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ENTRE LINHA E MARGENS
Manual de Sobrevivência da Moribunda

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Um relato de infância, memória e sobrevivência emocional nas ruínas silenciosas de Porto Velho do garimpo

Por Cammy Lima - terça-feira, 18/11/2025 - 12h01

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Quando eu era criança, adolescente, aprendi a engolir minhas dores chifrins — essas mesquinhas, que nunca despertaram interesse em ninguém. Ninguém queria ouvir, ninguém queria saber. Então eu despejava tudo em textos enormes, poemas tortos e sonhos amassados no papel.

Hoje, aquela criança continua em mim, igualzinha, só que agora temperada com a amargura bem adulta que a vida fez questão de ensinar.

E talvez — quem sabe, né? — quando eu finalmente mudar de plano, esses textos de uma moribunda ganhem algum valor. Porque em vida, aparentemente, só serviram pra eu não enlouquecer de vez.

Talvez tudo isso tenha a ver com a infância que eu tive. A infância que muitos pais, como eu, nem imaginam o quanto pode marcar — ou destruir — um infante. A minha foi praticamente uma sessão contínua de tortura, um cenário que eu só consigo descrever como uma paleta avermelhada, escura, da cor de um sangue já podre.

As memórias são confusas, truncadas, mas eu era só uma criança. Essa leitura cruel que faço hoje é adulta; é só agora que entendo o quanto aquelas vivências tortuosas moldaram minhas reações, minhas fugas e meus silêncios.

Cresci nesse cenário, onde a vida das pessoas parecia sempre à beira de desaparecer junto com a poeira do garimpo. As histórias que eu via e ouvia se misturavam com a rotina pesada daquele ambiente, marcando minha infância com imagens que, até hoje, não consigo separar completamente.

E talvez seja por isso que, quando penso no que me tornei, consigo perceber o quanto aquele lugar moldou minhas memórias e minhas reações. Tudo o que vivi ali — a normalização da perda, o sumiço constante das pessoas, a dureza da sobrevivência — acabou se entranhando em mim de um jeito que só agora consigo entender.
A crueza daquela época continua presente, não como nostalgia, mas como cicatriz que me acompanha. Foi ali que aprendi a olhar o mundo com esse peso que carrego, porque, desde o começo, a vida ao redor nunca foi simples, nem gentil.

Crescer ali, em Porto Velho do garimpo, já me colocou nesse lugar de estranhamento permanente. E talvez por isso eu tenha aprendido tão cedo a escapar para dentro da minha própria cabeça. A imaginação sempre foi a porta que se abria quando nada mais fazia sentido — e eu passei muito tempo atravessando essa porta.

Os lapsos vieram como consequência: memórias da infância, decepções amorosas, pessoas que cruzaram meu caminho, laços que deveriam ser importantes… tudo se desfaz, como se eu desligasse alguma chave interna e começasse de novo. É assim que funciono: abandono, esvazio, me reseto.

E no meio desse mecanismo de sobrevivência, as páginas escritas surgiram. Muitas já foram para o lixo, mas foram elas que começaram a construir quem eu seria. Foram elas que me aproximaram da história rasgada da minha cidade, dessa violência que existia antes de mim e mesmo assim me moldou.

Na universidade, eu fugia das minhas próprias aulas para assistir o que realmente me chamava: aquilo que tinha sido apagado, silenciado, distorcido. E foi nesses pedaços que me reconheci. Nunca precisei ser historiadora para amar ouvir — ouvir sempre foi meu norte. Ler, hoje, nem tanto. Mas ouvir… ouvir é quase mágico.
Esse fascínio me empurrou ao jornalismo. Fui atrás das histórias que me chamavam, das narrativas que deixavam marcas. Algumas renderam polêmica, outras apenas ficaram ecoando em mim.

E é assim que sigo: vivendo nessa mistura de Poe com Augusto dos Anjos, carregando o desconforto de ser sempre o pássaro fora do ninho. Eu passo pelos lugares, mas não ancoro. Não permaneço. Vincular-me, ficar, firmar raízes — isso sim me incomoda.

A humanidade me fere na frieza, mas ainda encontro beleza onde ninguém olha: no luar encoberto, no que permanece sóbrio, silencioso e à margem. Assim como eu.
Procuro sempre amar de maneira genuína, e talvez por isso seja tão fácil me colocarem no lugar conveniente — aquela pessoa com quem podem falar como querem, agir como querem, até que a fera adormecida resolva erguer a cabeça.

Eu amo as pessoas; me jogo inteira. Mas também sei me retirar inteira. E é nesse fôlego do mergulho sem pensar no fundo que passo dias melancólica, às vezes perdida… até que reseto. E recomeço.

Quem fica ao meu lado no caos são poucos — e esses são os verdadeiros. Alguns me resgataram sem perceber, outros simplesmente me seguram no colo de um jeito que acalma o que desperta dentro de mim, como se tocassem numa parte que nem eu entendo direito.

E quando o caos chega, eu me desamo. Desejo até a minha própria inexistência — melhor a minha do que a de qualquer outro. Mas, no fundo mais sombrio, existe aquela pequena lista de pessoas que eu queria ver sentindo, na minha frente, a dor que me atravessou. A dor que rasgou o que eu chamava de alma e me deixou muda, sem saber como desabafar.

No geral, vivo essa tensão: o ser que eu deveria ser — amorosa, genuinamente sociável — e o ser que sou, feito de rupturas, silêncios, mergulhos e recomeços. Talvez seja por isso que abracei o caos até naquilo que acredito ser meu próprio caminho.

Não estou lamentando o que me tornei. Na verdade, reconheço. Tenho consciência. Talvez isso aqui seja apenas a forma mais honesta de justificar mais um passo da minha vida. E, com o medo absurdo que carrego, sei que pode chegar o dia em que eu volte aqui trazendo outra metamorfose instalada em mim.

Ela já está há muito tempo me torturando. Eu seguro. Guardo. Empurro. Mas ela insiste em ganhar fôlego nesse mergulho estranho que chamamos de vida.
E quando minha matéria estiver fria, sem pulso, talvez eu consiga olhar para o momento e para o passado ao mesmo tempo — e, finalmente, descrever a beleza que existe nisso tudo: no osso, no caos, na insanidade, na dualidade constante do meu ser.

PS: Essas palavras não são verdades, nem mentiras. São apenas o reflexo torto de tudo o que guardo — fragmentos que existem no limite entre o que senti, o que imaginei e o que tentei esquecer. Escrevi lembrando de quem, um dia, enxergou o mundo com a mesma estranheza bonita que eu. Analtinho… este pedaço de caos vestido de prosa é seu.

AUTOR: CAMMY LIMA





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