&E — que chegaram a perder mais de 85% do valor de mercado, afetou diretamente investidores institucionais que mantinham posições na empresa, incluindo fundos de investimento e carteiras diversificadas de grandes gestores de recursos.

O que precipitou o desastre não foi apenas um acidente, mas a incapacidade da empresa de gerir riscos ambientais e climáticos crescentes, como secas prolongadas e infraestrutura vulnerável.

Em outras palavras: o risco ambiental transformou-se rapidamente em risco financeiro concreto.

3M e o custo dos “produtos eternos”: o passivo que engoliu bilhões

Outro exemplo marcante vem da 3M, empresa multinacional envolvida em litígios relacionados ao uso e descarte de substâncias químicas conhecidas como PFAS, apelidadas de “forever chemicals” por permanecerem no ambiente por décadas.

Em junho de 2023, a companhia anunciou um acordo de US$ 10,3 bilhões (valor presente) para resolver ações judiciais movidas por concessionárias de água contaminada nos Estados Unidos.

O acordo, que pode alcançar US$ 12,5 bilhões em valores nominais ao longo de 13 anos, recebeu aprovação final do tribunal em março de 2024.

A despesa bilionária afetou o caixa, o valor de mercado e a credibilidade da 3M e, novamente, quem sentiu o impacto foram fundos de investimentos e previdência que possuíam ações ou títulos da empresa.

A lição é direta: empresas com alto passivo ambiental carregam um risco oculto, que pode explodir anos depois e corroer a carteira de quem investe nelas.

 ESG que não se sustenta: quando rótulos verdes enganam investidores

Finalmente, um fenômeno recente merece atenção: o chamado “retrocesso ESG” e o problema do greenwashing.

Dados de mercado mostram que fundos ESG enfrentaram seu pior ano em 2023, registrando saídas líquidas de US$ 13 bilhões nos Estados Unidos, a primeira vez que isso acontecia desde que esse tipo de investimento ganhou popularidade.

Em 2024, as saídas continuaram, superando US$ 13 bilhões apenas no primeiro semestre.

O problema não foi apenas político.

Pesquisas e relatórios de mercado revelam que diversos fundos classificados como ESG, supostamente com forte compromisso ambiental e social, apresentaram desempenho abaixo da média em 2022 e 2023.

Parte significativa dessa performance negativa decorreu de fatores setoriais: muitos fundos ESG concentravam investimentos em empresas de tecnologia e energia renovável, setores duramente afetados pela alta de juros e mudanças macroeconômicas.

Porém, outro fator pesou: o greenwashing.

Casos como as multas aplicadas pela SEC (Securities and Exchange Commission) à DWS Group em 2023 e à Goldman Sachs em 2022 por exagerar compromissos ESG mostraram que o rótulo “sustentável” nem sempre correspondia à realidade.

Segundo pesquisa da EY de 2024, 85% dos investidores institucionais consideram que o greenwashing é um problema maior hoje do que há cinco anos.

O resultado foi simples e preocupante: rentabilidade abaixo da média, perdas para investidores institucionais e revisão das estratégias de investimento de grandes fundos de pensão, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.

Por que isso importa para os institutos de previdência brasileiros?

Institutos estaduais de previdência, como os Regimes Próprios (RPPS), administram recursos públicos que precisam durar décadas.

Cada má decisão hoje é uma crise atuarial amanhã. E, se o ambiente global nos ensina algo, é isto: riscos ambientais não são abstratos, empresas sem boa governança custam caro, ignorar sustentabilidade gera perdas reais, e incorporar critérios ESG é uma estratégia de proteção, não de militância.

Fazer a gestão previdenciária com responsabilidade fiscal e atuarial significa olhar para o futuro, inclusive o futuro ambiental.

Na prática, isso envolve desde evitar empresas com passivos ambientais significativos e históricos de multas até priorizar investimentos em companhias certificadas, analisar riscos climáticos de longo prazo e exigir governança transparente.

Quando um Instituto de Previdência aplica seus recursos em empresas sólidas do ponto de vista ambiental, ele não está cedendo a uma moda: está protegendo aposentadorias.

E esse talvez seja o ponto mais importante: cuidar do meio ambiente é, cada vez mais, cuidar do futuro financeiro das pessoas.

REFERÊNCIAS

CALIFORNIA DEPARTMENT OF FORESTRY AND FIRE PROTECTION. Camp Fire Incident Information. 2018. Disponível em: https://www.fire.ca.gov/incidents/2018/11/8/camp-fire/. Acesso em: 8 dez. 2024.

BLOOMBERG / TNFD. When the Bee Stings: Assessing Nature Risks in Global Markets – PG&E Case Study. 2024. Disponível em: https://tnfd.global/wp-content/uploads/2024/10/BNEF_When-the-Bee-Stings_PGE.pdf. Acesso em: 8 dez. 2024.

3M COMPANY. 3M Settlement with Public Water Suppliers to Address PFAS in Drinking Water Receives Final Court Approval. 2024. Disponível em: https://investors.3m.com/news-events/press-releases/detail/1836/3m-settlement-with-public-water-suppliers-to-address-pfas. Acesso em: 8 dez. 2024.

3M COMPANY. 3M Resolves Claims by Public Water Suppliers, Supports Drinking Water Solutions for Vast Majority of Americans. 2023. Disponível em: https://investors.3m.com/news-events/press-releases/detail/1784/3m-resolves-claims-by-public-water-suppliers-supports. Acesso em: 8 dez. 2024.

NPR. 3M reaches $10.3 billion settlement over contamination of water systems. 2023. Disponível em: https://www.npr.org/2023/06/22/1183922303/3m-reaches-10-3-billion-settlement-over-contamination-of-water-systems. Acesso em: 8 dez. 2024.

MORNINGSTAR. U.S. Sustainable Funds Register First Annual Outflows in 2023. 2024. Disponível em: https://www.morningstar.com/sustainable-investing/us-sustainable-funds-register-first-annual-outflows-2023. Acesso em: 8 dez. 2024.

EY. 2024 Institutional Investor Survey: ESG Data Use and Trust. 2024. Disponível em: https://www.esgtoday.com/85-of-investors-say-greenwashing-is-a-growing-problem-ey-survey/. Acesso em: 8 dez. 2024.

HARVARD LAW SCHOOL FORUM ON CORPORATE GOVERNANCE. Is 2024 past peak ESG? 2024. Disponível em: https://corpgov.law.harvard.edu/2024/09/16/is-2024-past-peak-esg/. Acesso em: 8 dez. 2024.

PACIFIC GAS AND ELECTRIC COMPANY. Chapter 11 Bankruptcy Information. 2019-2020. Disponível em: https://www.canb.uscourts.gov/case-info/pge-corporation-and-pacific-gas-and-electric-company. Acesso em: 8 dez. 2024.

AUTOR: VINICIUS MIGUEL





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