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JURÍDICO DESCOMPLICADO
Tubarão, chuva e o efeito cobra: como a natureza e a estupidez humana decidem nossas eleições e destroem boas políticas

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A tragédia do voto cego: quando um tubarão derruba um presidente

Por Vinicius Miguel - sexta-feira, 28/11/2025 - 08h23

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Em 1916, a política americana foi abalada por uma crise inesperada: tubarões. Não, não é uma metáfora para lobistas vorazes ou políticos corruptos. Eram tubarões de verdade, nadando na costa de Nova Jersey, que atacaram e mataram banhistas.

O pânico foi generalizado. E o que isso tem a ver com a Casa Branca? Segundo a pesquisa de Christopher H. Achen e Larry M. Bartels [1], os eleitores nas comunidades afetadas pelos ataques de tubarão puniram significativamente o então presidente, Woodrow Wilson, nas urnas.

O estudo, intitulado “Retrospecção Cega: Por Que Ataques de Tubarão São Ruins Para a Democracia”, é a prova mais hilária e deprimente de que a política é, essencialmente, um circo de absurdos.

A tese central é a da “retrospecção cega”: os eleitores, em sua busca por responsabilizar alguém por seu mal-estar, acabam punindo ou recompensando líderes por eventos que estão claramente fora de seu controle [1].

Se o Nilo não inundava, a culpa era do Faraó. Se um tubarão morde um banhista, a culpa é do presidente. O eleitor não é um tolo, como dizia V.O. Key, mas talvez seja um juiz irracional que, diante de um desastre, simplesmente precisa de um bode expiatório.

Afinal, se um tubarão pode influenciar uma eleição, o que dizer de uma simples garoa?

A Ditadura da Garoa: O Clima Como Ditador Eleitoral

Se o tubarão é o vilão dramático, a chuva é o ditador silencioso.

Imagine o cenário: você acorda no dia da eleição. O céu está cinzento, chove fino. Você pensa: “Ah, que preguiça de sair de casa para votar.”

Parabéns, você acaba de se tornar um agente da desigualdade democrática.

Dois estudos confirmam o poder tirânico do clima. O primeiro, de Anna Bassi [2], revela que o mau tempo deprime a tolerância ao risco dos eleitores.

Em dias feios, ficamos mais avessos ao risco e, consequentemente, menos propensos a votar em candidatos percebidos como “arriscados” (geralmente os desafiantes ou aqueles com propostas mais ousadas).

O mecanismo é simples: o clima afeta nosso humor, e nosso humor decide quem merece nosso voto. Um dia chuvoso pode, literalmente, eleger o candidato mais chato e “seguro”.

O segundo estudo, de Søren Damsbo-Svendsen e Kasper M. Hansen [3], mostra que a chuva reduz o comparecimento eleitoral, pois aumenta o “custo” do voto.

O mais provocativo é que esse custo não é distribuído igualmente. Os chamados “eleitores marginais”, como os jovens, são até seis vezes mais suscetíveis ao mau tempo. A chuva, portanto, não é apenas um incômodo; é uma ferramenta de exclusão que garante que apenas os eleitores mais engajados (e talvez mais velhos) decidam o futuro do país.

Em resumo, a democracia está à mercê da meteorologia. Se você quer um governo ousado, torça por um dia de sol. Se prefere a mesmice, a garoa é sua aliada.

O Efeito Cobra: A Arte Humana de Estragar Boas Intenções

Se a natureza já complica a política, o que dizer da própria política?

Mesmo que o presidente consiga sobreviver aos tubarões e a eleição ocorra sob um sol radiante, a política ainda enfrenta seu inimigo mais implacável: a estupidez humana ou, em termos acadêmicos, a “negligência da ambiguidade”.

Lorán Chollete e Sharon Harrison [4] exploram o conceito de consequências não intencionais de políticas públicas.

O problema, segundo eles, é que os formuladores de políticas sofrem de “negligência da ambiguidade”: eles assumem que os cidadãos seguirão a lei, mas não consideram a criatividade humana para contornar o espírito da lei.

O exemplo clássico é o do rodízio de carros na Cidade do México, implementado para reduzir a poluição. A intenção era nobre.

O resultado? Muitos cidadãos simplesmente compraram um segundo carro, mais velho e poluente, para garantir que pudessem rodar todos os dias.

A poluição, em vez de diminuir, aumentou [4]. Fatos semelhantes ocorreram na cidade de São Paulo.

Este é o famoso “Efeito Cobra” em ação: a solução proposta para um problema acaba piorando o problema.

O termo se refere a uma tentativa do governo indiano de remunerar quem matasse cobras. Alguns cidadãos passaram a criá-las em cativeiros para terem ganhos.

A lição: o ser humano, quando confrontado com uma restrição, sempre encontrará uma forma engenhosa de manter seu comportamento, transformando a boa intenção do governo em um desastre hilário.

O Futuro da Governança: A Manipulação SutilDiante de eleitores irracionais (tubarões), excluídos (chuva) e cidadãos teimosos (Efeito Cobra), o que resta aos governantes?

A resposta moderna é: não tente convencer, apenas “empurre” sutilmente.

O conceito de Nudge (empurrão) é a nova coqueluche da governança.

Sze Lin Yoong e outros [5] analisaram a aplicação dessas estratégias no setor de saúde, demostrando que elas são eficazes para mudar o comportamento de profissionais.

O Nudge é definido como uma intervenção que modifica o ambiente social ou físico para influenciar o comportamento subconsciente, sem restringir opções [5].

É a manipulação suave, o ajuste fino da “arquitetura de escolha”.

Em vez de gastar milhões em campanhas educativas para que médicos sigam diretrizes, basta, por exemplo, mudar a opção padrão em um sistema de computador ou exibir um pôster público de compromisso.

O Nudge é a admissão cínica de que o eleitor e o cidadão não são seres racionais que respondem a argumentos lógicos.

Eles são criaturas de hábitos e vieses que precisam ser guiadas gentilmente (e subconscientemente) para o caminho certo.

Conclusão: O Voto no Piloto Automático

A política, como vimos, é uma tragicomédia ditada por forças que vão de tubarões a garoas, passando pela nossa própria teimosia.

Somos eleitores que punimos o presidente por um ataque de tubarão [1].

Somos eleitores que mudamos nosso voto para o candidato “seguro” porque o dia está nublado.

Somos eleitores que deixamos de votar porque está chovendo, entregando a democracia a quem não se importa com o clima.

Somos cidadãos que transformamos políticas ambientais em desastres de poluição.

O futuro da democracia e da governança, portanto, não está na retórica inflamada, nem tampouco em convicção ideológica.

Talvez esteja mais na manipulação sutil do nosso inconsciente através do Nudge [5].

A democracia do tempo presente e do futuro será decidida não por debates ou argumentos racionais.

Será atravessada por algoritmos, por tráfego pago e direcionamentos que ajustam a arquitetura de escolha para nos “empurrar” para o suposto bem.

Referências

[1] ACHEN, C. H.; BARTELS, L. M. Blind Retrospection: Why Shark Attacks Are Bad For Democracy. Working Paper: 5-2013. Princeton: Princeton University, 2013.

[2] BASSI, A. Weather, Risk, and Voting: An Experimental Analysis of the Effect of Weather on Vote Choice. Journal of Experimental Political Science, Cambridge, v. 6, p. 17–32, 2019.

[3] DAMSBO-SVENDSEN, S.; HANSEN, K. M. When the election rains out and how bad weather excludes marginal voters from turning out. Electoral Studies, [s. l.], v. 81, p. 102573, 2023.

[4] CHOLLETE, L.; HARRISON, S. Unintended Consequences: Ambiguity Neglect and Policy Ineffectiveness. [S.l.: s.n.], 2020.

[5] YOONG, S. L. et al. Nudge strategies to improve healthcare providers’ implementation of evidence-based guidelines, policies and practices: a systematic review of trials included within Cochrane systematic reviews. Implementation Science, [s. l.], v. 15, n. 1, p. 50, 2020.

AUTOR: VINICIUS MIGUEL





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