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TRATAMENTO PARA PARALISIA
Polilaminina entra em fase 1 de testes clínicos e pesquisa brasileira busca comprovar tratamento para lesões na medula

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Substância estudada por cientistas da UFRJ será aplicada em voluntários para avaliar segurança e possíveis efeitos na recuperação de movimentos após lesões medulares.

Por Yan Simon - segunda-feira, 09/03/2026 - 08h31

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Porto Velho, RO – Os testes clínicos com a polilaminina, substância estudada como possível tratamento para lesões na medula espinhal, devem iniciar ainda neste mês. A etapa marca o começo da fase 1 de ensaios em humanos, destinada principalmente à avaliação da segurança do composto. O estudo foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e será conduzido no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Cinco voluntários poderão participar da pesquisa. Os pacientes devem ter entre 18 e 72 anos e apresentar lesões agudas completas da medula espinhal torácica, entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica realizada até 72 horas após o trauma. Durante o estudo, serão monitorados possíveis eventos adversos, alterações neurológicas e indicadores laboratoriais relacionados à toxicidade hepática ou renal.

A pesquisadora responsável, a bióloga Tatiana Sampaio Coelho, informou que a equipe acompanhará o comportamento da substância no organismo e eventuais alterações clínicas nos pacientes. Segundo ela, também serão avaliados possíveis indícios de eficácia, mesmo que essa análise normalmente seja realizada apenas em fases posteriores de ensaios clínicos.

O professor de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Eduardo Zimmer, explica que o desenvolvimento de novos medicamentos costuma ocorrer em três etapas principais. Na fase inicial, o objetivo é verificar se a substância é segura para uso humano e entender como ela se comporta no organismo, incluindo absorção, metabolização e eliminação.

Os estudos com a polilaminina diferem parcialmente do modelo tradicional porque a substância é aplicada diretamente na medula espinhal. Por essa razão, os testes não serão feitos em voluntários saudáveis, mas em pacientes com lesão medular aguda.

Antes da etapa atual, os pesquisadores realizaram um estudo-piloto entre 2016 e 2021 com oito pacientes que haviam sofrido lesões completas na medula após acidentes ou ferimentos. Sete deles também passaram por cirurgia de descompressão da coluna, procedimento comum nesses casos.

Dois participantes morreram ainda durante a internação hospitalar devido à gravidade das lesões, e outro faleceu posteriormente em decorrência de complicações. Entre os cinco pacientes que receberam a substância e sobreviveram, foram registrados ganhos motores em diferentes níveis.

A evolução foi medida pela escala AIS, utilizada para classificar o grau de comprometimento neurológico. Quatro pacientes passaram do nível A para o nível C, recuperando sensibilidade e movimentos de forma parcial. Um participante alcançou o nível D, com recuperação mais ampla das funções motoras.

Esse paciente foi Bruno Drummond de Freitas, que sofreu uma fratura cervical em 2018 e ficou tetraplégico. Ele relatou que percebeu o primeiro sinal de recuperação ao conseguir mover o dedão do pé algumas semanas após o procedimento. “Foi uma virada de chave”, afirmou. Bruno explicou que inicialmente não percebeu a importância do movimento, mas que foi informado pela equipe médica de que o sinal indicava comunicação entre o cérebro e o restante do corpo.

Com o tempo, outros movimentos foram recuperados e o paciente iniciou um processo prolongado de fisioterapia e reabilitação na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). Atualmente, ele consegue caminhar e apresenta limitações apenas em alguns movimentos das mãos.

Apesar desses resultados, os pesquisadores ressaltam que o estudo piloto não é suficiente para comprovar cientificamente a eficácia da polilaminina. Artigo preliminar divulgado pela equipe destaca que até 15% dos pacientes com lesão medular completa podem recuperar movimentos de forma espontânea.

Além disso, avaliações realizadas logo após o trauma podem sofrer interferência de fatores como inflamação e inchaço, o que pode levar inicialmente a diagnósticos mais graves do que o quadro real.

A substância investigada surgiu a partir de um achado experimental durante estudos com a laminina, proteína presente em diversas estruturas do corpo humano. Ao testar um solvente em laboratório, a pesquisadora Tatiana Sampaio observou que as moléculas não se separavam, mas se uniam formando uma rede. Essa estrutura recebeu o nome de polilaminina.

No sistema nervoso, proteínas da família das lamininas funcionam como suporte para os axônios, estruturas responsáveis pela transmissão de sinais entre os neurônios. Em lesões medulares, esses axônios são rompidos, interrompendo a comunicação entre o cérebro e o restante do corpo.

A hipótese dos pesquisadores é que a polilaminina possa servir como uma nova base para o crescimento dessas estruturas nervosas, permitindo que os sinais voltem a ser transmitidos.

Caso os testes avancem para a fase 2, os cientistas pretendem avaliar diferentes doses da substância em um número maior de voluntários. Já a fase 3, considerada a principal etapa de comprovação de eficácia, envolve normalmente centenas de participantes e comparação com grupos de controle.

Segundo especialistas em ética em pesquisa, esses estudos precisam seguir protocolos rigorosos. O ex-presidente da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, Jorge Venâncio, explica que, em geral, participantes são divididos aleatoriamente entre grupos que recebem ou não o tratamento experimental para que seja possível medir os resultados de forma confiável.

Ele observa que a aplicação da polilaminina pode apresentar desafios metodológicos, porque o tratamento precisa ocorrer pouco tempo após a lesão, enquanto os efeitos podem levar meses ou anos para serem avaliados.

Mesmo assim, adaptações podem ser feitas quando justificadas, especialmente em pesquisas voltadas a doenças raras ou com poucas opções terapêuticas disponíveis.

As pesquisas continuam sendo acompanhadas por comitês de ética e pela Anvisa. A coordenadora da Instância Nacional de Ética em Pesquisa, Meiruze Freitas, afirmou que os estudos permanecem monitorados mesmo após a autorização inicial para garantir que os participantes não sejam expostos a riscos indevidos.

Ela afirmou que a polilaminina representa uma possibilidade que desperta expectativa, mas destacou que todas as etapas científicas precisam ser cumpridas. Segundo ela, os procedimentos existem para garantir dados confiáveis e evitar que a população seja exposta a tratamentos sem comprovação.

Atualmente, o principal marco regulatório sobre o tema no Brasil é a Lei 14.874, sancionada em 2024, que estabeleceu novos prazos para análise de pesquisas clínicas. O texto determina que comitês de ética respondam em até 30 dias e que a Anvisa avalie os pedidos em até 90 dias.

Para a pesquisadora Tatiana Sampaio, o avanço de tecnologias médicas no país também depende do fortalecimento da ciência pública. Ela afirma que o investimento contínuo em pesquisa é fundamental para que o Brasil desenvolva suas próprias soluções científicas.

Com informações de: Agência Brasil

AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO) – LinkedIn





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