A polêmica do pedágio vira fábula eleitoral, com heróis improvisados, vilões convenientes e culpa diluída
Em 2026, com eleição no horizonte, a política tende a abandonar tons de cinza. O que é complexo, técnico e cheio de etapas vira história curta, emocional e fácil de repetir. É quando se busca, quase por reflexo, um enredo de mocinhos e vilões: o príncipe que “salva” o povo e a bruxa que “condena” a população. Não é apenas comunicação — é estratégia. Todo herói eleitoral funciona melhor quando existe um antagonista nítido para combater, alguém em quem se possa concentrar a raiva e transformar indignação social em combustível político.
O caso do pedágio na BR-364 se encaixou como luva nesse mecanismo. A cobrança, descrita no debate público como abusiva e de valores extorsivos, deixou de ser somente uma discussão sobre contrato, agência reguladora, cronograma de obras e modelo de arrecadação. Passou a ser uma narrativa moral: o bem contra o mal. E, como em toda história maniqueísta, alguém precisava ser coroado como vilão — de preferência um vilão com “sinal” político fácil de identificar.
Foi aí que o senador Confúcio Moura, do MDB, entrou em cena de um jeito que, na prática, ofereceu o papel pronto aos seus adversários. Confúcio, que costuma ser discreto ou tardio em temas impopulares, decidiu dar as caras nas redes sociais defendendo a concessão. E fez isso costurando uma explicação cronológica que empurrou a gênese do processo para 2019, no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, citando também o então ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas.
Em ano eleitoral, esse gesto é quase um presente: ele não apenas se posicionou, como definiu um campo. Mais do que isso, virou uma figura perfeita para personificar o “lado do mal” no imaginário da disputa. Único aliado do presidente Lula na bancada federal de Rondônia, passou a ser o alvo mais cômodo para descarregar a indignação popular, porque é mais simples apontar um “senador do governo” do que admitir que a responsabilidade pelo tema está espalhada entre Executivo federal, órgãos de controle, agência reguladora, concessionária e — também — a atuação (ou omissão) de toda a bancada.
A sequência dos fatos ajudou a consolidar o roteiro. Em 29 de janeiro, a Justiça Federal suspendeu a cobrança do pedágio no trecho concedido da BR-364, no âmbito de uma ação civil pública que reuniu pedidos de Aprosoja/RO, Abiove e iniciativas do partido União Brasil. A decisão apontou falhas na verificação técnica das obras exigidas como condição para o início da tarifa, questionou a metodologia de vistoria, com interpretação de cobertura mínima diante da extensão total, e problematizou o modelo free flow, especialmente quanto à comunicação aos usuários e às limitações locais de acesso à internet e aos meios de pagamento. O juiz determinou a suspensão imediata da cobrança, considerando os requisitos de tutela de urgência e o risco de dano aos usuários.
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No dia seguinte, a Concessionária Nova 364 divulgou duas notas em poucas horas: primeiro afirmando não ter sido notificada e, depois, confirmando o recebimento da intimação judicial e informando que cumpriria a liminar enquanto analisaria medidas legais cabíveis. Na prática, a realidade ficou simples para o público: a Justiça mandou parar; parou. E onde existe uma vitória objetiva — ainda que provisória — aparece a oportunidade política de transformar alguém em herói.
Nesse cenário, o deputado Maurício Carvalho surfou como príncipe. Criticado como líder da bancada, reposicionou-se a partir do protagonismo na reação judicial. Antes mesmo da liminar, já havia marcado publicamente a diferença com Confúcio, afirmando que “o resto da bancada inteira foi contrário” ao modelo adotado, e adotou um tom realista ao dizer que não adiantaria “mentir pra população” sobre a facilidade de reverter o pedágio, reforçando que a saída passava pelo Judiciário. Depois da liminar, o ganho simbólico foi imediato: quem participa do movimento vencedor vira, na leitura popular, defensor do povo.
O contraste ficou cristalino: Confúcio, ao defender a concessão e reagir às cobranças, tornou-se a “Rainha Diabólica” ideal do enredo. Maurício e outros atores, mesmo que tenham convivido com o tema sem romper a inércia antes da crise estourar, foram elevados a heróis do dia para a noite. Em paralelo, outras figuras, como o senador Jaime Bagattoli, passaram a vocalizar a crítica ao emedebista com apetite — um movimento típico de ano eleitoral: ninguém quer carregar a parte ruim da história; todos querem assinar o capítulo da redenção.
Mas o editorial precisa insistir no que o teatro tenta ocultar: a culpa não é de um só. A responsabilidade é coletiva. A mesma bancada que hoje disputa o papel de “mocinho” conviveu com a construção desse processo ao longo do tempo e agora encontra no senador ligado ao governo federal a escada perfeita para subir, transformando um debate que deveria ser técnico e institucional em uma fábula eleitoral.
É por isso que o momento pede prudência, inclusive para os príncipes recém-coroados. Eles devem aproveitar bastante enquanto a liminar vigora, porque ela é provisória. Se for revertida, o jogo muda rápido: o Belo pode virar Fera; e a bruxa, quem sabe, a princesa.
No fim das contas, porém, a própria realidade tende a desmontar o teatro. Não há, nesse episódio, mocinhos imaculados nem vilões absolutos. O que existe é um jogo de cena habilmente montado, em que personagens trocam de figurino conforme a utilidade política do momento. A crise do pedágio expôs menos um embate entre o bem e o mal e mais a habilidade de transformar circunstâncias provisórias em capital eleitoral, convertendo decisões judiciais temporárias em troféus e responsabilidades compartilhadas em culpas individuais. Quando o pano baixar, o público talvez perceba que o espetáculo não era sobre justiça ou tarifas, mas sobre conveniência — e que, como em toda fábula política, os papéis nunca são permanentes.






