Produção realizada em Porto Velho integra a programação do festival mineiro e está entre os cinco projetos escolhidos no país em edital voltado à promoção do audiovisual brasileiro
As informações são de Cammy Lima
Porto Velho, RO – Selecionado entre apenas cinco projetos em todo o Brasil no ano de 2025, o curta-metragem Beira chega à 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes como representante de Rondônia em um dos mais relevantes espaços de exibição do cinema nacional. Realizada em Porto Velho, a obra terá estreia no dia 31 de janeiro, às 19h, em sessão no Cine Praça, integrando a programação oficial do evento.
A produção foi contemplada pelo Edital de Curtas-Metragens “Brasil com S”, iniciativa da Embratur voltada à promoção internacional da imagem do país por meio do audiovisual. O edital prioriza narrativas contemporâneas que valorizam diversidade, identidades, culturas e territórios brasileiros, eixo que dialoga diretamente com a pesquisa artística desenvolvida por Marcela Bonfim ao longo de sua trajetória.
Com direção, roteiro, direção de produção e composições musicais assinadas por Marcela Bonfim, Beira se ancora nas margens visíveis e invisíveis de Porto Velho para construir uma narrativa atravessada por ancestralidade, espiritualidade e cuidado. Saberes historicamente deslegitimados como conhecimento científico são incorporados à trama como elementos estruturantes da sustentação comunitária, sem idealização do passado, mas a partir da escuta das memórias que permanecem ativas.
A narrativa ilumina trajetórias negras e vivências LGBTQIA+ tradicionalmente silenciadas, transformando territórios periféricos em espaços de elaboração simbólica e reinscrição da experiência dissidente no imaginário amazônico. No filme, a chamada Amazônia Negra não é apresentada apenas como recorte geográfico, mas como território simbólico, afetivo e político. A “beira” extrapola o sentido físico e passa a ser compreendida como estado de existência, onde corpos historicamente marginalizados seguem resistindo e fluindo.
A estética articula linguagem documental, realismo poético e elementos de realismo mágico. O rio, as casas antigas e a paisagem amazônica são incorporados como extensões da memória e da identidade dos personagens. A paisagem sonora, construída a partir de sons urbanos, águas, rezas, batuques e silêncios, reforça a permanência do passado no presente narrativo.
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Ao abordar histórias guardadas nas casas antigas e nas correntezas do Rio Madeira, o filme lança uma questão central que atravessa toda a obra. “Quantas histórias ainda permanecem guardadas nas margens das cidades, esperando para serem contadas?”, indaga a diretora. Em outro momento, a realizadora afirma que as margens não devem ser compreendidas como espaços de exclusão definitiva, mas como territórios de memória, afeto, força e renascimento, onde existir à margem se converte em gesto político.
A construção do filme contou com parcerias institucionais estratégicas. Entre elas, destaca-se o apoio do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia, que autorizou a realização de filmagens em suas dependências. A colaboração viabilizou uma das cenas centrais da obra, marcada pela representação da juíza Cora, mulher negra que simboliza a ocupação de um espaço historicamente atravessado por desigualdades raciais. A cena foi realizada com a colaboração da magistrada Miria do Nascimento de Souza, que cedeu seu ofício para a gravação.
No campo musical, Beira conta com a participação do cantor e compositor Marcelo Jeneci na canção “Juízo”, composta por Marcela Bonfim, com produção musical de Thiago Maziero. A trilha amplia a dimensão sensível da narrativa e reforça o diálogo entre imagem, som e memória.
A presença da pauta LGBTI+ atravessa o filme de forma estrutural. Com participações de Karen Diogo e Rafaela Correia, a obra apresenta narrativas de pessoas trans e travestis no contexto amazônico, afirmando presença e complexidade dessas vivências. A representatividade também se expressa na ficha técnica, com Rafaela Correia atuando como atriz e montadora, reforçando o compromisso ético do projeto com a autonomia criativa de pessoas LGBTI+ no audiovisual.
A sinopse acompanha Eva, que retorna a Porto Velho para resgatar a antiga casa da avó, parteira e benzedeira da comunidade. No reencontro com a cidade, a personagem revisita afetos, segredos e silêncios do passado. Entre memórias guardadas em um velho baú e novas descobertas ao lado de Rafaela, Eva confronta sua própria história e as ausências que moldaram sua identidade.
Marcela Bonfim nasceu em Jaú, interior de São Paulo, em 1983, e está radicada em Porto Velho. Fotógrafa, artista visual e realizadora audiovisual, é criadora do projeto (Re)conhecendo a Amazônia Negra. Sua obra articula arte, território, memória e ativismo, consolidando-se como uma das principais vozes do cinema negro amazônico contemporâneo. Leia mais em: https://mostratiradentes.com.br




