Reflexão sobre feminicídio, cultura de revitimização, desvalorização da docência e a responsabilidade masculina diante da violência contra mulheres em Rondônia
Rafael Ademir Andrade
Professor e em luto
Uma colega foi assassinada em sala de aula nesta sexta-feira, dia 07 de fevereiro de 2026. Logo que ela faleceu começaram a aparecer as teorias da conspiração: que ele era faccionado, que ele tinha reprovado por três décimos e por fim, que eles tinham um caso. Esta última “resposta” foi utilizada por várias pessoas nas redes sociais – especialmente homens – como justificativa para que um homem tirasse a vida de uma mulher. Ainda sobre a lógica do “crime de honra” que permeia o Brasil até os dias atuais, um suposto relacionamento seria a justificativa para que a professora morresse. Neste texto farei um esforço gigantesco para não ser punitivista, não ser revanchista, não expor o que penso de forma direta, farei uma análise possível.
O primeiro ponto é que foi um feminicídio e o segundo ponto é que a Delegada responsável pelo caso até então disse que não houve romance e sim uma tentativa por parte do homem (aqui gostaria de dar outro adjetivo para o mesmo) de diminuir a imagem da professora. No Brasil não basta apenas matar mulheres, os homens ainda revitimizam ao acabar com a imagem da mulher.
Recentemente li nas redes sociais de um homem daqui de Rondônia que “toda mulher, mesmo que morta, é passível de ser difamada” (ou similar), frase atribuída à Nelson Rodrigues. Este indivíduo, no estado com o 2º maior índice de assassinatos contra a mulher do Brasil, ter coragem de publicar uma frase assim dá indícios que não há preocupação por parte dos homens do estado em sequer fingir que se preocupa com o aumento da violência. Este sujeito possui amigos, amigas, seguidores, segue pessoas e ninguém falar nada contra isso é outro sintoma: não conseguimos romper com quem propagação da violência, mesmo em nossas esferas mais íntimas.
Não há espaço mais para tolerarmos, em 2025, homens adultos propagando violência, pois de pequenas violências – conforme professor amigo meu externou na análise do caso da Dra. Juliana – é que chegamos no feminicídio.
Outra questão fundamental é: vivemos uma crescente desvalorização da docência, tanto no campo simbólico quanto material. No material, há o que chamamos de precarização da prática docente, quando não há condições financeiras, estruturais, laborais para o exercício da docência e do bem-viver docente. Já a questão simbólica temos o recorrente ataque ideológico à profissão docente, do valor da ação do mesmo e até de sua vida.
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
“Grande parte dos professores são militantes” ou “Professor tem que ganhar pouco mesmo, porque trabalha pouco” são frases atribuídas por políticos que são daqueles mais bem quistos no estado. Eu, enquanto professor, já fui ofendido nas redes sociais dezenas de vezes por deixar pública minha profissão, em uma dessas ofensas minha opinião foi invalidada por ser professor. Aqui é comum vermos docentes sendo chamados de militantes, de ignorantes, de drogados, de vagabundos e muitas outras palavras, às vezes por alunos das instituições que lecionamos.
A Dra. Juliana realizou um sonho de ser concursada e amava a docência. E infelizmente veio para este estado que, apesar de tudo, eu amo tanto. Neste estado onde assediadores/abusadores andam por aí “fazendo sua arte” e até possuem seguidores, neste estado onde professor não vale nada, neste estado onde mulheres são assassinadas e servidores públicos brincam com isso nas redes sociais.
Ser mulher e ser professora em Rondônia é risco quadruplicado. E já sabendo disto, o que faremos nós homens? Os colegas se movimentam para pressionar os órgãos privados e públicos para que algo seja feito para evitar que isto volte a ocorrer e que quem tirou a vida da docente seja punido legalmente. E estaremos juntos nesta ação!
Todavia, é preciso mais: é preciso denunciar, apoiar, deixar no ostracismo homens acusados/condenados e publicamente violentos/assediadores. Dada a devida vênia da dúvida para toda e qualquer acusação, que o abusador/assediador condenado ou que publicamente tenha postura machista/misógina, seja marcado como ele gosta de ser: uma pessoa violenta com mulheres.
Ser amigo, ser fã, adorar, amar, impulsionar uma pessoa condenada de misoginia/machismo/violência contra mulheres é um contrassenso e por aqui vemos aos montes. Acredito que as pessoas mudam, com terapia, punição legal, formação, mas ninguém muda quando é premiado pelo seu crime. Se seu amigo é um desses metidos a redpill de nada ajuda ele não se tornar um potencial feminicida você empoderar tudo que ele faz, isto te torna cúmplice simbólico de toda violência que ele cometer. Se ele é “mais que isso”, que ele mude!
Isto vale para seu poeta preferido. Para seu crush. Artista que tá sempre nos palcos. E vale para todos nós. Tá na hora dos homens chamarem para si a responsabilidade por debater, criticar e enfrentar tal violência, afinal, somos nós os causadores.
Professora, Doutora, eu não a conheci. Compartilhamos o amor pela docência e pela tentativa de melhorar esta sociedade pela educação. Isto nos une. Fica com Deus e que o universo nos dê outras chances de vermos uma sociedade mais justa.









