Em entrevista ao Resenha Política, ex-prefeito de Ji-Paraná aborda concessão da rodovia, rebate críticas sobre operação policial, analisa cenário de 2026 e confirma retorno ao jogo eleitoral
Porto Velho, RO – A retomada do nome de Jesualdo Pires ao debate eleitoral veio acompanhada de críticas diretas a um dos temas mais sensíveis do momento em Rondônia: o pedágio da BR-364. Durante participação no podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira em parceria com o Rondônia Dinâmica, o ex-prefeito de Ji-Paraná e ex-deputado estadual classificou o atual cenário da concessão como uma “tragédia”, apontou valores que considera elevados e atribuiu a crise a falhas de acompanhamento político ao longo do processo.
Na avaliação apresentada pelo entrevistado, a insatisfação popular não estaria ligada à concessão em si, mas à combinação entre tarifas consideradas altas e execução que, segundo ele, ainda não se reflete em melhorias percebidas na rodovia. Ao comentar a cobrança antes da entrega de obras visíveis, Pires sustentou que o modelo não foi devidamente monitorado e afirmou que a reação posterior das lideranças se concentrou na transferência de responsabilidades. Em uma das falas mantidas em destaque, declarou: “Os preços são abusivos”.
O ex-prefeito relatou ter sentido o impacto no uso cotidiano da rodovia ao mencionar deslocamentos recentes. Segundo ele, um trajeto entre Porto Velho e Ariquemes, ida e volta, pode ultrapassar R$ 170 em tarifas. A experiência foi citada como exemplo do que classificou como custo incompatível com a realidade local. Em tom crítico, afirmou: “Eu acho uma tragédia o que está acontecendo com Rondônia nessa questão da concessão da BR”. No mesmo contexto, disse estar reunindo dados e levantando a hipótese de que o trecho figure entre os mais caros do país por quilômetro, acrescentando que, na sua leitura, a qualidade do serviço ainda não acompanha o valor cobrado.
As críticas avançaram para o histórico de manutenção da rodovia e alcançaram o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Pires afirmou considerar falha a atuação do DNIT em Rondônia, especialmente na política de reparos emergenciais. Segundo ele, a ausência de manutenção preventiva teria encarecido intervenções ao longo do tempo. Em fala preservada, afirmou: “O DNIT, pra mim, sempre foi um órgão muito falho em Rondônia”, associando o desgaste do asfalto à sobrecarga e à ação da água sem resposta rápida do poder público.
No campo político, o entrevistado associou o debate sobre o pedágio a um padrão recorrente de comportamento das lideranças. Ao concordar com análise feita pelo apresentador, sustentou que, em momentos de crise, prevalece a tentativa de atribuir culpa a terceiros. “Aqui, salvo raríssimas exceções, a nossa classe política é pródiga em colocar a culpa nos outros”, afirmou. Em outro momento, endossou a metáfora de que “a culpa é sempre do mordomo, do porteiro”, ao tratar dos reflexos desse ambiente em disputas eleitorais e até em relações pessoais.
Questionado sobre referências frequentes a uma operação da Polícia Federal ocorrida durante uma de suas gestões em Ji-Paraná, Pires negou qualquer irregularidade e disse não responder a processos judiciais. Afirmou que não possui ações cíveis ou criminais e que nunca foi denunciado. “Eu nunca tive um processo. Nem cível, nem criminal. Nem denunciado”, declarou. Reconheceu, no entanto, que o tema causa desgaste familiar e mencionou apenas pendências administrativas, como uma multa eleitoral estimada em R$ 20 mil e uma penalidade técnica aplicada pelo Tribunal de Contas, afastando a hipótese de improbidade.
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Sobre a operação, afirmou que a condução foi “espalhafatosa” e destacou que, até hoje, não houve condenações. Disse acreditar que a deflagração após o período eleitoral evitou impacto maior em sua imagem e relatou ter tido acesso a informações do inquérito que, segundo sua narrativa, indicariam postura contrária a pressões sobre a comissão de licitação. Em uma das passagens citadas, afirmou que servidores teriam reconhecido que eventuais interferências seriam comunicadas diretamente ao prefeito.
A entrevista também percorreu o cenário político de 2026. Pires disse integrar a federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, e avaliou o quadro estadual como indefinido. Mencionou pré-candidaturas já colocadas, movimentos partidários em curso e nomes que circulam no debate, como Adaílton Fúria, Expedito Netto, Hildon Chaves, Marcos Rogério e o prefeito Delegado Flori. Relatou ainda conversas recentes com lideranças e citou o empresário Marcelo Lucas, ligado ao setor agroindustrial, ao tratar das articulações em torno da federação.
No mesmo bloco, afirmou que pretende dialogar com a deputada Sílvia Cristina para compreender os rumos do grupo após a formalização da federação e avaliou que a definição de uma candidatura própria ao governo segue indefinida. Para ilustrar a complexidade do cenário, recorreu a uma metáfora técnica ao dizer que se trata de uma “equação de décimo grau”, com múltiplas variáveis em jogo.
O governador Marcos Rocha também foi citado, mas sem afirmações conclusivas. Pires disse não enxergar sentido em uma reaproximação política após trocas públicas de acusações e mencionou entrevista em que o governador teria se referido ao vice como “traidor”, avaliando que esse nível de ruptura inviabilizaria uma recomposição.
No terço final da conversa, o ex-prefeito retomou sua trajetória pessoal. Natural do interior de São Paulo e engenheiro civil, afirmou ter chegado a Rondônia em 1982, onde iniciou carreira na construção civil e estruturou empresa com atuação estadual, hoje administrada pelo genro. Disse que a entrada na política ocorreu de forma gradual, a partir de convites para compor chapas majoritárias em Ji-Paraná, até a eleição para deputado estadual e, posteriormente, para a prefeitura, com percentuais expressivos de votos mencionados por ele.
Ao relembrar 2018, afirmou que disputou o Senado sem estrutura e reconheceu falhas de estratégia, apesar de ter alcançado cerca de 200 mil votos. Após um período de afastamento que classificou como sabático, declarou estar motivado a retornar, agora como pré-candidato a deputado federal. Segundo ele, o incentivo veio de conversas com Sílvia Cristina, que buscaria um nome para representar a região central enquanto se coloca na disputa ao Senado.
No encerramento, Pires afirmou que já organiza a pré-campanha, montou equipe de mídia digital e pretende dialogar especialmente com eleitores mais jovens. Comentou mudanças no ambiente político com as redes sociais, criticou a destruição de reputações em curto espaço de tempo e disse que o debate deveria priorizar problemas concretos do cotidiano. Ao final, voltou ao tema econômico, mencionou a carga tributária elevada e comparou o retorno dos impostos no Brasil com países escandinavos, ao afirmar que o problema não estaria apenas em quanto se paga, mas na qualidade do serviço entregue.




