Memória do Barbadian Town, comunidade negra que trouxe blues, jazz e escola em inglês a Porto Velho, revela como o “Alto do Bode” foi apagado do mapa, mas resiste na história da cidade.
O que passa na memória portovelhense quando enunciamos que aqui houve influência do Blues e do Jazz no início da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré? Talvez muitos de nós nem imaginemos que a música já foi instrumento de aprendizado e alfabetização, e em inglês. É até triste perceber que, ao nos depararmos com nossa própria memória, fica evidente o quanto ela foi, em muitos momentos, afligida e pouco ouvida pelo próprio povo que a vivenciou.
Quando me refiro à memória, falo das diversas situações ocorridas no período de povoamento da cidade, nos tempos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré – EFMM. Essa memória ainda fervilha em muitos imaginários, inclusive no meu. Entre tantos relatos que precisam ser escritos para valorizar nosso fortalecimento cultural e social, há histórias marcadas por lapsos, apagamentos e silenciamentos em nome do desenvolvimento. Uma delas é a do tão imaginado Alto do Bode.
BARBADIAN TOWN E SUAS ORIGENS
Barbadian Town — nome que deveria constar entre os destaques na memória histórica da cidade — ficou conhecido popularmente como Alto do Bode. Para quem pesquisou um pouco sobre a construção da conhecida Ferrovia do Diabo tem ideia de que, no período da sua concepção, vieram para Porto Velho os conhecidos “Barbadianos”. Lapso ou erro de termo, pois o nome Barbadiano era usado para identificar os antilhanos e, mais especificamente, os provenientes de Granada, Barbados, Jamaica, República Dominicana e Trinidad e Tobago. Esse povo foi colonizado pela Inglaterra, tinha como língua falada o inglês e, em sua maioria, professava a religião protestante. Lembremos disso.
À medida que os negros da América Central se estabeleciam aqui, crescia a necessidade de constituir um espaço que pudessem chamar de lar, preservando características culturais e sociais próprias. Mesmo imaginando permanecer temporariamente, começaram a se organizar na área central, construindo casas de palafitas e de madeira, com quintais cheios de árvores e animais. Ficavam estrategicamente isolados, e essa geografia não era aleatória.
Na organização espacial da cidade naquele período, havia uma clara divisão social: a área do Caiari, planejada, urbanizada e destinada aos engenheiros, administradores, médicos e trabalhadores de alto escalão ligados à empresa da ferrovia; e as áreas adjacentes, como o Alto do Bode, para trabalhadores braçais, estrangeiros de baixa renda e todos que não se encaixavam no padrão social esperado pela elite local.
Assim, Barbadian Town surgia como um espaço de autonomia, ainda que marcado pela separação territorial. Esse local, considerado privilegiado por permitir ver toda a cidade do alto, ocupava uma área que hoje não existe mais fisicamente. Pesquisas indicam que se situava entre o atual Bairro Triângulo, o Rio Madeira e a divisão formada por um igarapé.
ALTO DO BODE
Entretanto, o isolamento não foi o único problema. Embaixo, na cidade que se arquitetava ao redor da ferrovia, o lar dos barbadianos passou a ser chamado de Alto do Bode. O nome veio da associação preconceituosa à cor, ao cheiro e à forma como falavam. Os brasileiros não compreendiam o dialeto dos negros presentes ali e passaram a comparar a língua dos barbadianos com a de um bode.
Além disso, percorria no imaginário brasileiro o desconhecimento das origens religiosas dos negros, onde a discriminação racial chegava ao ponto de afirmar que eles não possuíam alma e tinham costumes pagãos, cultuando satã. Vale lembrar que a maioria desse povo, que veio da América Central, era protestante, mas, mesmo assim, a discriminação religiosa atrelada à sua cor fazia circular a crença de que o bode fazia parte de oferendas, percepção esta distorcida que se alimentava do fato de uma minoria dos barbadianos ainda possuir práticas religiosas oriundas de seus países, entre elas o vodu. Assim, ficou até hoje fincado na memória local o nome Alto do Bode, e não Barbadian Town.
ESPAÇO DE EDUCAÇÃO E RESISTÊNCIA
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
++++
++++
Apesar do desprezo alheio, o Alto do Bode representou um núcleo de importantes transformações sociais. Uma pesquisa da professora Sônia Maria Gomes Sampaio, em sua tese “UMA ESCOLA (IN)VISÍVEL: Memórias de Professoras Negras em Porto Velho no início do Século XX”, demonstra que o Barbadian Town era, na verdade, um local erudito.
Mesmo sem estrutura física adequada, os negros reconheciam o valor da educação e criaram seus próprios métodos para ensinar seus filhos. As aulas aconteciam em cozinhas, casas improvisadas ou barracões da EFMM, todas ministradas em inglês, num período em que não existia escola oficial para ninguém na cidade.
O modelo educacional adotado, considerado não oficial, baseava-se em cartilhas inglesas que eram enviadas de seus países de origem. Elas eram usadas na alfabetização e introdução do inglês, com inserção de musicalização; incorporada como ferramenta pedagógica, ajudando na memorização e no aprendizado do idioma.
Até que, em 1915, foi instalada uma escola nos padrões do Governo, e a instituição criada pelos negros jamais fora reconhecida como modelo educacional, muito menos como escola por direito, além disso, o município nada fez para que fosse de fato estabelecida, e o tempo ruiu a implantação do modelo educacional criado pelos negros barbadianos.
A MÚSICA COMO IDENTIDADE E PEDAGOGIA
A presença forte da música na formação educacional dos barbadianos se deu porque muitos vieram de locais onde havia grande influência do Blues e do Jazz. Aqui, possuíam instrumentos como saxofones, trombones, gaitas e até piano. Além disso, a música era uma forma de conforto, nostalgia e identidade. Durante o dia, era inserida como método de aprendizado na escola; à noite, transformava o Barbadian Town em um espaço de intensa musicalização.
APAGAMENTO, URBANIZAÇÃO E DESALOJAMENTO
Barbadian Town abrigava apenas os negros que tinham um dito bom comportamento. Os que não se enquadravam nos padrões foram se estabelecer no bairro Mocambo. O espaço possuía iniciativa e cultura própria, tornando frágil a hegemonia do exercício que aqui era estabelecido. Entre as décadas de 1940 a 1975, o Governo Federal implantou em todo o país estratégias de desenvolvimento em áreas urbanas periféricas, que tinham como objetivo sanear, embelezar e afastar os pobres da área central das cidades. Em Porto Velho, o Governo de Aluízio Ferreira e outros, tinham total interesse em “urbanizar” um lar de rebeldes que incomodava a elite social com a justificativa de embelezar a cidade.
Em 1943, Barbadian Town passou a sofrer com processo de arrasamento e foi totalmente destruído, em 1960. A desocupação foi sem protestos e sem reivindicações. Mesmo com tentativas pacíficas de voltar aos seus lares, o 5º Batalhão de Infantaria de Selva retirou todos os moradores e passou os tratores sobre a área. Onde antes havia uma colina que abrigava homens, seus costumes e suas histórias, agora é, geograficamente falando, apenas um solo plano.
RESISTENTES NA MEMÓRIA
Com a destruição do morro, os barbadianos aos poucos foram inserindo seus filhos nas escolas oficiais da cidade e, com a chegada de novas referências educacionais, suas raízes culturais começaram a ficar mais restritas aos seus lares. O Barbadian Town desapareceu fisicamente; todavia, permaneceu ainda mais vivo no imaginário popular como o Alto do Bode, existindo como um ícone de um povo e da cultura que ali foi construída. Como forma de preservação, até hoje a maioria das famílias barbadianas ainda moram na área central de Porto Velho, próximas inclusive da igreja protestante que fora fundada primeiramente por eles.








