Oito décadas de samba, memória negra e resistência cultural marcam a trajetória do carnaval de Porto Velho, nascido das ruas, sustentado por seus criadores invisibilizados e ainda vivo apesar do abandono histórico do poder público
Negra, popular, resistente e feita de rua, completa, neste ano, 80 anos em Porto Velho. Sua primeira presença registrada foi em 1946, quando a primeira escola de samba desfilou pela avenida Presidente Dutra. Seu nome é Deixa Falar.
Essa octogenária não nasceu na capital de Rondônia do nada, não…
Ela chegou por aqui em um período que podemos chamar de pós-guerra mundial, contexto que influenciou diretamente a formação populacional da Amazônia. O início da sociedade foi atravessada por migrações forçadas, pelo trabalho duro da borracha e pela presença negra que ajudou a erguer o que conhecemos como Porto Velho, muito além das narrativas renomadas nos livros oficiais da história de Rondônia.

E o carnaval nasce de gente
E o nosso nasceu de gente preta. E, ainda assim, essa história foi sendo empurrada para as margens, esquecida pela memória oficial da cidade. O que sabemos sobre o nascimento das escolas de samba em Porto Velho não veio do acaso nem da boa vontade das instituições. Veio, mais uma vez, da insistência de pesquisadores, em sua maioria historiadores, que se recusaram a aceitar o apagamento da nossa memória.
É por meio dessas pesquisas que o carnaval volta a ser reconhecido como um território de pertencimento, disputa e resistência negra. A pesquisa “Diáspora da folia: o protagonismo negro na criação do carnaval da Amazônia Ocidental”, estudada pelo professor e também amigo querido, Uilian Nogueira Lima, o Doca, rememora as trajetórias, nomes e movimentos que a cidade preferiu esquecer, mas que seguem vivos na batida do tambor, no corpo dos brincantes e na memória de quem faz o carnaval existir.
Quem dá o pontapé inicial desse movimento é Eliezer Santos, o Bola Sete, migrante baiano, preto, soldado da borracha, sambista, organizador e visionário.
Na verdade, a formação do carnaval de Porto Velho se constrói a partir de três personagens centrais, homens negros: Eliezer Santos, o Bola Sete; Leônidas O’Carol Chester, o Leleu; e Waldemir Pinheiro da Silva, o Bainha. Ainda assim, pouco se sabe ou se reconhece a importância desses nomes na história da cidade.
Guardião do tambor vivo – A fé atravessa o terreiro e pisa o asfalto
Como aponta o pesquisador Uilian Nogueira Lima, foi Bola Sete quem fundou a primeira escola de samba de Porto Velho, inicialmente chamada Deixa Falar. Ele transitava entre o catolicismo popular e os terreiros, mais especificamente o de Santa Bárbara, sendo instrumento vivo dos batuques que embebem o corpo tanto nos tambores da macumba quanto no carnaval. Ambos sempre foram mais do que festa e batuque. São territorialidade, encontro, fé e resistência.
Foi Eliezer quem organizou blocos, criou o grupo feminino de Pastorinhas e estruturou o carnaval como manifestação coletiva.
Bola Sete era homem de rua e de múltiplos ofícios, cuja trajetória se confunde com a própria formação social e cultural de Porto Velho. Chegou à cidade em 1943 como Soldado da Borracha e, por saber ler e escrever, foi incorporado ao Hospital São José. Depois, atuou como jardineiro da Praça Marechal Rondon e passou a viver da informalidade.
Viveu entre bairros populares e fez do Centro da cidade seu território cotidiano, mantendo um “escritório ambulante” onde conversava, articulava e garantia sua sobrevivência. Considerado o cambista nº 1, vendia cartelas da Loteria Federal e intermediava apostas no jogo do bicho.

Seu legado ultrapassa o carnaval. Bola Sete foi ritmista, percussionista, arranjador e mestre de bateria. Também atuou como esportista, criando a primeira academia de boxe e luta livre do Território do Guaporé.
Bola Sete é memória viva da cidade, homem do trabalho, da fé e da resistência. Teve uma praça em sua homenagem em 2007, mas segue pouco reconhecido pela cidade que ajudou a construir.
O arquiteto da harmonia no samba de Porto Velho
Já o Leônidas O’Carol Chester, conhecido como Leleu, foi dirigente, fundador da Universidade dos Diplomatas do Samba e diretor de harmonia por décadas. Teve papel decisivo na construção da estética, da disciplina e do rigor artístico das escolas de samba de Porto Velho, sendo responsável pela formação de gerações inteiras de sambistas.
De acordo com a pesquisa de Doca, sua iniciação como folião e carnavalesco começou na agremiação então conhecida como Prova de Fogo, que mais tarde se tornaria Universidade dos Diplomatas e, posteriormente, Diplomatas do Samba. Foi nessa escola que Leleu foi considerado Diretor de Harmonia nota 10, referência pelo rigor e pela excelência do trabalho desenvolvido.
Sambista nato, seresteiro e ritmista, Leleu foi figura central da vida carnavalesca da cidade. Frequentador dos espaços de sociabilidade onde o samba se construía, entre bares, casas noturnas e rodas informais, ajudou a moldar o samba local muito antes de ele ganhar estrutura oficial. Boêmio e, por vezes, polêmico, tomava decisões que, como as de todo sambista comprometido com a tradição, movimentavam as ruas e causavam rebuliço.
Rondoniense, negro, filho de barbadianos, viveu a infância e a adolescência no bairro do Caiari, território que marcou sua formação humana, cultural e musical e de onde emergiu como uma das referências centrais da história do samba e do carnaval de Porto Velho.
A raiz viva que sustenta a energia de hoje
Waldemir Pinheiro da Silva, o Bainha, ritmista e puxador de samba-enredo, representa a continuidade do samba aprendido nas rodas, nos bares e nos quintais, passado de boca em boca, de batida em batida. Ele vem de um tempo em que o carnaval não vinha pronto, era feito na rua, no corpo e na insistência.
No início do carnaval de Porto Velho, Bainha não foi figurante. Foi fundamento. Ritmista formador, ajudou a construir o som e a identidade do carnaval quando ele ainda era comunidade e improviso. Atuou na criação de blocos e escolas, como mestre de bateria e compositor, transmitindo o samba pela oralidade, como sempre foi.
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
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Bainha é o elo vivo entre o carnaval que nasceu na informalidade e o que hoje ocupa as ruas. Entre os grandes nomes que estruturaram essa festa, está entre eles, com a diferença de que ainda está aqui, vivendo de carnaval. Não é só memória. É presença. É tambor que ainda responde quando chamado.
Boêmio nato, circulou pelos bares e redutos musicais que moldaram a vida cultural da cidade, onde o samba era criado, ensaiado e passado adiante. No esporte, foi jogador de futebol e levou para a bateria essa noção de coletivo, de ritmo e de disciplina, entendendo que ninguém constrói nada sozinho.
Aos foliões que hoje celebram essa energia contagiante, é preciso entender que, se o carnaval pulsa, se o ritmo permanece, se o samba ainda encontra caminho, isso também se deve ao Mestre Bainha. O respeito que lhe é devido ainda não é o que recebe. Fora do círculo dos sambistas e guardiões da memória, assim como o pesquisador deste conteúdo, essa lenda viva dos batuques portovelhenses segue pouco reconhecida.
E é aqui que o incômodo começa
Apesar de tudo isso, pouco se fala desses nomes. Pouco se ensina sobre essas trajetórias. A história oficial preferiu celebrar a festa, mas não os seus criadores. Preferiu o desfile sem o rosto, o ritmo sem o corpo, a música sem a memória.
O que nos falta, enquanto cidade, é reconhecer que nossa identidade foi moldada por sujeitos negros que viveram à margem, enfrentaram racismo, precariedade e silenciamento, e, ainda assim, sustentaram a cultura que hoje nos representa.
Cultura é insurreição
O carnaval foi, para eles, um espaço possível de existir com dignidade. Um lugar de criar beleza onde o Estado não chegava, de afirmar pertencimento onde havia exclusão social. Não era apenas festa, era estratégia de sobrevivência, linguagem política e afirmação de identidade.
E esse movimento não é exceção. Ele se repete na história. Um dia foi com o samba, marginalizado, criminalizado, tratado como desordem. Depois vieram outras manifestações populares, nascidas da mesma urgência de existir.
O samba não é o único
Basta olhar ao redor. Movimentos culturais seguem surgindo nas bordas, nos corpos dissidentes e nos territórios esquecidos. O que hoje chamam de “problema” ou “desvio”, amanhã será tratado como cultura. Porto Velho é resistência e também é cultura. Basta analisar o contexto em que surgiram suas manifestações. Assim como o samba, hoje a cidade tem dado voz e movimento ao noiadance, movido pelos mesmos princípios de afirmação, rebeldia e existência. Onde há exclusão social, há rebeldia, e o corpo fala por meio da dança, do ritmo…
Reflitam!
A falta de reconhecimento da manifestação popular e cultural
E, voltando ao samba, vamos fazer uma outra reflexão. Desde 2016, infelizmente, acumulam-se cancelamentos de desfiles das escolas de samba. Em outros momentos, para não ficar tão evidente a falta de valorização cultural, o que o poder público muitas vezes oferece é uma festa sem desfile e sem glamour.
O carnaval de Porto Velho é uma festa que resiste, mas carrega feridas.
A omissão do Estado é evidente. Falta investimento contínuo, faltam políticas públicas, falta cuidado com a memória das escolas e dos sambistas. Não é acaso. É escolha!
O carnaval perdeu centralidade cultural, assim como muitas outras representações culturais da cidade. Foi reduzido a uma disputa pontual por recursos escassos apenas para conseguir desfilar e, hoje, sobrevive muito mais pela insistência de quem ama do que por qualquer reconhecimento institucional.
Ainda assim, sua alegria insiste em pipocar entre os brincantes. As agremiações não acabaram. Ele pulsa nos blocos de rua, nas lembranças da velha guarda, nas batidas que se recusam a silenciar.
O que falta não é carnaval.
O que falta é olhar
E que me perdoem os “críticos”. O carnaval, muitas vezes reduzido à ideia de “festa da carne”, é tratado com descaso quando, na verdade, fala de cultura, memória, resistência e respeito.
Ao não valorizar o que nasce das raízes locais e da diversidade social que se reúne para celebrar, reafirma-se uma postura antiga de abandono do Povo. O mesmo Povo que, durante todo o ano, convive com a falta de saúde, educação, saneamento, segurança e dignidade. Investir no Povo, com P maiúsculo, ainda é visto como favor, quando deveria ser dever.
E o carnaval, manifestação popular que nasceu das margens sociais de Porto Velho, escancara essa realidade em seus enredos e nas ruas, assim como ocorre em toda e qualquer escola de samba do país.
É nas escolas de samba que o povo mostra que, apesar de tudo o que sofre com a falta de investimentos do Poder Público, ainda resiste. Enquanto houver tambor, corpo e memória, o samba e suas agremiações seguirão dizendo o que a cidade tenta esquecer. Reconhecer o carnaval é reconhecer quem somos, de onde viemos e quem foi empurrado para as margens para que essa história pudesse ser contada.
É o povo mostrando que, apesar de tudo, ainda resiste.









