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O BLOCO QUE CRESCEU SEM CORDAS
Uma bailarina transformada, o carrinho em chamas e a burrinha sequestrada: as histórias que moldaram os 33 anos do Pirarucu do Madeira

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Criado como uma folia gratuita e sem cordas, o Pirarucu do Madeira reúne histórias que acompanham a transformação do Carnaval de Porto Velho ao longo de mais de três décadas

Por Informa Rondônia - sexta-feira, 16/01/2026 - 14h29

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Porto Velho, RO – Quando o Bloco Pirarucu do Madeira saiu às ruas de Porto Velho pela primeira vez, não havia trio elétrico, patrocínio, aparato de segurança ou estrutura profissional. Havia apenas a ideia de uma folia livre, sem cordas, sem abadás e sem cobrança de ingresso. Trinta e três anos depois, o desfile se consolidou como um dos maiores do Carnaval da Região Norte, reconhecido oficialmente como patrimônio cultural de natureza imaterial do município.

Primeiro registro do desfile do Pirarucu do Madeira, que completa 33 anos / Reprodução

À frente desse processo estão Luciana Oliveira, jornalista e vice-presidente do bloco, e Ernande Segismundo, presidente. Segismundo integra o grupo fundador e acompanhou, desde o início, a transformação de uma troça informal em um desfile de grandes proporções, que passou a exigir logística, financiamento, diálogo institucional e responsabilidade crescente.

Fabiane Pereira com o primeiro e o último estandarte do Pirarucu do Madeira / Reprodução

Eles são acompanhados pelo braço forte da Diretoria, Fabiane Pereira. Ela é tesoureira, mas desempenha múltiplos papéis junto com a Luciana Oliveira para levar a folia às ruas com segurança e pontualidade.

Bailarina da Praça e a guinada da vida após homenagem do Pirarucu do Madeira / Prefeitura-PVH

Entre as histórias que atravessam essa trajetória, uma das mais emblemáticas envolve a famosa Bailarina da Praça, homenageada pelo bloco em um de seus desfiles. Segundo Luciana Oliveira, a homenagem teve impacto direto na vida da mulher. Após o reconhecimento público promovido pelo Pirarucu, ela conseguiu um emprego na prefeitura, adquiriu a própria casa e passou a ter acesso a trios elétricos e palcos, algo que antes lhe era negado. De acordo com o relato, antes da homenagem, ela havia sido expulsa de todos os trios e palcos que tentou acessar. A mudança, nas palavras de Luciana, representou “um giro de 380 graus” em sua trajetória.

Pirarucu do Madeira era pura troça desde o início / Reprodução

A prática de homenagear personagens da cultura popular é estruturante no Pirarucu do Madeira. Todas as marchinhas e frevos do bloco, segundo a organização, são inspirados na história do Carnaval de Porto Velho e dedicados a pessoas consideradas relevantes para a memória cultural da cidade. A música, nesse contexto, funciona como registro simbólico de trajetórias que raramente aparecem nos espaços formais de reconhecimento.

O carrinho de som que pegou fogo e fez os foliões cantarem sozinhos até o fim / Reprodução

A precariedade dos primeiros anos também faz parte dessa memória. Um dos episódios lembrados envolve o primeiro carrinho de som do bloco, uma carrocinha artesanal, montada no fundo de uma casa, com um toca-fitas amarrado e fios aparentes. O equipamento pegou fogo no meio da avenida durante um desfile. Sem som, o bloco seguiu cantando “no gogó”, sustentado apenas pelas vozes dos foliões. O episódio, segundo Luciana, nunca foi divulgado pela imprensa tradicional e permanece registrado apenas em suas redes pessoais.

O resgate da burrinha sequestrada / Reprodução

Outra história que passou a integrar o repertório simbólico do Pirarucu do Madeira envolve a chamada Burrinha, uma alegoria utilizada em um dos desfiles e que acabou desaparecendo após o Carnaval. Segundo o relato de Luciana Oliveira, a alegoria foi simplesmente sequestrada. Durante semanas, ela recebeu mensagens de terceiros informando que a Burrinha teria sido vista em diferentes localidades, como o distrito de Mutum-Paraná, Guajará-Mirim e São Carlos. Em determinado momento, chegou a receber pedidos de resgate, com a cobrança de um valor considerado baixo. Mais de um mês depois do Carnaval, um amigo do grupo entrou em contato informando que a alegoria havia sido encontrada abandonada no meio da rua. A partir desse aviso, integrantes do bloco foram até o local e realizaram o resgate da Burrinha.

O crescimento do Pirarucu não fazia parte do projeto original. A ideia inicial era criar uma folia aberta, gratuita e descompromissada, destinada a quem quisesse brincar o Carnaval sem restrições. Com o passar dos anos, a adesão espontânea dos foliões fez o bloco crescer. O aumento do público trouxe custos maiores e exigiu uma mudança de postura da organização.

Depois um carro de som e só aí o trio elétrico: a história do Pirarucu do Madeira / Reprodução

Durante um período, o Pirarucu se beneficiou da percepção de que era um bloco pequeno, sem necessidade de enfrentar grandes exigências burocráticas. A ausência de documentação formal e autorizações era tolerada. O reforço policial também era mínimo. Há cerca de dez anos, o desfile contou com cinco policiais militares. Em 2025, esse número ultrapassou 70 agentes, refletindo a dimensão alcançada pelo evento.

Com essa mudança, o Carnaval passou a ser tratado pela organização como trabalho. Segundo Luciana Oliveira, a vivência da folia só acontece plenamente após o encerramento do desfile. Até lá, a prioridade é cumprir os princípios que orientam o bloco desde sua origem: Carnaval totalmente gratuito, seguro e com caráter familiar. Para sustentar esse modelo, a organização passou a buscar apoiadores, patrocínios e reconhecimento institucional, além de dialogar com o poder público sobre a relevância cultural do desfile.

Vista aérea do desfile do Pirarucu do Madeira em 2025 / Reprodução

O reconhecimento veio. O Bloco Pirarucu do Madeira foi oficialmente declarado patrimônio cultural de natureza imaterial de Porto Velho e passou a contar com apoio da Prefeitura, por meio da Fundação Cultural, além de empresas privadas e contribuições diretas de foliões. Segundo a organização, todos os anos há pessoas que se oferecem para ajudar financeiramente, reforçando o caráter coletivo do projeto.

Além da dimensão festiva, o Pirarucu se consolidou como espaço de campanhas educativas e sociais. A organização afirma ter sido pioneira, no Carnaval de Porto Velho, na realização de campanhas contra o assédio e a violência contra a mulher. Também promoveu ações voltadas ao respeito às pessoas com deficiência e realizou um manifesto indígena dentro da folia, acompanhado por três frevos indígenas. No campo ambiental, uma parceria com a organização EcoPoré resultou no plantio de 6 mil mudas de árvores frutíferas e florestais em áreas degradadas.

Embora tenha sido criado por um grupo com posicionamento ideológico definido e alinhado a pautas progressistas, o bloco nunca incorporou essa orientação à condução da folia. A direção faz questão de manter o caráter democrático do desfile, reunindo pessoas de diferentes espectros políticos. Segundo Luciana Oliveira, o princípio central é o respeito entre os foliões, independentemente de posicionamentos individuais.

O casal Luciana Oliveira e Ernande Segismundo / Reprodução

Ao completar 33 anos, o Pirarucu do Madeira reúne improviso, crescimento orgânico, engajamento social e memória coletiva. Da carrocinha improvisada que pegou fogo ao resgate improvável de uma alegoria perdida, o bloco se tornou parte do calendário e da identidade de Porto Velho. Para seus organizadores, a folia nunca foi apenas entretenimento, mas um exercício contínuo de convivência, cidadania e construção coletiva — sempre sem cordas, sem cobrança e com as ruas abertas.

A programação do Carnaval de 2026 terá início no dia 31 de janeiro, com a abertura oficial do baile municipal, que contará com apresentação da banda Puraqué.  Luciana Oliveira explicou que, embora o bloco tradicionalmente realize prévias carnavalescas, neste ano o calendário foi antecipado, fazendo com que o Carnaval comece mais cedo. De acordo com Luciana, a banda do Pirarucu do Madeira é formada por 13 integrantes, dos quais seis atuam como vocais. O desfile, portanto, está marcado para o dia 7 de fevereiro, no Circuito da Pinheiro, com concentração prevista a partir das 15 horas.

AUTOR: INFORMA RONDÔNIA





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