Reflexão contrapõe avanços científicos capazes de transformar vidas à predominância de temas triviais no debate público e nas redes sociais
Nesta sexta-feira, 20, o jornalista Cícero Moura aborda como discussões políticas e sociais se cruzam com a forma como a sociedade escolhe onde colocar sua atenção, contrastando a relevância de avanços científicos que podem devolver mobilidade a pessoas com lesões medulares com o espaço desproporcional ocupado por polêmicas, disputas e temas imediatos no ambiente público e digital, além de refletir sobre os impactos éticos, culturais e econômicos dessas escolhas coletivas.
DESTAQUES
No momento em que as redes sociais fervilham com o escândalo da semana, a briga do reality show ou o tropeço de uma celebridade, uma descoberta científica com potencial de mudar radicalmente a vida de milhares de pessoas passa quase despercebida.
REVOLUÇÃO
E não se trata de possibilidades. Estamos falando de pesquisas que podem permitir que tetraplégicos voltem a andar.
PESQUISAS
Nos últimos anos, avanços liderados por instituições como a École Polytechnique Fédérale de Lausanne (EPFL) e centros hospitalares universitários na Europa vêm desenvolvendo interfaces cérebro-coluna.
PESQUISAS 2
São estimuladores neurais implantáveis e sistemas que reconectam sinais cerebrais às áreas da medula espinhal responsáveis pelo movimento.
PESQUISAS 3
Em experimentos divulgados por grupos ligados à EPFL e ao CHUV, pacientes com lesões graves na medula conseguiram ficar em pé e dar passos com auxílio de dispositivos eletrônicos que “traduzem” a intenção do cérebro em impulsos elétricos direcionados.
SOBRENATURAL
Não se trata de milagre. Trata-se de ciência de altíssimo nível, construída ao longo de décadas, envolvendo neuroengenharia, inteligência artificial e reabilitação intensiva.
FATO
É a prova de que o cérebro humano continua emitindo sinais mesmo após uma lesão medular — e que, com tecnologia adequada, esses sinais podem ser reaproveitados.
REALIDADE DA INTERNET
Embora isso seja uma revolução para a humanidade, compare o espaço dedicado a esse avanço com o espaço dado a assuntos banais.
FOFOCA
Uma polêmica trivial vira manchete principal, gera debates inflamados, ocupa horas de programação e domina timelines.
SEM INTERESSE
Já uma descoberta que pode devolver autonomia, dignidade e esperança a tetraplégicos recebe, quando muito, uma nota tímida.
PREFERÊNCIA
Isso revela algo incômodo: nossa atenção coletiva está cada vez mais capturada pelo imediato, pelo raso e pelo emocionalmente fácil.
DIVERGENTES
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
Ciência exige contexto, explicação, paciência. Futilidades exigem apenas reação.
MUITO ALÉM
A possibilidade de um tetraplégico voltar a dar passos não é apenas uma notícia médica. É um divisor de águas ético e social.
SAÚDE
Significa menos dependência, menos internações, menos custos públicos de longo prazo e, principalmente, mais qualidade de vida.
DEPENDÊNCIA
Significa devolver a alguém o controle sobre o próprio corpo. Movimentar muito mais do que apenas os olhos.
PAULATINAMENTE
É claro que ainda estamos em fase de testes clínicos. Não é uma solução disponível amanhã para todos.
ESPERANÇA
Há desafios técnicos, custos elevados e necessidade de validação em larga escala. Mas o simples fato de já haver pacientes com lesões severas conseguindo movimentar as pernas com auxílio de implantes é um marco histórico.
VIDA REAL
Enquanto isso, seguimos debatendo trivialidades com fervor quase religioso.
DEBATE
A questão não é ignorar o cotidiano ou os temas leves. É reequilibrar prioridades. É reconhecer que avanços científicos que ampliam a autonomia humana deveriam ocupar o centro do debate público.
INSPIRAÇÃO
Deveriam inspirar jovens a seguir carreira científica. Deveriam mobilizar investimento e políticas públicas.
CONTRAMÃO
Se a sociedade aprende a vibrar com o irrelevante e bocejar diante do extraordinário, algo está fora do eixo.
CULTURA
Talvez a verdadeira revolução não seja apenas tecnológica. Talvez seja cultural: aprender a dar mais espaço ao que transforma vidas — e menos ao que apenas entretém por alguns minutos.
FRASE
O que realmente importa quase nunca grita — exige reflexão.

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