Do acaso de 2018 à engenharia política de 2026, governador deixa a tutela de bastidores, toma o comando partidário e reposiciona forças no tabuleiro estadual
A trajetória política do governador Coronel Marcos Rocha pode ser lida como um movimento contínuo de transição: do candidato impulsionado por circunstâncias excepcionais ao dirigente que passa a organizar, por conta própria, a engrenagem eleitoral. Em 2018, Rocha emergiu no vácuo de um ciclo político em colapso, ancorado no capital simbólico do então presidenciável Jair Bolsonaro. À época, o alinhamento ideológico e o “timing” foram decisivos para a vitória. O mandato que se seguiu, contudo, tratou de deslocar o centro de gravidade do discurso para os resultados administrativos, movimento que se consolidou na reeleição de 2022, já com luz própria.
Até esse ponto, a costura política nos bastidores esteve concentrada nas mãos de Júnior Gonçalves, então chefe da Casa Civil. O rompimento — acompanhado de acusações públicas de traição e de tensões que alcançaram inclusive o vice-governador Sérgio Gonçalves — produziu um efeito imediato: cautela. O governador passou a agir como “gato escaldado”, reduzindo a exposição e preservando silêncio estratégico enquanto reavaliava alianças e caminhos.
O desfecho dessa reavaliação veio com a filiação ao PSD, selada de forma discreta, na residência do presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, em São Paulo. O gesto, longe de ser apenas formal, indicou mudança de método. Ao optar por gerir pessoalmente a própria vida política — e, por consequência, a eleitoral — Rocha não apenas trocou de partido: assumiu o comando do processo.
No plano local, o PSD era até então identificado com a liderança de Expedito Júnior, figura que, embora não acumule vitórias recentes em disputas majoritárias, construiu reputação como articulador. Expedito foi derrotado em 2014 por Confúcio Moura e, em 2018, pelo próprio Rocha. A partir daí, passou a desempenhar um papel menos visível, porém decisivo: o de viabilizador de candidaturas alheias.
A sequência de derrotas expôs, de forma cada vez mais evidente, uma limitação que Expedito Júnior nunca conseguiu superar plenamente: a fragilidade retórica em disputas diretas. Em 2014, diante de Confúcio Moura — então no auge político, ainda sem a associação atual com a esquerda e, por isso, paradoxalmente rejeitado por conservadores — Expedito apresentou um desempenho considerado constrangedor até por aliados, com dificuldade de articulação verbal e incapacidade de sustentar embates públicos mais duros.
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O cenário se repetiu em 2018, quando enfrentou Coronel Marcos Rocha. Nervosismo excessivo, erros em citações bíblicas e uma oratória vacilante transformaram o então neófito em um predador político diante de um veterano que, teoricamente, tinha a obrigação de vencer — e não venceu. Foi nesse momento que Expedito parece ter feito um diagnóstico definitivo sobre si mesmo: sua vocação não era protagonizar, mas criar protagonistas. Um contraste evidente com outro “filho político”, Ivo Cassol, que, embora demonstre dificuldades recorrentes para transferir capital político a terceiros, permanece altamente popular quando disputa em causa própria. Enquanto Cassol vence para si e tropeça ao apostar nos outros, Expedito perdeu para si, mas passou a vencer sistematicamente por meio dos outros.
Esse histórico explica por que a aliança com o governador não deve ser lida de forma simplista. Expedito ajudou a projetar nomes que hoje ocupam posições centrais na política rondoniense, como Hildon Chaves e Laerte Gomes. Também pavimentou o caminho do filho, Expedito Netto, ao mandato de deputado federal. Ainda que pai e filho estejam hoje em campos distintos — Netto integra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e manifesta intenção de disputar o governo estadual —, o capital político acumulado por Expedito segue relevante.
Os números das eleições municipais de 2024 reforçam esse ponto. Sob sua influência indireta, o PSD alcançou sete prefeituras, tornando-se a terceira maior força municipal do estado, atrás apenas de União Brasil e PL. O desempenho não se resume à contagem de cidades; ele traduz capacidade de organização territorial e de formação de quadros competitivos.
Ao assumir o comando do PSD em Rondônia, Rocha desloca esse capital para o centro do Palácio Rio Madeira. A operação produz efeitos colaterais imediatos no horizonte de 2026, ao criar dificuldades para adversários que contavam com um cenário fragmentado. O governador passa a liderar a articulação e a desenhar uma nominata robusta para a Câmara Federal, com nomes de peso e musculatura eleitoral comprovada.
Resta, naturalmente, a incógnita sobre o futuro da federação União Progressista e como ela se acomodará diante de um PSD fortalecido. Mas o fato central já está posto: a subestimação de Expedito Júnior, mais uma vez, cobra seu preço. Atuando longe dos holofotes, ele contribuiu para colocar o governador no epicentro de uma engrenagem partidária mais competitiva.
Se havia dúvidas sobre a capacidade de Marcos Rocha de conduzir, sem tutores, o próprio projeto político, a movimentação recente oferece uma resposta clara. Ao tomar o volante do PSD, o governador não apenas reorganiza alianças; redefine o ritmo da corrida eleitoral em Rondônia. Logo, subestimar a nova dupla é um erro crasso.









