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EDITORIAL
Tarifas abusivas na BR-364: toma que o filho é teu, Confúcio Moura!

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Da defesa entusiasmada da concessão ao silêncio diante do free flow: a cronologia de um “sapatinho” político no tema que mais pesa no bolso e na rotina de Rondônia.

Por Informa Rondônia - sábado, 24/01/2026 - 09h09

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O pedágio eletrônico em sistema free flow na BR-364 não virou assunto central em Rondônia por acaso. Ele virou porque entrou pela porta mais sensível da vida real: a conta. Quando a cobrança aparece antes de a população perceber, na prática, uma rodovia segura, fluida e minimamente digna, a discussão deixa de ser técnica e passa a ser moral. E, nesse ponto, o que se cobra de um senador não é só voto, discurso bonito ou foto em Brasília: cobra-se responsabilidade, coerência e coragem para sustentar aquilo que defendeu quando era conveniente.

A cronologia é teimosa e, por isso, reveladora. Em 22 de dezembro de 2025, uma representação foi protocolada no Ministério Público Federal em Rondônia, assinada pelo advogado Caetano Vendimatti Netto, pedindo a suspensão da cobrança do pedágio free flow no trecho entre Vilhena e Porto Velho e, ainda, a proibição de multas e pontos na CNH por atraso no pagamento. O ponto de partida era direto: questionamento do cumprimento de metas do contrato e contestação de cobrar antes de entregar. Naquele momento, o debate já estava instaurado e, mais do que isso, ganhava contornos de contestação formal, com pedido de providências. Não era mais ruído de redes sociais: era um movimento para travar, juridicamente, a lógica do “paga primeiro, melhora depois”.

Em fevereiro de 2025 Confúcio já foi questionado sobre os valores do pedágio / Reprodução

Poucos dias depois, em 2 de janeiro de 2026, a crítica se ampliou com a divulgação de informações detalhadas sobre o início da cobrança a partir de 12 de janeiro, com sete pórticos no trecho concedido. A discussão cresceu porque os valores, somados, passaram a desenhar uma nova realidade econômica para quem depende da BR-364: do trabalhador que precisa ir e voltar, ao caminhoneiro e ao setor produtivo, que enxergam o pedágio como custo que se multiplica e vai parar no preço final. A pergunta central, repetida em todo canto, não era sofisticada: como justificar tarifa cheia quando o usuário ainda convive com precariedade, insegurança e frentes de obras que não equivalem, no cotidiano, à promessa vendida?

Em 5 de janeiro de 2026, a cobrança ganhou um rosto e um alvo político: o senador Jaime Bagattoli (PL), bolsonarista, foi às redes e apertou publicamente o cerco sobre o senador Confúcio Moura (MDB). Bagattoli não fez crítica abstrata ao governo ou à concessionária; ele apontou para dentro da bancada e para a história recente do tema, lembrando que Confúcio presidiu a Comissão de Infraestrutura do Senado e, portanto, não era um observador distante. Bagattoli foi além: pediu, em voz alta, que Confúcio se manifestasse sobre o modelo. E reforçou, com números e comparações, o impacto na logística, a ausência de alternativa rodoviária equivalente e o que chamou de absurdo em uma concessão longa, com entregas que, na visão dele, não compensariam o custo imposto.

É aqui que a crítica editorial encontra o “a costura na boca”. Porque, no tabuleiro político de Rondônia, Confúcio não é um senador qualquer. Ele é, frequentemente, identificado como o único integrante da bancada federal alinhado ao presidente Lula (PT), o que, para muitos, deveria significar capacidade de interlocução direta com o centro do poder. Em tese, se a tarifa é considerada abusiva por segmentos amplos da sociedade e se a implantação é vista como inversão de prioridades, o “aliado do governo” seria justamente o nome com maior obrigação de ser ponte — e não parede. Mas o que se vê é o oposto: um silêncio que pesa mais porque contrasta com o passado recente de defesa da própria concessão.

Esse contraste não nasceu agora. Em fevereiro de 2025, Confúcio Moura publicou texto celebrando a concessão da BR-364 como “um passo essencial para o futuro”, associando a duplicação à preservação de vidas, ao desenvolvimento e à modernização. Falou de humanidade, de segurança e do peso histórico da rodovia. A mensagem era de entusiasmo, de alinhamento e de narrativa pronta: concessão como caminho inevitável e virtuoso. O problema é que a realidade de 2026, na percepção de quem paga a conta, não conversa com o tom de 2025. E aí entra a parte mais indigesta: quando a promessa vira cobrança, o discurso desaparece.

O episódio que resume esse “sapatinho” tem o tamanho de uma linha e o barulho de um tropeço. Após a postagem de fevereiro de 2025, um usuário perguntou, de forma direta: “Quais valores dos pedágios senador?”. Confúcio respondeu: “logo teremos todas essas informações”. E, desde então, não tocou mais no assunto. É uma resposta curta, aparentemente inofensiva, mas politicamente explosiva porque funciona como recibo: ele foi chamado a esclarecer, prometeu transparência e depois se retirou do debate no momento em que a transparência virou necessidade concreta.

Enquanto isso, o calendário correu e a pressão subiu. Em 20 de janeiro de 2026, na Assembleia Legislativa de Rondônia, deputados estaduais fizeram sessão extraordinária e colocaram o pedágio no centro da tribuna. Os nomes e cargos importam porque mostram que a indignação não ficou restrita a um partido ou a um espectro ideológico. O deputado estadual Pedro Fernandes (PTB) relatou o impacto em comunidades do interior e disse, em tom de vivência, que sente “na pele” o prejuízo, chamando a cobrança de injusta e expondo o peso para quem precisa se deslocar com frequência. O deputado estadual Alan Queiroz (Podemos) anunciou requerimento de audiência pública para 2 de março de 2026, às 14h30, com participação do DNIT e convite a deputados federais, sinalizando que o Legislativo estadual pretendia puxar Brasília para a mesa.

O presidente da Alero, deputado estadual Alex Redano (Republicanos), criticou o modelo como “concessão às avessas”, com cobrança antes de entrega. O deputado estadual Delegado Camargo (Podemos) comparou valores e classificou o pedágio como um dos mais caros do país. O deputado estadual Cássio Gois (PSD) questionou a distribuição de praças, citando desproporções locais. O deputado estadual Cirone Deiró (União Brasil) disse que vinha alertando há anos e criticou a falta de debate amplo. A cena foi clara: Rondônia discutindo, cobrando, se expondo — enquanto o senador que defendeu a concessão, e que tem trânsito no governo federal, se mantém fora do microfone.

Em 22 de janeiro de 2026, a reação ultrapassou política e virou movimento institucional do setor produtivo: a Aprosoja Rondônia ingressou com ação na Justiça Federal, em conjunto com a Abiove, questionando a antecipação da cobrança e apontando quebra de previsibilidade, com referência a decisões administrativas no fim de 2025 (autorização de mudanças contratuais em 12 de dezembro, revisão tarifária em 30 de dezembro e antecipação da cobrança em quase seis meses). No dia 23 de janeiro de 2026, o tema seguiu fervendo, com a própria Alero mantendo o assunto em evidência e com o debate público se consolidando como um problema político e econômico do estado, não como uma reclamação isolada.

Diante desse encadeamento, a cobrança central deste editorial não é que Confúcio Moura “tenha culpa” sozinho por um modelo federal. A cobrança é outra: ele escolheu, quando era confortável, ser voz ativa a favor da concessão; agora, quando o assunto ficou indigesto, escolheu ser ausência. E ausência, em política pública que mexe com a vida de todo um estado, não é neutralidade. É posição. Ainda mais quando a crítica vem de todos os lados: do senador Jaime Bagattoli (PL) ao plenário da Assembleia Legislativa, do setor produtivo às representações formais.

O silêncio de Confúcio, portanto, é o silêncio de quem deixou o problema virar herança coletiva sem assumir o próprio papel no processo. E é aí que a frase do título faz sentido: “toma que o filho é teu” não é xingamento, é síntese do que a cronologia revela. A concessão foi defendida com entusiasmo, a transparência foi prometida em uma frase (“logo teremos todas essas informações”), e o momento em que Rondônia pede explicação e articulação encontra um senador fora da arena, como se a conta não tivesse relação com a assinatura política que ajudou a validar o caminho.

No fim, a BR-364 se transforma no retrato de um vício velho: quando a decisão é vendida como progresso, aparecem discursos sobre futuro e vidas preservadas; quando a consequência chega em forma de tarifa, multiplicador de custo e revolta popular, aparece a costura na boca. Rondônia não precisa de senador poeta em postagem de fevereiro de 2025. Precisa de senador presente em janeiro de 2026, quando a realidade cobra. E, até aqui, a cronologia registra o oposto.

É preciso, no entanto, fazer uma distinção honesta. O pedágio não é “filho” de Confúcio Moura por culpa exclusiva sua. A bancada federal de Rondônia, como um todo, foi letárgica, permissiva e incapaz de agir de forma coordenada quando o modelo foi desenhado, aprovado e colocado em execução. O problema é outro — e mais profundo. Confúcio se destaca nesse enredo não por ter criado sozinho a concessão, mas porque a defendeu de forma entusiasmada, pública e convicta quando ela ainda era promessa. Agora, quando o pedágio se revela injusto aos olhos da população, quando o custo se mostra desproporcional e quando a correção do rumo exige voz política e articulação, ele escolhe o silêncio.

Esse silêncio não é neutro. Ele não é prudência, nem cautela institucional. É um pacto tácito com a obscenidade que se instalou no asfalto. Silenciar, nesse estágio, é consentir. É aceitar que a cobrança avance sem o contraditório de quem ajudou a legitimar o modelo. Por isso, e apenas por isso, o pedágio passa a ser tratado como filho político: não pela autoria isolada, mas pelo abandono consciente no momento em que a injustiça precisa ser enfrentada. Se alguém precisa embalar esse bebê incômodo, que seja quem o defendeu quando ainda parecia bonito no discurso — sem jamais esquecer dos padrinhos, os demais parlamentares de Rondônia, que, por omissão ou conveniência, deixaram essa atrocidade acontecer.

ADENDO

Uma hora depois da veiculação deste editorial, Confúcio Moura se pronunciou, jogando o imbróglio “no colo” do mandato do ex-presidente da República Jair Bolsonaro, do PL, e do seu então ministro Tarcísio de Freitas, da pasta da Infraestrutura, hoje governador de São Paulo.

CONFIRA:
Cobrado por colegas e pela população, Confúcio joga no “colo” de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas os pedágios abusivos da BR-364

“Meus amigos de Rondônia, a concessão da BR-364 e o preço dos pedágios começaram lá atrás, em 2019. Quem era o presidente da República naquele momento? Importa vocês lembrarem. Quem era o ministro da Infraestrutura em 2019? Era o Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo. O que o governo atual fez foi dar continuidade nesse procedimento. Eu fui presidente da Comissão de Infraestrutura e promovi uma série de debates, muitos debates. Esse é o meu papel como presidente da Comissão de Infraestrutura. Foi assim”, anotou.

E concluiu:

“Agora, depois da concessão, os procedimentos e a legalidade foram homologados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres e pelo Tribunal de Contas da União, tudo foi feito de certo. O que existe agora é conversa fiada nesse estado, gente fazendo vídeo e querendo jogar nas minhas costas, sozinho, a responsabilidade pelo preço do pedágio. Isso não é verdade. É politicalha, é pré-campanha, é colocar o povo em alvoroço. Se tiver algum erro, a Justiça resolve. A minha parte eu fiz. E nós vamos economizar vidas: pneus estourados, carro revirado, acidente de todo lado. Isso vai melhorar gradativamente. Boa sorte a todos”, encerrou.

*A imagem de abertura foi feita por IA / Reprodução

AUTOR: INFORMA RONDÔNIA





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