Em sabatina na Rádio Caiari, pré-candidato da Rede chama hospitais de “campo de concentração”, pede intervenção federal no João Paulo II e acusa “bandalheira” em OS
Porto Velho, RO – Samuel Costa, pré-candidato ao Governo de Rondônia pela Rede Sustentabilidade, foi o entrevistado do programa A Voz do Povo, apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá na Rádio Caiari FM 103,1, na última quinta-feira, 12. Na conversa, ele confirmou que mantém a pré-candidatura e rechaçou a hipótese levantada pelo apresentador de que estaria apenas “se cacifando” para outro cargo, como deputado. “De fato, nós somos pré-candidatos, sim, e eu espero profundamente ter o apoio de todos os partidos, do campo progressista”, afirmou, ao ser pressionado sobre a permanência no projeto.
A entrevista foi marcada por falas duras de Costa sobre a saúde pública, a estrutura de poder no estado e a relação entre política e imprensa. Ao tratar da fila de cirurgias eletivas, ele disse que Rondônia teria “mais de 10 mil pessoas” aguardando procedimentos, número que associou a cerca de “1% do eleitorado rondoniense”. Em seguida, descreveu o que, segundo ele, seria visto no Hospital Oswaldo Cruz na madrugada: “Se você for às 4h30 da manhã no Oswaldo Cruz, você vai ver o que se repetia na Alemanha nazista de Adolf Hitler. É um campo de concentração de pessoas adoecidas”. Arimar reagiu pedindo objetividade sobre soluções, e Costa apontou concursos públicos para recompor quadros, além de garantir “ao menos o piso nacional da enfermagem”.
Ao discutir modelos de gestão, o pré-candidato criticou as Organizações Sociais na saúde. “Implementaram uma tal das OES, que são as Organizações Sociais, que por onde passou foi sinônimo de bandaleira e roubadeira”, declarou, citando o caso de um ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, como exemplo de crise e judicialização envolvendo o tema. Na mesma linha, usou Guajará-Mirim para sustentar o argumento de que obras e prédios não resolveriam o atendimento sem pessoal especializado: disse que a estrutura poderia parecer moderna “como o Sírio-Libanês”, mas “não tem material humano, não tem pessoal, não tem anestesista”.
Foi nesse trecho que a sabatina ganhou o tom mais explosivo. Costa afirmou ser necessário investigar “cartéis” ligados a cirurgias ortopédicas, cardiológicas, oftalmológicas e à área de anestesia. Confrontado por Arimar sobre a existência de provas, respondeu: “É evidente, meu irmão”, e sustentou a tese com um exemplo: citou a abertura de concurso para anestesista com salário de “40 mil reais” para 40 horas semanais e afirmou que “nenhum” tomaria posse porque, segundo ele, os profissionais estariam “raptados por uma empresa” que “está faturando muita grana” dentro da Secretaria de Saúde. Arimar voltou a questionar a materialidade das acusações e, então, Costa apontou um caminho de apuração: “É só a gente começar a investigar agora o nepotismo cruzado”, mencionando situações que, na visão dele, afetariam a fiscalização.
Nesse ponto, ele citou nomes e fez alegações específicas: disse que um “promotor da saúde” teria ligação pessoal com uma servidora que teria sido nomeada como ouvidora municipal na gestão de Hildon Chaves e insinuou que denúncias de população “adormeciam” na ouvidoria; mencionou ainda Marcos Rogério ao afirmar que o senador grava vídeos “da bandeira vermelha” e declarou que a ex-mulher dele estaria nomeada na Anatel, com salário “mais de 80 mil”. Ao falar sobre riscos de responsabilização, trouxe um apelo religioso: “O 8º mandamento do Velho Testamento diz, não levantarás falso testemunho”, e provocou que os citados o processassem, enquanto defendeu debates “ao vivo”, “sem teleprompter” e “sem marqueteiro”. No fechamento do programa, quando perguntado por ouvinte sobre o Hospital João Paulo II, reforçou a proposta de “decreto de calamidade pública” e “intervenção do governo federal” para “minimize o sofrimento do povo”.
A agenda de polêmicas também alcançou segurança pública e o alto escalão do Estado. Costa atacou o que chamou de “turma de coronel” em áreas da gestão e da Polícia Militar, e reclamou de remunerações elevadas: “Essa turma aí de coronel, que tá ganhando salário superior de juiz federal, mais de 40 mil de salário, 25 mil de CDS”, enquanto, segundo ele, o “praça” estaria na rua em condições precárias. Ele criticou operações e discursos que classificou como “bravatas” e “personagens caricatos”, e afirmou que, em Porto Velho, o cenário teria piorado: “Nós tínhamos duas facções criminosas. Agora nós temos ao menos cinco instaladas no município de Porto Velho”.
No eixo político-institucional, Costa direcionou a artilharia ao sistema proporcional e ao que chamou de controle por “caciques eleitorais”. Para sustentar a crítica, citou episódios e nomes: afirmou que apenas dois deputados federais em Rondônia teriam “conseguido ser eleitos sozinhos”, mencionando Marinha Raupp em 2010 e Fernando Máximo em 2022. Disse também que Carlos Magno teria sido “cortado” de uma convenção em 2022 “por ter muito voto”. O pré-candidato ainda citou Jair Montes ao falar de “cálculo aritmético” para eleições e construção de bancadas, num raciocínio em que parlamentares considerados “bons” ficariam inviabilizados pelo desenho do sistema.
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
A entrevista também trouxe ataques à dinâmica de poder em Porto Velho. Costa declarou que, na Câmara Municipal, “os 23” vereadores teriam sido eleitos na “chapa da Mariana Carvalho” e afirmou que o prefeito Léo Moraes não teria eleito vereador. Em seguida, ironizou a atuação do vereador Marcos Combate, descrevendo-o como “voz do deserto”, “incisivo” e capaz de “lacrar” em vídeo, mas questionando a “efetividade” e “entrega”. Na mesma sequência, citou o Instituto Trata Brasil para afirmar que Porto Velho carregaria indicadores negativos de saneamento e chegou a dizer que a cidade teria sido apontada como “segunda pior capital” do país em determinados recortes do tema.

Ao tratar de nomes da política local, Samuel Costa mencionou a vereadora Sofia Andrade, afirmando que ela “batia em todo mundo” antes de eleita e que “agora ficou calada”, ao alegar que estaria alinhada ao Executivo municipal com “indicação de parentes”. Ele acrescentou que, embora isso “não seja ilegal”, “não pega legal pra ela”. Ao longo do diálogo, voltou ao tema da imprensa e afirmou que Léo Moraes teria “domínio de 100% da imprensa de Porto Velho”. Disse ainda que jornalistas que abrem espaço para contraditório sofreriam represálias por verbas publicitárias e citou diretamente Arimar Souza de Sá e Rubens Coutinho, do site Tudo Rondônia, chamando-os de exceções. “Você e o Rubens Coutinho do Tudo Rondônia são os únicos jornalistas de Rondônia que estão fazendo jornalismo de verdade”, declarou, relatando que Coutinho estaria sofrendo “represália” de diferentes esferas de poder. No intervalo, Arimar reforçou que estaria sob “pressões” e “ameaças” para não entrevistar certos nomes, e garantiu que levaria “todos” os pré-candidatos ao programa.
No campo da biografia e da autopromoção, Costa se apresentou como professor, advogado, jornalista e “especialista em ciência política”, com 36 anos, e afirmou ter atuado no serviço público. Disse que decidiu transformar “indignação” em militância e declarou que seu movimento seria “suprapartidário”. Ele também afirmou ter ficado “milionário aos 30 anos, de forma lícita, sem roubar ninguém”, ressaltando que não teria restrições em SPC e Serasa, que nunca teve cheque devolvido e que não usa cartão de crédito. A fala foi interrompida por Arimar com surpresa, e Costa insistiu que o dado constaria nas informações da Justiça Eleitoral, em comparação com a vereadora Mariana Carvalho.
Ao falar de educação, Costa defendeu a inclusão de “Estudo Moral e Cívico”, “Educação Financeira” e “Empreendedorismo” na grade curricular, chamando parte dessas ideias de “pauta da direita”. Ele argumentou que o superendividamento seria um problema central e usou exemplos de renda e gasto para ilustrar. Citou ainda o Maranhão e Flávio Dino como referência de políticas de escola em tempo integral e valorização salarial, ainda que reconhecendo a existência de críticas sobre situação financeira do estado. Também defendeu que o piso nacional do magistério seja pago no “vencimento”, e não apenas como complemento, relatando a experiência da própria mãe com abono permanência para não perder renda ao se aposentar.
No bloco sobre desenvolvimento e meio ambiente, Costa citou o projeto “RECTA” na Ponta do Abunã e voltou à regularização fundiária, descrevendo a questão como “histórica” e “crônica”. Ao ser provocado por Arimar sobre fiscalização ambiental, respondeu com uma discussão sobre “razoabilidade” e poder de polícia, e construiu uma comparação entre pequenos e grandes produtores: disse que um agricultor que “desmatou meio hectare” para plantar mandioca não deveria receber multa de “dois milhões”, mas afirmou que, em casos de grandes áreas, como mencionou ao citar o empresário Jaime Bagattoli e um exemplo de “500 hectares”, o Estado deveria ser “mais imperativo”. Também declarou que haveria um “lobby” de grandes proprietários que, segundo ele, “se apropriam da pauta da agricultura familiar”, e diferenciou pequenos criadores de gado do agronegócio.
A parte de articulação política trouxe uma tentativa de conciliação com o tom anterior. Costa reconheceu que governar exige coalizões e defendeu diálogo, dizendo que “o que nos une é maior do que aquilo que nos separa”. Mesmo assim, voltou a fazer afirmações que inflamaram a sabatina: declarou que não se “espantaria” se o governador Marcos Rocha votasse nele e acrescentou: “Eu vejo no sorriso dele, quando ele me vê, me abraça”. Também disse que “mais da metade” dos 23 vereadores de Porto Velho votariam nele, embora, segundo ele, “podem não falar”.
No encerramento, ele se definiu como progressista, mas afirmou ser “mais liberal do que muitos” que se dizem liberais, e disse que busca ir “mais para o centro” para “cativar mais pessoas”. Ao falar de temas morais usados em polarização, ironizou debates sobre “kit gay” e “banheiro”, e defendeu que governo deve seguir a lei e priorizar políticas como educação integral, valorização de profissionais, prevenção em saúde e parcerias sociais. Também prometeu, se eleito, não perseguir “jornalista independente” e pediu fiscalização da gestão: “Se eu for governador, quero que você bata em mim mesmo, que você fiscalize”, afirmou ao apresentador. Ao final, agradeceu a Arimar e ao público, convidou ouvintes a acompanharem o programa e divulgou suas redes sociais.
