Informa Rondônia Desktop Informa Rondônia Mobile

ENTRE LINHAS E MARGENS
Fé, política e perseguição — ninguém conseguiu apagar da memória a Feiticeira do Governador

🛠️ Acessibilidade:

A história silenciada de uma Yalorixá que moldou Porto Velho e resistiu ao apagamento imposto pela intolerância e pelo patriarcado

Por Cammy Lima - segunda-feira, 08/12/2025 - 10h51

Facebook Instagram WhatsApp X
Conteúdo compartilhado 588 vezes

Quando falamos de construções sociais, é quase inevitável perceber que os nomes que se destacam na história, em sua maioria, pertencem a homens. Raros são os registros que colocam mulheres como protagonistas. Sobre Porto Velho, não é diferente!

Estamos falando de uma liderança religiosa de profundo respeito, Yalorixá de grande autoridade social e voz ativa em seu meio, e no meio político. Ela construiu um dos maiores terreiros dentro da região amazônica e acolheu, orientou e protegeu pessoas de todas as classes sociais, do morador humilde ao alto escalão político, na qual a apelidou como “Feiticeira do Governador”. Estamos falando de Mãe Eunice Monteiro de Oliveira, uma das figuras mais marcantes — e ao mesmo tempo mais silenciadas — da história de Porto Velho.

A RECONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA

Sua história é rica, porém ainda cheia de lacunas. O resgate da história de Mãe Eunice e do Terreiro Oxum Aladê foi construído por alguns pesquisadores, como o professor e pesquisador Marco Teixeira, referência nos estudos sobre religiões afro-amazônicas da Universidade Federal de Rondônia – Unir. Em seu artigo “O Terreiro de Oxum Aladê e a Feiticeira do Governador: Um estudo sobre as minorias afroreligiosas em Porto Velho entre os anos 1977 e 2006”, deu luz a grandiosidade dessa mulher.

Esse trabalho, que foi conduzido com rigor acadêmico e profundo compromisso com a memória coletiva, buscou rememorar fatos e trajetórias com a maior fidelidade possível, preservando detalhes, contextos que foram silenciados.

A FORÇA DE UMA FILHA DE OXUM

A trajetória de Mãe Eunice revela não apenas a força de uma mulher que ergueu poder a partir da espiritualidade, mas também o peso da intolerância e da incompreensão que, ao longo dos anos, tentaram apagar sua grandiosidade. Mesmo assim, sua contribuição permanece: Como toda filha de Oxum, sua luz jamais será apagada. Mãe Eunice moldou vínculos, salvou vidas, movimentou cultura e escreveu um capítulo essencial da memória de Rondônia.

Nascida no Baixo Madeira, em 1939, ela cresceu em meio à pobreza e às limitações de uma região isolada, até que, ainda na juventude, uma doença (que foi diagnosticada erroneamente) a levou ao Nordeste em busca de tratamento. Ao se restabelecer no Recife, foi iniciada nas tradições Jeje sob orientação de Pai Raminho de Oxóssi, uma nova página de sua vida que definiria seu caminho espiritual.

Depois de um período difícil no Rio de Janeiro, onde viveu em abandono, decidiu retornar à capital rondoniense para reconstruir sua vida. Chegou sozinha com quatro filhos e, mesmo morando em uma pequena casa de madeira, começou a atender espiritualmente a vizinhança, incorporando entidades como Seu Zé Pelintra e Dona Paulina da Rede Rasgada.

A FEITICEIRA DO GOVERNADOR

Seus dons de cura, vidência e aconselhamento chamavam a atenção, e ela passou a ser procurada por pessoas de diferentes camadas sociais, desde moradores pobres que buscavam solução para doenças e aflições, até políticos, juízes e empresários em busca de proteção espiritual. A ligação com o governador Jorge Teixeira e outras autoridades lhe rendeu fama e respeito, mas também temor. Era comum se referirem a ela como “a feiticeira do governador”, indicando o lugar ambíguo entre reverência e estigma ocupado pelos cultos afrobrasileiros no imaginário das pessoas.

Conforme seu domínio consolidava, o terreiro evoluiu de uma pequena casa de madeira para um dos maiores complexos religiosos da região: o Ilê Axé Oxum Aladê, conhecido como Palácio de Oxum.

A construção, iniciada nos anos 1980, seguia elementos arquitetônicos inspirados nos templos Mina do Maranhão e ocupava uma vasta área na rua São Paulo, área central de Porto Velho. Ali havia salões de gira, roncó, quartos de santo, porões amplos, jardins sagrados, ervas medicinais e uma nascente, elementos estes, essenciais ao culto. O terreiro funcionava como espaço religioso, social e comunitário. Sua cozinha alimentava moradores pobres; seus rituais movimentavam o bairro; suas festas, especialmente as dedicadas a Zé Pelintra, Dona Paulina e Oxum, reuniam multidões.

POLÍTICA, COMUNIDADE E RESISTÊNCIA

O poder público, reconhecendo sua ascendência e relevância social, chegou a melhorar ruas, iluminação e a infraestrutura ao redor do terreiro, reflexo do respeito que Mãe Eunice inspirava e da atenção que mantinha com a comunidade que vivia nas proximidades. Com o tempo, porém, novas lideranças de outras denominações passaram a ocupar espaços públicos e cargos políticos, o que intensificou tensões e abriu caminho para manifestações de intolerância religiosa — conceito que, à época, ainda nem era nomeado dessa forma. Mesmo assim, Mãe Eunice continuou dialogando com empresários, garimpeiros e figuras da sociedade.

Porto Velho vivia profundas transformações. Entre as décadas de 1970 e 1990, o avanço dos garimpos de ouro e cassiterita, o crescimento acelerado dos bairros, a migração intensa e a elevação do território a estado redesenharam o cenário urbano e religioso. As igrejas pentecostais, fortalecidas por missões norte-americanas e pelo governo militar, cresceram rapidamente, tornando-se influentes entre a população e também no meio político, que passou a buscar nelas apoio e legitimidade. Nesse novo contexto, os terreiros começaram a enfrentar desvalorização e perseguições crescentes, afetando diretamente as antigas lideranças afro-religiosas.

DA REVERÊNCIA AO DESPREZO

Mãe Eunice sentiu o impacto profundamente. A proibição do garimpo, uma de suas principais fontes de sustento, reduziu sua capacidade de manter o Palácio de Oxum. Somaram-se a isso conflitos familiares e tragédias pessoais que abalaram sua estrutura: um filho assassinado dentro do próprio terreiro, outro preso, e grande parte da família convertida às igrejas pentecostais, abandonando a herança espiritual. Com o avanço das igrejas na vizinhança e a diminuição da procura pelo terreiro, o Palácio de Oxum entrou em declínio acelerado, enfraquecendo uma das maiores referências de apoio social, político e moral daquela comunidade.

UMA REFLEXÃO

A liderança das Yalorixás não é apenas religiosa: é política, comunitária e social. Elas comandam terreiros, organizam redes de proteção, estruturam ensinamentos e mantém viva uma herança cultural que a estrutura social brasileira tenta sufocar. Essa força feminina, contudo, raramente aparece nos livros oficiais. Em vez disso, foi rotulada como superstição, bruxaria, atraso ou ameaça. Uma estratégia clara para deslegitimar a autonomia dessas mulheres e enfraquecer seus espaços de poder.

MEMÓRIA SANGRA

Mãe Eunice morreu em 24 de abril de 2006. A partir desse momento, o palácio que construiu com décadas de trabalho começou a ruir rapidamente. O local foi saqueado, vandalizado e escavado à procura de supostos “tesouros”. Portas, janelas e telhas desapareceram. Parte da área foi ocupada irregularmente. Com o tempo, a vegetação tomou conta do espaço, deixando apenas ruínas. Hoje, o que já foi ponto de referência cultural e espiritual é quase invisível. O apagamento do Palácio de Oxum Aladê representa não só a destruição física de um terreiro, mas a perda de um patrimônio religioso e histórico.

Apesar disso, a memória de Mãe Eunice permanece. Ela continua viva nos relatos de quem participou de suas festas, ouviu seus conselhos ou buscou ajuda nos momentos mais difíceis. Sua história lembra a importância das religiões de matriz africana e ameríndia na construção social de Porto Velho. E reforça, também, o quanto ainda precisamos reconhecer essa grande mulher e tantas outras que nunca tiveram o devido valor — algumas com registros espalhados, outras lembradas apenas pela oralidade de seus descendentes e de quem viveu aquele período, assim como as tradições transmitidas de boca em boca e pelos ensinamentos dentro das casas de axé.

RECONSTRUÇÃO NECESSÁRIA

A reconstrução dessa narrativa, antes entregue ao esquecimento, é necessária não só para quem vos escreve — que sou mera admiradora de pesquisas sobre nossa História e Memória —, mas também para pesquisadores das áreas das ciências humanas. Só assim podemos dar verdadeira visibilidade às mulheres que, por suas naturezas, representam luta e conquistas, beleza e esperteza, mistérios e amor. Quanto à trajetória de Mãe Eunice e ao legado do Terreiro Oxum Aladê, fica aqui meu desejo de que deixem de ser ruínas invisíveis e passem a ocupar o lugar que lhes é devido na história de Porto Velho e de Rondônia.

DESABAFO

E agora, me posiciono como mulher e como alguém que, mesmo não sendo historiadora, encontra o imenso prazer de conhecer a nossa História e Memória. Eu poderia iniciar mencionando uma grande mulher que foi esquecida, mas minha intenção aqui é construir uma ponte de reflexão sobre intolerância religiosa e misoginia, além de dar luz ao reconhecimento das mulheres que ergueram a nossa cidade. Precisamos analisar criticamente a forma como a sociedade ainda enxerga e trata as nossas mulheres. Dedico este texto a todas nós, tantas vezes colocadas como impuras apenas por sermos mulheres.

Que a beleza de uma filha de axé seja sempre reconhecida por sua independência, força, empoderamento e espírito inquieto diante de padrões patriarcais, e jamais pelo olhar distorcido de uma sociedade machista, misógina e adoecida.

AUTOR: CAMMY LIMA





COMENTÁRIOS: