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PERSPECTIVA BERADEIRA
Grupos masculinistas e como eles podem ampliar a violência contra mulheres

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Análise descreve como estruturas hierárquicas, ideologias de reforço identitário e práticas de exclusão podem ampliar riscos de violência simbólica e social contra mulheres

Por Rafael Ademir - quarta-feira, 03/12/2025 - 14h35

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Por Rafael Ademir Oliveira de Andrade

Sociólogo, Doutor em Desenvolvimento Regional, Coordenador do Laboratório de Estudos em Populações Negligenciadas (Afya Porto Velho) e professor permanente do PPG em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (UNIR).

O que são grupos masculinistas e quais suas características

Grupos masculinistas são grupos comandados e dirigidos para homens com a ideia de reforçar aspectos da masculinidade hegemônica (Bourdieu, 1999). Tal reforço possui uma forma de operação, que irei descrever estas características em pequenos tópicos:

(a) grupos sociais tendem a reforçar suas ideologias ao passo que só permanecem e são promovidos nas fileiras destes grupos aqueles que compartilham e reforçam a crença central do grupo, em outras palavras, as pessoas que mais crêem nos valores do grupo – e demonstram em ações práticas ou similares – serão aquelas que serão promovidas na estrutura. Este é um funcionamento natural de grupos: ao reforçar quem mais defende a crença, mais forte ele se torna. Assim, grupos que defendem uma forma de masculinidade irão se tornar líderes e recompensar quem reproduzir de forma mais eficiente tais crenças e com isso fomentam desejo nos demais membros.

(b) grupos masculinistas usam de outras ideologias como base para sua expansão, eu não citar nomes, mas todos os grupos masculinistas que se conhece possuem uma base ideológica em comum que mascara a real intenção do grupo. Religiões, empreendedorismo, magia, messianismo, artes marciais, clube de jogos eletrônicos/RPG, esportes e clubes de práticas esportivas/consumo de coisas específicas são alguns exemplos de bases ideológicas que dão suporte para a expansão. Alguns grupos falam sobre jogos ou sobre questões religiosas, mas no fundo difundem uma visão do que é ser homem que exclui outras partes da sociedade – como as mulheres – do debate sobre o que é masculinidade, reforçando aspectos do grupo (positivos e negativos). O que é ser homem para um artista marcial de um grupo X será reforçado pelo grupo e se esta ideologia tiver algum elemento misógino, este será reforçado.

(c) Apelo à hierarquia é algo comum em grupo masculinistas. Quer seja com números de inscrição, por graduações ou outras nomenclaturas, não raramente imitam códigos, uniformes e estruturas militares. O objetivo da hierarquia é, nascido da prática militar, criar unidade e obediência para a execução de atividades específicas, no caso desses grupos há uma tendência em ampliar a obediência e difundir o que é a norma aceita para a sociedade como um todo. A hierarquia tem outra função também: evitar que denúncias sejam realizadas ou ao menos publicizadas. Não é raro também esses grupos incorporarem serem históricos ou religiosos/mitológicos em suas fileiras: antigos praticantes, divindades, políticos, fundadores são aqueles primeiros membros e trair um líder atual é uma grave enorme: seria o mesmo que trair tal entidade/figura histórica.

(d) O uso da mulher como validação de violências é algo comum nesses grupos. A esposa do líder é colocada para comandar subgrupos (células do corpo maior) ou sessões de grupos femininos satélites ao grupo masculinista. Nestes é ensinado perdão aos erros dos homens e submissão feminina como forma de valorização da mulher e tal absurdo não poderia ser dito diretamente por um homem, mulheres são escolhidas para isso. Por exemplo, é comum ver em grupos misóginos nas redes sociais jovens escolhendo mulheres celibatárias e isoladas como forma de modelo ideal de mulher, exaltando mulheres que se encaixam no modelo de obediência esperada. Este fato é uma forma de violência coletiva contra mulheres impetradas por esses homens: a sujeição sem debate e o isolamento em caso de dúvida é forma de se violentar vivências femininas.

(e) Concluindo… A minha afirmação inicial é que tais grupos podem reforçar a violência contra mulheres e após este breve texto quero adicionar uma conclusão. Esses grupos de e para homens nem sempre compartilham ideologias diretamente misóginas (de ódio contra a mulher), mas alguns sim como os Redpill e MGTOW. Outros objetivam reforçar ideologias que já foram usadas para oprimir mulheres, ou seja, são movimentos conservadores. Um exemplo são grupos com bases cristãs que se apropriam de elementos dos textos sagrados deste grupo como forma de manter a obediência da mulher. Outros grupos só permitem ou dificultam a entrada de mulheres em suas fileiras de liderança, reproduzindo o discurso da masculinidade pelo processo já debatido neste texto.

Em suma, a expansão de grupos masculinistas no Brasil é uma possibilidade de expansão simbólica da violência contra mulheres e a solução para isto é simples: está na diversidade não só de participação, mas de poder e sua alternância. Só homens deixando de ver as mulheres como um objeto a ser mostrado (por sua beleza, valores ou suposta posse) e vendo-as como sujeitos de poder tal qual eles se vêem é que tal contexto começará a mudar. Moldar os homens como super heróis, salvadores, lendários seres e outras idiossincrasias que permeiam certos surtos coletivos é acender um pavio que infelizmente não demora para estourar.

É urgente que se conectem com outra masculinidade: quando uma mulher é violentada muitos dos super machos se acovardam na defesa do coleguinha ao invés de se posicionar contra tal masculinidade assassina-agressiva. Ser homem não é ser corajoso? Que tal começar a desafiar o coleguinha de clubinho?

AUTOR: RAFAEL ADEMIR





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