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PERSPECTIVA BERADEIRA
Uma análise que vai desagradar gregos e troianos: Venezuela além do favoritismo ideológico

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Entre ideologia, soberania e intervenção externa: uma reflexão crítica sobre Venezuela, Estados Unidos e os limites da leitura política simplificada

Por Rafael Ademir - terça-feira, 06/01/2026 - 13h58

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Rafael Ademir Oliveira de Andrade

Sociólogo, Doutor em Desenvolvimento Regional, Coordenador do Laboratório de Estudos em Populações Negligenciadas (São Lucas Afya) e professor permanente do PPG em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (UNIR).

Muito importante pensar que além da rapidez das redes sociais, é necessário entender que há a realidade-real. A ideologia é o meio pelo qual lidamos com a realidade, é um filtro ou óculos que usamos para ver o que é real. Desta forma, muito me impactou uma pessoa ter resposta tão rápida para um fenômeno tão complexo, sendo ela de direita ou de esquerda, só me deixando afirmar que é sua ideologia falando, deixando de ser um filtro para ser a única visão de realidade. Mas, tudo bem, somos todos seres ideológicos e lemos o mundo por este filtro político-cultural, o problema é você querer que sua visão (individual, intimista e não raramente infantil) seja a realidade totalizante.

Assim, minha análise vai desagradar gregos (esquerda) e troianos (direita), pois é esperado que eu tenha uma visão rápida e radical sobre a questão da Venezuela. Mas vamos lá, ser totalmente direcionado por sua ideologia sem o devido diálogo com a realidade/outras ideologias é privilégio de pessoas que estão em certas posições da sociedade brasileira, que se consideram acima das “pessoas comuns”: pessoas extremamente ricas, da classe políticas, ideólogos e certos funcionários no ápice de sua carreiras. Já outra parte da sociedade segue tais concepções ideológicas de seus intelectuais orgânicos – não raramente artificiais. Eu gosto de dar um tempo e pensar.

Deste meu “tempo e pensar” surgiram algumas reflexões que vou expor aqui em tópicos, para fácil entendimento, assim como irei debater ainda mais a questão do funcionamento da ideologia.

Para onde estava indo o Petróleo da Venezuela? A partir da nacionalização do petróleo em 1976, com a criação da PDVSA, a Venezuela passou a concentrar a renda petrolífera nas mãos do Estado, inaugurando a chamada era do Estado rentista. Nesse período, a riqueza do petróleo foi utilizada para financiar o orçamento público, grandes obras e o consumo interno, sustentado majoritariamente por importações.

Contudo, a ausência de políticas efetivas de diversificação produtiva e a captura da renda por interesses políticos e econômicos limitaram seus efeitos estruturantes. A dependência quase exclusiva do petróleo manteve o país vulnerável às oscilações do mercado internacional. Soma-se a isso o surgimento do embrião da corrupção que a partir dos anos 2000 tornaria-se ainda mais forte.

A partir de 1999, nos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, a renda petrolífera foi redirecionada para programas sociais e estratégias de redistribuição, ampliando o acesso a serviços básicos. Entretanto, a politização da PDVSA, a intensificação da corrupção e a fragilização institucional comprometeram a capacidade produtiva do setor. Com a queda dos preços do petróleo e o agravamento das sanções internacionais, o modelo entrou em colapso, revelando os limites de um desenvolvimento baseado na renda e não na transformação estrutural da economia.

Em síntese, as pessoas fugiam da Venezuela e viam para várias cidades/países não por vontade própria, mas porque havia uma pobreza que abarcava as classes médias e pobres do país, graças a tal da elite política e ampliação da corrupção: nada diferente do Brasil e aos EUA, mas com as nuances locais.

O governo de Maduro é legítimo? No começo da segunda década do século XXI, anarquistas e outras vertentes libertárias começaram a lutar contra os governos de Maduro (que começaram em 2013) e o Chavismo. Daqui do Brasil isso me acendeu um alerta: libertários tendem a se posicionar a favor de governos de esquerda mesmo que alguns direitos sejam retirados, entendendo que governos de esquerda são melhores que os de direita pensando do ponto de vista do libertarianismo/comunismo. Quando este governo de esquerda ultrapassa uma linha, há rebelião libertária.

Em seguida, imigrantes venezuelanos passam a ocupar a América Latina (AL) e minha cidade, Porto Velho, passa a receber centenas e milhares deles. Posteriormente, começam as denúncias na sociedade internacional de que as eleições foram fraudadas e a ausência de dados sobre o país vizinho aumentam. Essas coisas acendem vários alertas e me posiciono – na época – a favor do movimento libertário na sua busca pela liberdade, igualdade e autonomia do povo Venezuelano. Mas daí temos um salto grande:

O que Trump fez é um absurdo político: Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma operação militar em território venezuelano que resultou em ataques e incursões em Caracas e outras áreas, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, levados para Nova York para responder a acusações nos EUA. O governo norte-americano declarou que assumiria temporariamente o comando da Venezuela, justificando sua ação como parte do combate ao narcotráfico.

Esse episódio marcou uma ruptura sem precedentes nas relações bilaterais e gerou ampla condenação internacional. Do ponto de vista do direito internacional público, a operação contraria princípios centrais da Carta das Nações Unidas, em especial o Artigo 24, que proíbe o uso da força contra a soberania e a integridade territorial de outro Estado sem autorização do Conselho de Segurança da ONU ou legítima defesa.

A ausência de autorização multilateral e de um caso claro de legítima defesa põe em xeque a legalidade da intervenção, além de desafiar normas consuetudinárias como a imunidade de chefes de Estado. A ação suscitou debates em fóruns internacionais sobre o respeito à soberania, à não intervenção e ao papel das sanções e da força no sistema multilateral contemporâneo. Além disso, o Direito Internacional prevê também imunidade aos chefes de Estado, garantia básica da autonomia.

Reedição da guerra fria: Os Estados Unidos estão “perdendo” a corrida contra a China, ainda mais com o avanço do BRICS, já se fala da orientalização do mundo, quando os EUA saem do ponto central da “civilização humana” para se tornar um coadjuvante na ação da China.

Já sabemos que – considerando o que rolou da Guerra Fria (EUA versus URSS) a América Latina (AL) é considerada o quintal/base/celeiro dos EUA para que este possa lutar contra seu “grande inimigo”. No século passado as políticas neoliberais/ocupações militares/intervenções políticas foram as formas pelo qual os EUA marcaram sua presença na AL e reforçaram suas empresas/tropas/tecnologias para que pudesse fazer sua guerra – no passado nós perdemos e eles se transformaram em potência. É nosso desejo que isso continue? Se a resposta for “sim”, precisamos debater uma grande incoerência…

Maduro precisava cair…e quando cai nosso complexo de vira-lata? O Brasileiro precisa abandonar o lambe-botismo e o viralatismo urgentemente. Já li patriotas desejando que os EUA ocupassem o nosso território para “nos consertar”. Mas veja bem, os EUA só pensam neles e nós deveríamos pensar em nós.

A verdade é que preguiça e messianismo são elementos normais da nossa cultura: temos nenhuma vontade individual/coletiva de fazer valer nossa nacionalidade-identidade nacional e pegarmos as rédeas de nossa história para mudá-la (preguiça) e esperamos que um herói venha fazê-lo, enviado do céu (messianismo) ou de fora (dos EUA, por exemplo).

Defender uma invasão norte-americana ao país é o que há de mais entreguista e covarde e vermos políticos defendendo isso (e gente concordando) nos fala sobre o que é o Brasil hoje. Fruto de nosso analfabetismo político é essa galera. Do outro lado, defender que nada mude na Venezuela – onde há falta de clareza sobre dados da vida das pessoas, por exemplo – é o outro lado da moeda ideológica, também preguiçosa (do tipo: se for algo da esquerda eu concordo, se for da direita eu discordo…e vice-versa).

Por fim, gostaria de dizer que entrar em um país e sequestrar seu presidente é condenável, a comunidade internacional deveria se voltar contra isso e eu espero que façam. Doutro lado, achar que um país cujo funcionamento de suas instituições democráticas não são claras o suficiente é o desejável para a América Latina também não é o suficiente. os EUA e países aliados poderiam sim pressionar mais a comunidade internacional para ascender este debate. Mas o desejo é por algo além da democracia, é algo enterrado bem fundo em solo venezuelano.

Espero que aqueles que vestem a bandeira verde amarela para beber uma cervejinha durante os jogos da seleção de futebol se lembrem que nacionalismo/patriotismo (sei que são coisas diferentes, mas bora simplificar né?) não deve durar apenas 90 minutos. É preciso defender o Brasil sempre que ele for atacado. Concordar com ameaças externas não te faz superior, te faz um suplicante (por atenção virtual) ou um destituído (de amor próprio, de patriotismo, de dignidade).

Viva o Brasil, Viva a América Latina, sim. Mas antes de tudo: Viva a autonomia dos povos latinos em ditar sua própria história sem intervenção de ditadores nacionais ou estrangeiros.

Ps: Caso você não concorde comigo, dialogue com você, comigo, com suas fontes sobre os pontos que não concordou. Afinal, “a dúvida é o preço da pureza” e “toda unanimidade é burra”.  

AUTOR: RAFAEL ADEMIR





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