Em entrevista ao veículo Rondônia ao Vivo, prefeito de Porto Velho trata gestor de Vilhena como “nosso pré-andidato ao governo do estado” e associa o discurso à vitrine administrativa da saúde e ao modelo de gestão que, segundo o grupo, pretende ser replicado em nível estadual
A entrevista concedida ao veículo Rondônia ao Vivo, no programa Conexão Rondônia ao Vivo, reposicionou o prefeito de Vilhena, Delegado Flori Cordeiro, no centro do debate pré-eleitoral de 2026 ao colocá-lo, de forma reiterada e pública, como o nome do Podemos para a corrida ao Palácio Rio Madeira. A condução política do gesto partiu do prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, que, ao tratar do desenho partidário para o próximo pleito, vinculou diretamente o desempenho administrativo de Vilhena ao projeto estadual, atribuindo ao aliado uma chancela explícita ao declarar: “a gente tá aqui com o nosso amigo Flori, nosso pré-candidato ao governo do estado, que tem uma gestão exitosa, bem sucedida, bem avaliada pelo seu povo, pela sua gente em Vilhena, que resolveu um problema crônico de todas as cidades do Brasil, que é a saúde.”
A escolha do prefeito da capital por adotar esse enquadramento, em vez de manter o debate em registro genérico, operou como sinal de alinhamento interno e de estratégia de construção de narrativa: o Podemos apresenta a gestão municipal como vitrine e tenta transformar êxitos locais em argumento de viabilidade estadual. No mesmo movimento, Léo Moraes procurou amarrar a defesa da pré-candidatura ao que descreveu como protagonismo territorial do partido, ao sustentar que o Podemos administra cidades como “Vilhena, Pimenta Bueno, Porto Velho” e que esse conjunto permitiria discutir a eleição “não somente pelo quantitativo da população governada”, mas “pela qualidade das gestões, como é o caso de Vilhena”, citando o município como “caso de sucesso” e “referência para todo o Estado”.
Do lado de Flori, a fala consolidou a relação política com o prefeito de Porto Velho como origem e fundamento de sua trajetória partidária recente. Ao contextualizar a própria inserção no Podemos, ele afirmou: “Fica muito satisfeito. Estamos aqui com o Léo Moraes, o líder, o presidente de honra do Partido Podemos, do qual eu fui chamado, nasci para a política, nasci na política pelas mãos por um chamado do prefeito da capital, o Léo Moraes. A gente tem feito essa caminhada. O Léo me apoiou para ser candidato a deputado federal. Como a gente diz lá no interior, perdemos a campanha, mas conseguimos chegar na prefeitura de Vilhena através do Podemos e da liderança do Léo.” A construção dessa narrativa, ao mesmo tempo em que reforça a dependência política do vínculo com a capital, busca dar ao prefeito de Vilhena o status de liderança estadual em formação com base em resultados e experiência de gestão.
Ao ser instado a apontar prioridades para o governo, Flori adotou um enquadramento de emergência e concentrou o diagnóstico em duas áreas. Ele disse: “Não há a menor dúvida, de pronto, nós temos uma guerra a ser enfrentada na questão da saúde e da segurança pública. Isto aí já passou do momento, nós estamos já na fase de emergência.” Na segurança, descreveu quadro que classificou como “crise enorme de criminalidade” e associou esse cenário à “falta de gestão superior da polícia e das polícias aqui em Rondônia”. Na saúde, a fala seguiu o mesmo tom de urgência: “Da saúde eu não preciso nem dizer. Se você sair aqui na esquina, nós estamos numa tragédia.” Ao sustentar que o Estado “não é tão complicado assim”, Flori apontou a dimensão populacional como elemento de comparação e conectou o problema à tese central do grupo: “Está faltando gestão e coragem, incrivelmente, fazer o que é certo é impopular no começo, mas depois dá resultado, é bom para o político e é bom para a população, mas precisa ter uma coragem e um pulso firme.”
O prefeito de Vilhena procurou reforçar que o que chama de “experiência” local permitiria uma intervenção rápida, sem recorrer à promessa de soluções definitivas. Ele afirmou: “Ninguém tem a fórmula mágica para perfeição, mas para melhorar muito, nós sabemos que tem jeito.” Ao explicar o modelo que, segundo ele, teria sido adotado no município, insistiu em afastar o rótulo de terceirização e em sustentar uma fórmula de gestão híbrida com participação de entidades sem fins lucrativos, afirmando que seria uma prática consolidada: “no qual a iniciativa privada sem fins lucrativos consegue avançar em muito, sem perder direito de funcionário público, já tem gente fazendo maldade, falando em terceirização, não tem nada a ver com isso.” A narrativa política, nesse ponto, se organiza para transformar um tema sensível — o formato de gestão em saúde — em ativo eleitoral, buscando apresentar eficiência e capacidade de execução como credenciais para a disputa estadual.
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A entrevista aprofundou esse efeito ao deslocar o debate da abstração para uma lista extensa de iniciativas atribuídas à gestão municipal. Flori afirmou: “nós estamos construindo o maior postinho, não é promessa, mas estamos construindo o maior postinho de saúde do norte do Brasil, lá em Vilhena. Nós estamos construindo o SAMU, que não tem, estamos construindo agora o SAMU. Nós estamos construindo, nesse momento, a ala pediátrica na nossa UPA, nós reformamos e ampliamos alguns deles, triplicado o tamanho, todos os postos de saúde da cidade.” Na sequência, ele conectou o discurso a indicadores: “Nós saímos de 27º lugar no ranking do Ministério da Saúde, entre melhor atenção básica, para o segundo melhor atenção básica, a primeira entre as grandes cidades.” Ao lado disso, tratou de hospital regional e, no campo da mobilidade urbana, afirmou: “Nós temos o primeiro sistema de transporte coletivo verdadeiramente de graça. É lá em Vilhena que tem. São 13 ônibus rodando nos quatro cantos da cidade.”
O argumento, porém, não ficou restrito ao inventário de obras ou serviços. Flori colocou como centro político do próprio discurso o que definiu como reorganização administrativa e financeira do município, tentando deslocar o foco do “que foi feito” para “como foi possível fazer”. Ele disse: “O mais importante em Vilhena é que nós recuperamos a capacidade da prefeitura de fazer isso pelo seu povo.” Em seguida, sustentou que a essência do projeto não estaria em prometer novas entregas, mas em demonstrar capacidade de gestão: “quem é o candidato capaz de organizar a bagunça que está por aí, com pulso firme, com disciplina, para fazer o dinheiro do povo retornar para o povo.” Ao encerrar essa linha, reforçou a ideia de legado administrativo ao afirmar que deixaria “uma prefeitura organizada” para que o sucessor pudesse “acelerar uma Ferrari, e não um cacareco.”
No pano de fundo, a forma como Léo Moraes se posicionou ao longo da entrevista também contribuiu para consolidar a “benção” política à pré-candidatura: ao defender que o partido “tem que assumir o seu protagonismo” e afirmar com ênfase “nós não abrimos mão de ter candidato ao governo”, ele reforçou o enquadramento de Flori como opção prioritária do Podemos, conectando o debate à composição regional de chapa e à necessidade de “representatividade” com alguém que tenha “liderança”, “presença” e “capacidade técnica”. A entrevista, assim, articulou duas frentes simultâneas: uma, de promoção direta do nome do prefeito de Vilhena como projeto estadual; outra, de defesa do partido como estrutura capaz de negociar alianças mantendo “plano de trabalho” e “espinha dorsal” do grupo.
Nesse cenário de interior cada vez mais protagonista, a reorganização partidária de outra sigla também entra como variável de poder e explica parte do clima de pré-jogo. No PSD, a certidão de composição do órgão estadual com vigência iniciada na sexta-feira, 20, formaliza uma direção que coloca o governador Coronel Marcos Rocha na presidência do partido em Rondônia e reacomoda o ex-senador Expedito Júnior como secretário-geral, além de listar, entre outros dirigentes, o prefeito de Cacoal, Adaílton Fúria, na vice-presidência e o deputado estadual Laerte Gomes também como vice-presidente.
No plano político, esse desenho organiza uma superestrutura em torno de Fúria, mas também o coloca sob um tipo específico de pressão pública que não aparece com a mesma intensidade no caso de Flori: enquanto o prefeito de Vilhena, na entrevista, sustentou seu discurso principalmente em gestão e resultados administrativos, o prefeito de Cacoal tem sido descrito, em textos opinativos do noticiário regional, como alguém que precisa reiterar com frequência que não se identifica com a esquerda, que não nutre simpatia pelo presidente Lula e que se alinha ao ex-presidente Jair Bolsonaro, do PL, transformando a disputa identitária em parte constante da comunicação política.









