Dados oficiais, silêncio masculino e a cultura da camaradagem revelam como a masculinidade hegemônica sustenta o pacto de proteção aos abusadores e dificulta a responsabilização nos casos de violência sexual contra crianças
Rafael Ademir Oliveira de Andrade
Sociólogo, Doutor em Desenvolvimento Regional, Coordenador do Laboratório de Estudos em Populações Negligenciadas (São Lucas Afya) e professor permanente do PPG em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (UNIR).
O abuso infantil no Brasil permanece como uma das violações de direitos mais graves e persistentes, atravessando todas as classes sociais e regiões do país. Os dados apontam que a maioria dos abusadores é do sexo masculino: em casos de violência sexual contra crianças entre 0 e 9 anos, mais de 81% dos agressores são homens; para adolescentes de 10 a 19 anos, esse índice chega a 86% (BRASIL, 2023).
São comumente pais, padrastos ou outros homens da família, pessoas de confiança e convivência próximo, o que agrava a vulnerabilidade da criança diante da dependência emocional e material. Em muitas situações, o agressor não é um desconhecido, mas alguém que deveria proteger a criança, o que dificulta a denúncia e perpetua o ciclo de violência. Essa proximidade também favorece o silêncio da vítima, por medo ou vergonha, e reduz as chances de responsabilização. Combater esse mal exige políticas públicas eficazes, ampla conscientização social, fortalecimento da rede de proteção e incentivo à denúncia. Dessa forma, entendemos que a masculinidade tóxica (ou hegemônica) está no centro desta forma de violência.
A questão central é: será que a masculinidade debate também tal fenômeno? O que podemos perceber é que não.
Segundo levantamento de Vitória Régia Silva (2018) nas redes sociais, embora não existam dados totalmente consolidados sobre quem mais debate especificamente o abuso infantil, pesquisas sobre discussões relacionadas à violência, assédio e danos on-line indicam predominância feminina nesses diálogos.
Um estudo do Instituto Avon (SILVA, 2018) mostrou que as conversas sobre violência e assédio nas plataformas digitais são majoritariamente conduzidas por mulheres jovens, especialmente entre 18 e 24 anos. Pesquisas internacionais sobre danos on-line também revelam que mulheres são as principais vítimas desses ataques, o que contribui para uma maior participação delas em relatos, denúncias e discussões públicas. Além disso, análises sobre reações a denúncias de maus-tratos infantis mostram que o apoio nas redes surge de maneira variada, porém sem evidência clara de predominância masculina, reforçando a tendência de maior engajamento feminino em pautas de proteção e cuidado. Em resumo: mulheres falam pois são a maioria das vítimas, homens não falam pois são a maioria dos abusadores, é a tal da “camaradagem”.
Uma questão importante para se debater é quais são as posturas tomadas pela masculinidade em frente à um caso de abuso infantil, temos aquilo que é performado nas redes sociais e na tela dos cinemas — o homem vingador que faz tudo pela família — e temos a realidade do que é a cultura da camaradagem masculina.
Dialogando com um pai que teve sua filha abusada por seu padrasto, levantei alguns aspectos da masculinidade e sua relação com abuso infantil no que tange ao que fazer este homem:
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
++++
(Ponto 1): A masculinidade vai convidar o pai/responsável/parente a desistir do processo, não dizendo que o pai deve “deixar para lá”, mas vai tentar atribuir a culpa ao pai, não ao abusador. Este discurso cria um gap de culpa, espaço para não punição. A culpa é sempre atribuída à vítima ou, conforme este caso, a quem deseja de alguma forma punição pela violência. Na masculinidade, a culpa é do juiz, do professor, do pai, nunca de quem causou a violência — se a outra parte for uma mulher, melhor ainda.
(Ponto 2): A masculinidade vai repetir incessantemente que “mataria o sujeito”. É a forma que sempre foi usada para “lavar a honra”, causando o que se nomeia de revitimização da criança abusada: além de passar pela violência do abuso, passa pela violência de ter um pai assassino e/ou preso. Também esta postura é usada como forma de redimensionar a frustração e não raramente descamba em nada ser feito.
(Ponto 3): Pais e responsáveis em geral serão convidados ao silêncio. Para proteger a vítima e a família, é fundamental que não se faça nada e que, se fizer, que faça sem causar grande alarde. Há um pacto de proteção que não é da criança violada e sim do abusador. Homens em geral se preocupam com outros homens e isto tende a ser um sintoma da coletividade assumir que os homens em geral podem ser abusadores ou tendem ao abuso — se preocupar com a imagem do homem e não da vítima é uma idealização de proteger a si mesmo em um futuro eventual.
(Ponto 4): Por outro lado, pais que buscam a justiça formal — não aquela dos filmes, que na prática ocorre ainda mais raramente que a denúncia criminal — são apontados como destruidores da família, mentirosos, fracos e são apartados da família, não sendo homens de verdade. No caso a mim narrado, o pai foi “expulso” da família e o abusador acolhido em seu seio; era uma pessoa religiosa e de bem, sempre cercado de crianças.
Em suma, há um pacto de silêncio na masculinidade com relação ao abuso infantil ou violência contra mulheres. Não se fala, não se faz debate nas rodas de amigos, nada. Alguns anos atrás, uma pessoa fez referência a “deixar para lá” ou classificar como acidente a violência contra uma mulher e meu grupo de amigos na época expulsou o camarada das rodas; um desses meus amigos ainda printou e jogou nas redes sociais, gerando ameaças de processo e tudo mais. Tudo não saiu da ameaça, pois o covarde só é agressivo com aquele que considera mais fraco. É na covardia que surge o abusador, o torturador, o genocida, dentre outras práticas amplamente masculinas na história da humanidade.
Para os homens que rompem com tal pacto são atribuídas ofensas ou características femininas: “mocinha”, “fofoqueira”, “mulherzinha”. O homem vê a condição de mulher como uma ofensa, “uma falha”. Segundo estes, homem que é homem suporta tudo em silêncio… até mesmo o abuso da própria filha… mas não trai a masculinidade — quem trai merece o ostracismo e a violência.
Um salve para este pai que rompeu com o pacto da masculinidade tóxica. Que outros pactos sejam feitos e que neste, homem de verdade é aquele que denuncia, sofre, chora, perde, mas luta pela justiça.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde; Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Boletim Epidemiológico de Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes (2015–2021). Brasília, 2023.
SILVA, Vitória Régia. Com campanhas e hashtags, debate online sobre assédio quadruplica nos últimos três anos. Gênero e Número, 12 abr. 2018. Disponível em:
https://www.generonumero.media/reportagens/com-campanhas-e-hashtags-debate-online-sobre-asse
dio-quadruplica-nos-ultimos-tres-anos/
Acesso em: 09 dez. 2025.









