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DISCURSO DE ÓDIO
Termos como “redpill”, “incel” e “machosfera”: entenda as expressões usadas por grupos misóginos na internet

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Vocabulário difundido em fóruns e redes sociais está associado à defesa de hierarquias de gênero e ao estímulo de discursos de ódio contra mulheres, apontam especialistas.

Por Yan Simon - quinta-feira, 12/03/2026 - 08h51

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Porto Velho, RO – Discussões sobre misoginia e violência de gênero voltaram ao centro do debate público após especialistas apontarem que comunidades virtuais dedicadas ao ódio contra mulheres ajudam a alimentar comportamentos agressivos no mundo real. Segundo pesquisadores e ativistas, fóruns online, redes sociais e outros canais digitais vêm sendo usados há décadas para difundir discursos que defendem hierarquias entre homens e mulheres.

Esses movimentos são frequentemente associados ao fenômeno estrutural da misoginia, definido como o ódio contra mulheres e a defesa da preservação de privilégios históricos masculinos nos campos social, cultural, econômico e político. De acordo com especialistas, narrativas disseminadas nesses ambientes digitais podem funcionar como combustível para episódios de violência, como casos recentes de agressões e estupros coletivos registrados no país.

Nos ambientes virtuais onde essas ideologias circulam, há também um conjunto de códigos e termos específicos usados para reforçar a visão de mundo desses grupos. Entre as estratégias identificadas está o uso do termo “misandria”, apresentado como um suposto preconceito contra homens. A expressão é frequentemente utilizada para argumentar que políticas públicas e legislações de proteção às mulheres seriam, segundo esses grupos, instrumentos de ataque à masculinidade.

Em contraposição ao feminismo, movimento que defende igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, parte dessas comunidades adota o chamado masculinismo. A corrente reúne ideologias que defendem uma noção de masculinidade tradicional e a manutenção de papéis sociais diferenciados para cada gênero.

A ativista e feminista Lola Aronovich relata que enfrenta ataques virtuais desde 2008, quando criou o blog “Escreva Lola Escreva”. A mobilização contra essas agressões resultou na prisão de um dos responsáveis e também contribuiu para a criação da Lei nº 13.642/2018, que atribuiu à Polícia Federal a responsabilidade pela investigação de conteúdos misóginos publicados na internet.

Ao comentar o perfil dos agressores, Lola afirmou que, desde o início do blog, percebeu características semelhantes entre os responsáveis pelos ataques. “Desde o começo do meu blog, percebi que são homens héteros, de extrema direita. Todos apoiam lideranças como Bolsonaro e Trump”, declarou. Segundo ela, esses indivíduos costumam reunir diversos tipos de preconceito, incluindo racismo, homofobia, xenofobia, gordofobia e capacitismo.

Entre os termos recorrentes nesses espaços virtuais está “machosfera”, expressão usada para definir um conjunto de fóruns, canais de vídeo e grupos em redes sociais voltados à defesa de uma masculinidade considerada dominante e à oposição aos direitos das mulheres. Já os chamados “chans” são fóruns anônimos frequentemente associados à circulação de discursos extremistas, ataques coordenados e divulgação de conteúdos íntimos.

Outro grupo citado por pesquisadores são os “incels”, abreviação da expressão inglesa involuntary celibates, ou celibatários involuntários. O termo se refere a homens que afirmam não conseguir relacionamentos afetivos ou sexuais e atribuem essa situação às mulheres ou a padrões sociais, frequentemente com discurso marcado por ressentimento.

O vocabulário inclui ainda o termo “redpill”, inspirado no filme Matrix. Nas comunidades misóginas, a expressão é usada para indicar homens que acreditam ter despertado para uma suposta realidade em que as mulheres manipulam e exploram os homens. A partir dessa visão, defendem a retomada de posições dominantes masculinas e a submissão feminina.

Outras correntes surgiram dentro dessas comunidades, como o MGTOW, sigla para Men Going Their Own Way, que reúne homens que defendem o afastamento completo de relacionamentos com mulheres. Também aparecem os chamados Pick Up Artists, conhecidos pela sigla PUA, que divulgam técnicas de manipulação psicológica com o objetivo de obter relações sexuais, tratando mulheres como conquistas ou recompensas.

Há ainda termos que organizam uma suposta hierarquia social e física entre homens e mulheres. Entre eles está o “blackpill”, teoria segundo a qual o sucesso social e afetivo de um homem seria determinado exclusivamente pela genética. Em oposição, “bluepill” é usado de forma pejorativa para se referir a homens que acreditam na igualdade de gênero ou buscam relações consideradas saudáveis.

Nessa lógica, aparecem ainda arquétipos como “Chad”, descrito como homem fisicamente atraente e sexualmente desejado, e “alfa”, idealização do homem dominante, líder e bem-sucedido. Em contraste, o “beta” é apresentado como o homem comum, retratado por esses grupos como submisso ou socialmente inferior. Já o termo “sigma”, popularizado em plataformas como o TikTok, descreve um suposto “alfa solitário” que rejeita validação social.

As mulheres também são classificadas nesses ambientes. “Stacy” é a designação para mulheres consideradas extremamente atraentes e de alto status, enquanto “Becky” identifica aquelas vistas como de aparência comum. Outro termo recorrente é “White Knight”, expressão usada de forma depreciativa para homens que defendem mulheres ou pautas feministas.

Entre as gírias ofensivas usadas nesses fóruns está “depósito”, utilizada para reduzir mulheres a objetos destinados ao prazer masculino. Há também teorias como a regra “80/20”, que afirma que a maioria das mulheres disputaria um pequeno grupo de homens considerados mais atraentes ou ricos.

Outros conceitos incluem a hipergamia, que descreve a crença de que mulheres buscariam apenas parceiros com maior status social ou econômico, e a sigla AWALT, abreviação da frase em inglês “All women are like that”, utilizada para generalizar comportamentos femininos. Já os termos “femoids” ou “FHOs” são usados de forma ofensiva para desumanizar mulheres, sugerindo inferioridade em relação aos homens.

Com informações de: Agência Brasil

AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO) – LinkedIn





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