Criado como uma folia gratuita e sem cordas, o Pirarucu do Madeira reúne histórias que acompanham a transformação do Carnaval de Porto Velho ao longo de mais de três décadas
Porto Velho, RO – Quando o Bloco Pirarucu do Madeira saiu às ruas de Porto Velho pela primeira vez, não havia trio elétrico, patrocínio, aparato de segurança ou estrutura profissional. Havia apenas a ideia de uma folia livre, sem cordas, sem abadás e sem cobrança de ingresso. Trinta e três anos depois, o desfile se consolidou como um dos maiores do Carnaval da Região Norte, reconhecido oficialmente como patrimônio cultural de natureza imaterial do município.

À frente desse processo estão Luciana Oliveira, jornalista e vice-presidente do bloco, e Ernande Segismundo, presidente. Segismundo integra o grupo fundador e acompanhou, desde o início, a transformação de uma troça informal em um desfile de grandes proporções, que passou a exigir logística, financiamento, diálogo institucional e responsabilidade crescente.

Eles são acompanhados pelo braço forte da Diretoria, Fabiane Pereira. Ela é tesoureira, mas desempenha múltiplos papéis junto com a Luciana Oliveira para levar a folia às ruas com segurança e pontualidade.

Entre as histórias que atravessam essa trajetória, uma das mais emblemáticas envolve a famosa Bailarina da Praça, homenageada pelo bloco em um de seus desfiles. Segundo Luciana Oliveira, a homenagem teve impacto direto na vida da mulher. Após o reconhecimento público promovido pelo Pirarucu, ela conseguiu um emprego na prefeitura, adquiriu a própria casa e passou a ter acesso a trios elétricos e palcos, algo que antes lhe era negado. De acordo com o relato, antes da homenagem, ela havia sido expulsa de todos os trios e palcos que tentou acessar. A mudança, nas palavras de Luciana, representou “um giro de 380 graus” em sua trajetória.

A prática de homenagear personagens da cultura popular é estruturante no Pirarucu do Madeira. Todas as marchinhas e frevos do bloco, segundo a organização, são inspirados na história do Carnaval de Porto Velho e dedicados a pessoas consideradas relevantes para a memória cultural da cidade. A música, nesse contexto, funciona como registro simbólico de trajetórias que raramente aparecem nos espaços formais de reconhecimento.

A precariedade dos primeiros anos também faz parte dessa memória. Um dos episódios lembrados envolve o primeiro carrinho de som do bloco, uma carrocinha artesanal, montada no fundo de uma casa, com um toca-fitas amarrado e fios aparentes. O equipamento pegou fogo no meio da avenida durante um desfile. Sem som, o bloco seguiu cantando “no gogó”, sustentado apenas pelas vozes dos foliões. O episódio, segundo Luciana, nunca foi divulgado pela imprensa tradicional e permanece registrado apenas em suas redes pessoais.

Outra história que passou a integrar o repertório simbólico do Pirarucu do Madeira envolve a chamada Burrinha, uma alegoria utilizada em um dos desfiles e que acabou desaparecendo após o Carnaval. Segundo o relato de Luciana Oliveira, a alegoria foi simplesmente sequestrada. Durante semanas, ela recebeu mensagens de terceiros informando que a Burrinha teria sido vista em diferentes localidades, como o distrito de Mutum-Paraná, Guajará-Mirim e São Carlos. Em determinado momento, chegou a receber pedidos de resgate, com a cobrança de um valor considerado baixo. Mais de um mês depois do Carnaval, um amigo do grupo entrou em contato informando que a alegoria havia sido encontrada abandonada no meio da rua. A partir desse aviso, integrantes do bloco foram até o local e realizaram o resgate da Burrinha.
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O crescimento do Pirarucu não fazia parte do projeto original. A ideia inicial era criar uma folia aberta, gratuita e descompromissada, destinada a quem quisesse brincar o Carnaval sem restrições. Com o passar dos anos, a adesão espontânea dos foliões fez o bloco crescer. O aumento do público trouxe custos maiores e exigiu uma mudança de postura da organização.

Durante um período, o Pirarucu se beneficiou da percepção de que era um bloco pequeno, sem necessidade de enfrentar grandes exigências burocráticas. A ausência de documentação formal e autorizações era tolerada. O reforço policial também era mínimo. Há cerca de dez anos, o desfile contou com cinco policiais militares. Em 2025, esse número ultrapassou 70 agentes, refletindo a dimensão alcançada pelo evento.
Com essa mudança, o Carnaval passou a ser tratado pela organização como trabalho. Segundo Luciana Oliveira, a vivência da folia só acontece plenamente após o encerramento do desfile. Até lá, a prioridade é cumprir os princípios que orientam o bloco desde sua origem: Carnaval totalmente gratuito, seguro e com caráter familiar. Para sustentar esse modelo, a organização passou a buscar apoiadores, patrocínios e reconhecimento institucional, além de dialogar com o poder público sobre a relevância cultural do desfile.

O reconhecimento veio. O Bloco Pirarucu do Madeira foi oficialmente declarado patrimônio cultural de natureza imaterial de Porto Velho e passou a contar com apoio da Prefeitura, por meio da Fundação Cultural, além de empresas privadas e contribuições diretas de foliões. Segundo a organização, todos os anos há pessoas que se oferecem para ajudar financeiramente, reforçando o caráter coletivo do projeto.
Além da dimensão festiva, o Pirarucu se consolidou como espaço de campanhas educativas e sociais. A organização afirma ter sido pioneira, no Carnaval de Porto Velho, na realização de campanhas contra o assédio e a violência contra a mulher. Também promoveu ações voltadas ao respeito às pessoas com deficiência e realizou um manifesto indígena dentro da folia, acompanhado por três frevos indígenas. No campo ambiental, uma parceria com a organização EcoPoré resultou no plantio de 6 mil mudas de árvores frutíferas e florestais em áreas degradadas.
Embora tenha sido criado por um grupo com posicionamento ideológico definido e alinhado a pautas progressistas, o bloco nunca incorporou essa orientação à condução da folia. A direção faz questão de manter o caráter democrático do desfile, reunindo pessoas de diferentes espectros políticos. Segundo Luciana Oliveira, o princípio central é o respeito entre os foliões, independentemente de posicionamentos individuais.

Ao completar 33 anos, o Pirarucu do Madeira reúne improviso, crescimento orgânico, engajamento social e memória coletiva. Da carrocinha improvisada que pegou fogo ao resgate improvável de uma alegoria perdida, o bloco se tornou parte do calendário e da identidade de Porto Velho. Para seus organizadores, a folia nunca foi apenas entretenimento, mas um exercício contínuo de convivência, cidadania e construção coletiva — sempre sem cordas, sem cobrança e com as ruas abertas.
A programação do Carnaval de 2026 terá início no dia 31 de janeiro, com a abertura oficial do baile municipal, que contará com apresentação da banda Puraqué. Luciana Oliveira explicou que, embora o bloco tradicionalmente realize prévias carnavalescas, neste ano o calendário foi antecipado, fazendo com que o Carnaval comece mais cedo. De acordo com Luciana, a banda do Pirarucu do Madeira é formada por 13 integrantes, dos quais seis atuam como vocais. O desfile, portanto, está marcado para o dia 7 de fevereiro, no Circuito da Pinheiro, com concentração prevista a partir das 15 horas.




