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PITACO DA CASA
Em entrevista, Fúria deixa claro que não vai poupar o aliado Marcos Rocha enquanto tenta reafirmar identidade de direita

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Ao retomar embates da pandemia e criticar a situação do João Paulo II, prefeito de Cacoal expõe divergências públicas com o governador, atual presidente do PSD

Por Vinicius Canova - quinta-feira, 26/02/2026 - 11h50

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A entrevista do prefeito de Cacoal, Adaílton Fúria, ao programa A Voz do Povo, da Rádio Caiari FM 103,1, apresentada por Arimar Souza de Sá, projeta um personagem político que quer ser reconhecido como gestor de entregas e, simultaneamente, como alguém disposto a tensionar o sistema — inclusive quando esse sistema é, em parte, a estrutura partidária que o sustenta. Ao longo da conversa, o prefeito falou como quem tenta consolidar uma marca: a de administrador que construiu um “portfólio” e, por isso, se credencia para disputar o Palácio Rio Madeira. Mas, ao fazer essa vitrine em tom de confronto, deixa a impressão de que a pré-candidatura ainda busca um eixo mais estável, um lugar claro dentro do próprio tabuleiro político.

O ponto mais ruidoso dessa tentativa de afirmação surge quando o pré-candidato revisita a pandemia como um embate direto contra as decisões do Executivo estadual. Ele descreve o episódio como prova de autonomia e comando administrativo: “Cacoal foi a única cidade que não fechou o comércio na pandemia. O governo fazia um decreto de fechamento do comércio e eu fazia um para manter aberto. Em fevereiro, saiu um decreto que fechava até as igrejas. E nós não fechamos as igrejas e não fechamos o comércio cacoal. (…) O Estado entrou com uma ação contra a Prefeitura e contra o meu CPF para me obrigar a fechar o comércio. E eu falei, meu amigo, aqui não. Aqui tem gerência. E nós conseguimos, na justiça, o direito de manter o comércio aberto.” Ao transformar a decisão em narrativa de resistência, Fúria constrói um símbolo político: o gestor que enfrentou o Estado e, por consequência, reafirma um posicionamento conservador ancorado no episódio. Mais do que memória administrativa, a pandemia vira elemento de identidade.

Esse tom de confronto reaparece quando ele aborda o Pronto Socorro João Paulo II, em Porto Velho, apontando que a situação pouco teria mudado ao longo dos anos. Ao relembrar uma fotografia de paciente na garagem, feita quando era deputado estadual, associa o cenário a um problema estrutural: “Quando eu era deputado, você lembra de uma foto que rodou o estado de Rondônia, de paciente lá na garagem, debaixo do ar-condicionado? Quem fez aquele registro foi eu, no primeiro ano, como deputado estadual. E continua da mesma maneira.” Em seguida, conecta a crítica à necessidade de priorização orçamentária, citando a arrecadação do Detran e defendendo que recursos deveriam ser direcionados para a saúde. O discurso posiciona Fúria como o gestor que aponta um problema e reivindica decisão política para resolvê-lo — uma imagem que reforça o perfil de quem se apresenta como operador prático, mas que também o coloca sob a cobrança permanente de demonstrar coerência entre crítica e proposta.

A relação com o governador e presidente estadual do PSD, Coronel Marcos Rocha, aparece como outro ponto de tensão. Fúria alterna reconhecimento e cobrança, afirmando que Rocha “tá me apoiando, disse que eu sou o candidato dele”, mas também criticando a ausência do gestor na linha de frente do problema: “Não vai, não vai, não vai. Eu tenho que ser verdadeiro, eu não tô aqui pra ser demagogo. O governador tá me apoiando, disse que eu sou o candidato dele (…) Agora o João Paulo é um problema que precisa ser enfrentado.” A nota atribuída ao governador — “sete” — sintetiza esse equilíbrio delicado: o pré-candidato não rompe, mas também não suaviza o discurso. O resultado é a imagem de alguém que tenta manter o respaldo político sem abrir mão da persona de independência.

Quando o debate chega ao campo ideológico, Fúria se define de maneira direta: “Olha, eu sou um prefeito de direita.” Logo em seguida, desloca o eixo da discussão para o pragmatismo administrativo, dizendo que recebeu recursos de parlamentares de diferentes campos e que a prioridade deve ser o serviço prestado ao cidadão. A defesa é construída com exemplos cotidianos, como o acesso ao remédio ou ao atendimento médico, numa tentativa de reduzir o peso da polarização sobre a gestão. Ainda assim, o discurso ganha contornos mais complexos quando ele critica privatizações e terceirizações, classificando a privatização como “um atestado de incompetência”. A fala combina uma identidade conservadora no plano simbólico com uma visão de gestão mais intervencionista, o que evidencia um posicionamento que não se encaixa de forma linear em rótulos tradicionais.

 

A ideia de “referência” aparece como pilar de legitimação. Fúria insiste que o eleitor deve avaliar sua trajetória a partir dos resultados em Cacoal, afirmando que a própria cidade seria o parâmetro para julgar sua atuação. Ao apostar nessa lógica, ele tenta encurtar o caminho entre gestão e voto, deslocando o debate de alianças e discursos para a experiência administrativa. A estratégia, contudo, reforça a percepção de que sua campanha se estrutura mais na defesa de um histórico do que na apresentação de um projeto mais amplo de futuro.

Nesse cenário, qualquer ruído envolvendo o PSD acaba repercutindo na construção de sua imagem. A saída do ex-deputado federal Expedito Netto da legenda para o PT, com anúncio de pré-candidatura ao Governo de Rondônia, reposicionou o partido no debate público e criou um pano de fundo inevitável para quem permanece na sigla. Ainda que a decisão seja individual e sem relação direta com a gestão de Cacoal, o movimento amplia o ambiente de disputa simbólica em torno do partido e contribui para que Fúria reafirme, com maior frequência, seu próprio posicionamento político.

O conjunto da entrevista revela uma pré-candidatura que se constrói a partir de duas forças simultâneas: a tentativa de se firmar como gestor de resultados e o impulso de se diferenciar pelo confronto narrativo. Ao encerrar a participação com uma projeção de futuro, Fúria sintetiza essa combinação entre ambição e mobilização: “Nós não temos o plano B pra Rondônia, não. Nós temos só o plano A. E o plano A vai dar certo esse Estado.” E, ao explicar o que seria esse plano, amplia o horizonte pessoal da trajetória política: “O plano A é fazer dar certo. Nós vamos pra cima. Nós vamos pra dentro de hospital, nós vamos pra dentro de escola, nós vamos pro trecho, vamos pra estrada. Você sabe por quê, Arimar? Eu tenho 40 anos, eu tenho um grande futuro político pela frente. E esse grande desafio pode me promover a ser até um presidente da República um dia.”

A fotografia que emerge da entrevista é a de um candidato que tenta unir credencial administrativa e retórica de ruptura. Fúria se apresenta como alguém que não pede licença para tensionar decisões e que busca ocupar o espaço de quem entrega e confronta ao mesmo tempo. O desafio daqui para frente será transformar essa narrativa em consistência política num cenário em que alianças, programa e viabilidade eleitoral tendem a pesar mais do que o impacto do discurso.

É nesse terreno — menos simbólico e mais concreto — que a pré-candidatura deixará de ser apenas construção de imagem para se tornar, de fato, projeto de poder. Nesse contexto, o prefeito deixou claro que não pretende poupar nem mesmo o seu maior aliado, o atual governador e presidente estadual do PSD, Coronel Marcos Rocha, hoje mandatário da máquina administrativa. Se o tom crítico já se manifesta em relação a quem ocupa o mesmo campo político, a tendência é que a disputa avance com intensidade ainda maior quando o foco se voltar aos adversários diretos no pleito que se aproxima.

AUTOR: VINICIUS CANOVA (DRT 1066/RO) – LinkedIn





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