Porto Velho é a Terra do Maranhão. E o Maranhão é terra da macumba.
Parafraseando, esse processo tem nome, sobrenome e origem: Esperança Rita da Silva e Irineu dos Santos, fundadores do Terreiro de Santa Bárbara, o mais antigo de Porto Velho.
Inclusive, nome este, ESPERANÇA RITA, que foi dado à primeira e única maternidade municipal de Porto Velho. Mas chegarei nessa parte depois!
Maranhense de origem, Esperança Rita, conhecida como Mãe Esperança, chegou ao então território do Guaporé acompanhando o fluxo de trabalhadores nordestinos que migraram para cá — hoje, Porto Velho — no final do século XIX, impulsionados pelo primeiro ciclo da borracha e, posteriormente, pela construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
Com esses homens e mulheres, não vieram apenas os braços para o trabalho, mas também as suas crenças, com suas entidades, fundamentos e modos de culto. Foi nesse contexto que se estruturaram as primeiras práticas religiosas de matriz africana em Porto Velho. A migração maranhense, nesse período, trouxe referências do Tambor de Mina, tradição afro-religiosa profundamente enraizada no estado do Maranhão, que encontrou nesta região da Amazônia um espaço para continuar suas raízes religiosas, adaptar-se e manter a resistência.
A pesquisa “A Nagoização dos Cultos Umbandistas em Porto Velho”, do professor e historiador Hiago de Paiva Cardoso, traz à luz o reconhecimento da importância das expressões do Tambor de Mina acerca das demais casas de cultos religiosos afroameríndios da região de Porto Velho até os tempos atuais.
De acordo com o estudo, Mãe Esperança foi a mulher que deu o pontapé inicial de uma jornada espiritual e histórica em Porto Velho, iniciando com o Terreiro de Santa Bárbara, fundado em 1916. Reconhecido historicamente como o primeiro espaço de culto afro-brasileiro de Porto Velho e um dos mais antigos da Amazônia fora do estado do Maranhão, o terreiro permanece em atividade até hoje.
E foi a partir deste pontapé de Mãe Esperança Rita que, aqui, nessa terra às margens do rio Madeira, se estruturou a presença das práticas religiosas de matriz africana em Porto Velho. O Terreiro de Santa Bárbara, onde a tradição praticada no espaço é a Mina Nagô, torna-se, assim, o ponto de partida da tradição afro-amazônica local e norteamento fundamental para a formação dos demais terreiros que surgiriam nas décadas seguintes, funcionando como uma matriz simbólica, ritual e histórica da religiosidade.
Apesar de não ser o intuito adentrar nos ritos religiosos, por parte de quem vos escreve, ressalto que a tradição do Tambor de Mina se caracteriza pelo culto aos voduns, aos encantados, e também aos orixás, pela forte presença de elementos indígenas amazônicos e por uma musicalidade profundamente marcada pelo tambor, além de ritos, cantos e doutrinas oriundos do Maranhão.
E me perdoem os que discordam, mas, visivelmente, a tradição religiosa que vivemos em Porto Velho sofre, sim, influências da mais antiga casa religiosa, que foi responsável por moldar a identidade espiritual local e estabelecer fundamentos que atravessam gerações.

E explico
Porque foi a partir daí que, do Terreiro de Santa Bárbara, formaram-se sacerdotes, práticas rituais, modos de culto e referências simbólicas que influenciaram diretamente outros terreiros, inclusive aqueles que, mais tarde, passariam a se identificar como casas de Umbanda ou de Candomblé. Mesmo quando assumiram novas nomenclaturas ou dialogaram com outras matrizes religiosas, essas casas mantiveram vínculos estruturais com a tradição inaugurada por Mãe Esperança.
E, ao meu ver particular, e como filha de uma casa de religião de matriz afroameríndia — e não sou de Tambor de Mina —, isso é algo que deve ser visto de grande valor para nós.
Este “legado” faz parte de nossa história, memória e identidade própria, o que é um privilégio!!! É algo que os atuais ainda podem vivenciar: essas raízes vivas em nosso meio. Daqui a uns anos, provavelmente se saberá muito pouco o motivo de certas características e tradições em casas de axé, pois se tende a esquecer, ignorar ou até mesmo reprimir o que vem de nossa história.
Umbanda nagoizada???
A influência do Terreiro de Santa Bárbara ultrapassa os limites do tempo e da própria casa. Entre as figuras formadas ou diretamente influenciadas por esse espaço, destaca-se Albertino Barbosa dos Santos, conhecido como Seu Albertino, herdeiro espiritual e liderança do terreiro, responsável pela continuidade dos fundamentos e pela preservação da tradição Mina Nagô ao longo das décadas.
E, mais tarde, os jovens religiosos que caminharam ao seu lado também se tornaram referências, desta vez, da Umbanda em Porto Velho, como Celso Guimarães de Lima e Hilton Monteiro da Veiga, fundadores do Terreiro de São Sebastião. Portanto, seguindo essa trajetória, ajuda-se a compreender por que a Umbanda na capital rondoniense, de acordo com o professor Hiago Paiva, já nasce nagoizada, profundamente marcada pela tradição Mina e pela encantaria amazônica.
E para finalizar a parte dos ritos, entre as características do Terreiro de Santa Bárbara que presenciamos nas demais casas de axé em Porto Velho estão o culto à encantaria e a manutenção de rituais tradicionais, como a distribuição de axés. Afinal, quem já foi a uma casa de Umbanda, por exemplo, sabe que lá recebemos o que chamamos de axé, que, para muitos leigos, pode ser denominado como bênçãos que vêm dos espíritos para sua vida, um presente aos presentes naquele culto.
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É sempre uma mulher
E, além disso, temos que reconhecer que, mais uma vez, uma mulher conseguiu atravessar toda uma trajetória de ciclos migratórios, períodos de repressão e preconceito religioso, e o seu legado ainda resiste às profundas transformações urbanas. O Terreiro de Santa Bárbara, diante disso tudo, sempre manteve-se como espaço de acolhimento, resistência e transmissão de saberes ancestrais.
E a memória de Mãe Esperança Rita, assim como a memória espiritual implantada com o Terreiro de Santa Bárbara, permanece viva e profundamente entrelaçada à própria história de Porto Velho.
Em síntese, o Terreiro de Santa Bárbara não é apenas o primeiro terreiro da cidade. Ele constitui o pilar fundador da religiosidade do axé em Porto Velho e o ponto de origem de uma identidade espiritual amazônica que ainda hoje se manifesta nos tambores, nos encantados e na ancestralidade que resiste em sua fé.
A primeira Mãe religiosa e seu reconhecimento apagado
Mulher negra, maranhense e sacerdotisa do Tambor de Mina, ela foi uma das fundadoras do Terreiro de Santa Bárbara, em 1916, e responsável direta por fincar as bases da religiosidade afro-brasileira na capital rondoniense, devendo ser reconhecida como uma das figuras mais centrais da nossa história. Essa mulher tem, ainda, sua importância esquecida, sendo lembrada, em muitos momentos, apenas nas pesquisas acadêmicas.
E, ao pouco reconhecimento, nem teve sua importância devidamente reconhecida. Redundante, mas incrivelmente real.
Alguém sabe o nome da única maternidade municipal da cidade de Porto Velho? MÃE ESPERANÇA, certo?! Nem tanto!
Quem é essa Mãe Esperança?
O nome da maternidade municipal tem em sua origem uma senhora maranhense, líder religiosa, e, repito, não teve o seu devido reconhecimento. Corretamente e moralmente reconhecido seria o nome da maternidade municipal se chamar MÃE ESPERANÇA RITA! PARA QUE TODOS POSSAM LEMBRAR A ORIGEM DE SEU NOME E LEGADO! Mas, por conveniências que não me convêm citar, nunca foi dado o nome completo à pessoa que deveria ser devidamente homenageada.
Pode até assustar para muitos, mas se trata de Mãe Esperança Rita, macumbeira — no dito mais popular local — e, sim, uma mãe — mãe de muitos filhos — que semearam, com suas tradições, o berço de muitas casas religiosas de axé de Porto Velho.
O grande desafio
Para mim, foi um grande desafio ler e compreender o que, inclusive, escrevi. O mais importante foi e sempre será a importância desse contexto todo. Estamos diante de fundamentos que demonstram que nossa Umbanda, e até algumas práticas de Candomblé, não se constituíram de uma simples importação de modelos religiosos oriundos do eixo Sul-Sudeste, ou seja, não estão nos moldes do TikTok e das demais redes sociais que assistimos.
Nossa religiosidade, digo nossa, pois muitos são da mesma fé que exerço, parte de um enraizamento profundo nas tradições afro-amazônicas já existentes. A presença do Tambor de Mina Nagô, introduzido no início do século XX com a fundação do Terreiro de Santa Bárbara, não apenas antecede a Umbanda na cidade, como estrutura, molda e atravessa seus modos de culto até os dias atuais.
A nagoização, defendida pelo historiador, pesquisador e Babalorixá Hiago Paiva, nos explica que a Umbanda em Porto Velho é o resultado de um processo histórico de continuidade, adaptação e resistência de práticas, símbolos, encantados e fundamentos do Tambor de Mina que vieram do Maranhão e foram incorporados, ressignificados e preservados nos terreiros locais.
Esse fenômeno demonstra que a identidade religiosa — no que tange às de macumba, e falo popularmente, sem medo e sem vergonha, mas com orgulho — aqui, na capital rondoniense, é resultado de um convívio permanente entre tradições, marcada pela força da encantaria e pela centralidade dos saberes ancestrais trazidos pelos migrantes maranhenses.
E, para encerrar
Que sejamos respeitosos pela fé alheia! Que seu axé não seja motivo para ferir o axé do outro. Que a história, que moldou tão lindamente nossas raízes religiosas, não seja destruída por nós mesmos, pois filho de axé permanece em pé! Sua mão, sua boca e, principalmente sua postura, seja de acolhimento e jamais de segmentação entre os que dizem ser seus.









