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PRÉ-CANDIDATO AO EXECUTIVO
Samuel Costa promete aumentar ICMS dos empresários da soja em Rondônia se for eleito governador

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Pré-candidato da federação Rede-PSOL ao governo usou entrevista para defender tributação progressiva sobre a soja, cobrar espaço na esquerda, citar Lula, atacar adversários e criticar estruturas da segurança pública

Por Vinicius Canova - quinta-feira, 26/03/2026 - 10h19

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Porto Velho, RO – Ao apresentar o que considera uma de suas propostas mais sensíveis para a disputa ao governo de Rondônia, o advogado e pré-candidato Samuel Costa afirmou, em entrevista ao podcast Resenha Política, feito em parceria com o Rondônia Dinâmica, que pretende elevar a cobrança sobre o setor da soja no estado e transformar essa arrecadação em instrumento de combate às desigualdades sociais. Ao mesmo tempo, ele vinculou seu discurso à defesa histórica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Rondônia, dizendo que pagou preço político por sustentar posições que, segundo sua própria narrativa, outros nomes hoje evitam assumir com a mesma clareza.

No trecho em que tratou da política tributária, Samuel afirmou de forma direta que pretende mexer na estrutura do ICMS incidente sobre a soja e deixou claro que enxerga o tema como uma pauta de enfrentamento.

“Não é razoável que nós tenhamos que tolerar a turma do agronegócio. Isso é uma pauta que vai dar essa maior polêmica. Essa turma paga zero centavo de ICMS, meu irmão”, declarou, ao sustentar que o estado precisa rever a forma como lida com a principal cadeia econômica ligada ao plantio de soja.

Em seguida, ao ser questionado objetivamente sobre o que faria num eventual governo, detalhou a linha que pretende adotar:

“Olha só, primeiro tentar equalizar a situação atinente ao ICMS. De forma progressiva. O Chacrinha diz que nada se cria, tudo se copia. Aquilo que foi feito no Mato Grosso do Sul, a gente vai copiar. Começar a tributar essa turma da soja de 1% e meio. Ah, vai ter escassez, vai fechar a BR. Negativo, companheiro. Vocês já ganharam muita grana, estão recebendo tudo em commodities, em dólar. Agora é a hora deles contribuir um pouco e pegar esse dinheiro, oriundo da soja, e destinar em combater as desigualdades sociais. É utopia não. Basta que o governador tenha autoridade e não tenha compromisso com essa turma.”

Ao aprofundar o raciocínio, Samuel procurou delimitar o alvo de sua crítica dentro do agronegócio, afastando a pecuária do centro do ataque. Segundo ele, o problema está concentrado nos plantadores de soja e na relação entre arrecadação, emprego e impacto viário. “O agronegócio que eu quero ponderar são os plantadores de soja. A pecuária não, a pecuária está sendo injustiçada, meu irmão”, disse. Na sequência, completou o argumento com nova crítica ao setor, ao afirmar: “Na soja, é 0 centavo. Quem destrói a BR-364, a 425, a 319, as ROs, as estradas vicinais, é esse caminhão bitrem. Aí o que o cara da soja faz? Faz um grande latifúndio, planta mil hectares de soja, pega o dinheiro do BNDES, do Banco do Brasil, da própria Caixa Econômica Federal, tem dois anos de carência e paga lá 6% ao ano de juros. Compra uma máquina de um milhão e meio de reais, faz a retirada da soja ali, tudo por wi-fi, wireless. Qual é o emprego que esse cara traz pra Rondônia? Esse cara não gera emprego nenhum, não. O teu podcast aqui, Robson, gera mais emprego do que uma das fazendas do Ivo Cassol.”

Esse bloco da entrevista foi acompanhado por outro eixo igualmente contundente: a tentativa de Samuel de se apresentar como o nome mais legítimo da esquerda para a sucessão estadual. Ao falar sobre o cenário partidário, ele afirmou que a convergência em torno de sua pré-candidatura não ocorre por divergência programática, mas por resistência pessoal e disputa de espaço dentro do próprio campo progressista.

“Honestamente falando, eu acho que na altura do campeonato, e não veja-se isso como soberba, acho que o pré-candidato legítimo do campo da esquerda deveria ser só eu. Você tem mais identidade. Se você fizer uma pesquisa dos 52 municípios do Estado e colocar Samuel Costa ou qualquer outro desses pré-candidatos que tentam ensaiar a vir pelo nosso campo, na disputa do governo do Estado, eu acho que, tirando o Vinícius Miguel e até mesmo o Confúcio Moura, o nosso nome é o que está mais badalado, que tem mais disposição e não abre mão das suas convicções”, declarou.

Na mesma linha, Samuel atribuiu a resistência a seu nome a um problema interno que, segundo ele, atravessa os partidos de esquerda em Rondônia. “Eu acho que o dissenso é a vaidade. Eu não assumi um único cargo federal. Me propuseram ser superintendente, ser secretário de Estado. Eu nunca assumi porque eu acho que não é legal”, afirmou. Ao justificar a reação que diz enfrentar de dirigentes mais antigos, acrescentou: “No nosso campo da esquerda, há um dissenso pelo fato de dizer o seguinte: o Samuel é muito novo. Mas eu não tenho um único dia de déficit na minha vida. Eu saí do Bairro Nacional, que é uma das comunidades mais estigmatizadas, eleita entre as dez maiores periferias do Brasil. E das poucas oportunidades que eu tive, eu subi a explorar muito bem. Isso causa um pouco de ciumeira.”

Ao falar de sua trajetória política e de sua inserção no lulismo, Samuel também lançou um discurso em primeira pessoa para sustentar que teria sido um dos defensores mais constantes de Lula em Rondônia. Nesse momento, a entrevista passou a misturar queixas políticas, episódios pessoais e ataques a nomes que, segundo ele, tentam circular no mesmo campo ideológico mesmo tendo histórico diferente. “Eu acho que o meu erro estratégico foi cuidar muito do estado de Rondônia e não deixar com que o Lula, por exemplo, soubesse de 10% das coisas que eu fiz. Por exemplo, quando a Dilma estava sendo impeachmada, o deputado federal Expedito Neto votou pelo impeachment dela”, disse, antes de ampliar a crítica. Em outro trecho, afirmou: “Se fizer uma pesquisa dentro do bolsonarismo mesmo, e perguntar qual é o cara que na última década, se você perguntar hoje no chat do PT, nas últimas décadas em Rondônia, quem mais defendeu o Lula na televisão, rádio, internet, em rede social? Eu fui processado pelo Luciano Hang, o sexto homem mais rico do Brasil, o bolsonarista, porque eu disse que ele é ladrão, porque ele tinha colocado uma faixa dizendo que o Lula é ladrão e que ele é ladrão.”

A menção a Luciano Hang ocupou uma parte expressiva da entrevista e apareceu como um dos exemplos usados por Samuel para demonstrar, segundo ele, o grau de enfrentamento político que assumiu nos últimos anos. Ao explicar o caso, ele afirmou: “Lá na audiência do criminal, no cível, eu falei: olha, então porque ele não pagou Receita Federal, não pagou previdência dos impostos, e quando ele rouba é no sentido de tirar dinheiro da escola. No cível ele colocou lá na comarca dele, aí eu não compareci e deu revelia, mas no criminal deu tudo certo.” Na sequência, acrescentou detalhes sobre os custos do processo: “Ele pediu acho que R$ 50 mil. E aí eu fui ver as passagens, as coisas, para ver a audiência. Teve uma vez que eu vendi um carro e paguei diretamente na conta.”

Samuel também usou a entrevista para criticar a relação entre parte da esquerda rondoniense e nomes que, na avaliação dele, não demonstrariam coerência política. O pré-candidato afirmou que o PT teria se tornado dependente de Acir Gurgacz e citou diretamente Expedito Netto como exemplo de liderança que, segundo ele, não poderia ser tomada como referência no campo progressista sem que o passado fosse lembrado. “O problema do PT é que eles ficaram refém aqui em Rondônia do Acir Gurgacz, porque ele é o dono da bola, ele tem dinheiro, ele tem ônibus, ele tem poderio financeiro. Nas eleições de 2018, mesmo ele votando pelo impeachment da presidenta Dilma, veio uma carta da Gleisi Hoffmann querendo obrigar o PT a apoiar o mesmo. Então tipo assim, eu acho que o preço que eu pago é por ter um pouco de coerência”, declarou.

Em outra frente de ataque, Samuel relatou ter recebido convite do governador Marcos Rocha para assumir a Secretaria de Justiça em um momento conturbado da pasta. O episódio surgiu quando ele tentava reforçar a tese de que poderia dialogar institucionalmente sem abrir mão da diferença ideológica. “O governador Marcos Rocha tem uma aproximação muito… apesar da gente divergir no aspecto ideológico, ele sempre tem se posicionado. Ele chamou pra eu ser secretário de Estado. A Secretaria de Justiça, na época, estava um pouco conturbada”, afirmou. Em seguida, reconheceu pontos da atual gestão: “Ele é uma pessoa que, apesar da gente divergir no aspecto ideológico, sempre manteve um relacionamento pessoal comigo. É uma pessoa que tem avançado em algumas pautas sociais. Por exemplo, a situação do Prato Fácil. É uma coisa exitosa. A gente não pode dizer que não é uma coisa que avançou. O Tchau Poeira é uma coisa que, ao meu sentir, ajudou a elevar a autoestima do nosso povo em Porto Velho, no interior do estado.”

Quando a entrevista avançou para a área da segurança pública, Samuel voltou a falar em tom frontal. Reconheceu ganhos salariais e avanços de estrutura, mas afirmou que o estado ainda falha na composição do efetivo e na destinação de policiais para o trabalho ostensivo. “A primeira coisa que eu faria como governador, que o Marcos Rocha não fez, o Confúcio e todos que antecederam, foi não ter autoridade de pegar esses policiais que estão cedidos para a Assembleia Legislativa, para o Tribunal de Contas, para o Ministério Público, para o Tribunal de Justiça e encaminhar pra rua”, disse. Em seguida, resumiu seu entendimento em uma frase curta, mas central na entrevista: “Militar tem que estar na rua.” Ao contextualizar essa posição, emendou: “Policial militar, combatente, é pra estar fazendo patrulhamento ostensivo, uniformizado, com giroscópio ligado e combatendo o crime organizado. Quem é uma polícia investigativa e repressiva é a polícia judiciária, a Polícia Civil.”

No mesmo bloco, ele atacou contratos firmados na área de segurança e questionou a locação de veículos para uso policial. “Tem lógica hoje tu alugar um veículo Virtus, que custa R$ 120 mil, e aí pagar um aluguel de R$ 15 mil? No governo do estado de Rondônia, na Secretaria de Segurança Pública”, afirmou. Depois, completou com nova crítica: “O policial é tudo de 1,80m, 2m, com aqueles equipamentos, fuzil, carabina, pistola, colete balístico, não consegue sequer se movimentar dentro da viatura. Então o carro de polícia tem que ter camburão, é Hilux, S10 com camburão.”

A fala de Samuel também incluiu críticas ao uso político da imagem de integrantes das forças de segurança e à transformação de operações em trampolim eleitoral. Segundo ele, a vaidade compromete a função pública e estimula distorções. “O delegado passou boa parte da vida dele estudando para o concurso público. Quando ele é aprovado, ele é uma pessoa anônima. E aí quando ele vai para o interior e faz uma operação policial, e vem um Robson Oliveira entrevistando ele, um Everton Leoni, um Algor José, um repórter, a Renata Beccari, a Luana Najara, ele se deixa permitir ser movido pela vaidade”, declarou. Na mesma resposta, sustentou que isso exige regulação: “É por isso que a gente defende um pedágio, para que agentes da segurança pública, que queiram ingressar na vida política e partidária, que é legítimo, democrático, tenham um período ali para poder sair, porque senão a gente vai ver o que acontecia no início dos anos 90.”

Ao comentar o debate sobre a escala 6×1, o pré-candidato voltou a recorrer a falas longas, comparações históricas e tom de confronto. Para ele, o argumento empresarial contrário à redução da jornada desconsidera a vida concreta dos trabalhadores e reproduz lógica desigual. “O autor desconhecido diz da seguinte forma: libertei mil escravos e poderia libertar tantos outros se eles soubessem que eram escravos. A gente precisa resgatar o que é o sentimento de pertencimento e a consciência do que é a luta de classe. O Marcos Pereira e o Valdemar da Costa Neto são pessoas sofisticadas, que a seu bel prazer pagam 5, 8, 10, 15 mil reais numa garrafa de vinho, mas quando é pra dar uma diária a menos, ou um dia de descanso a mais pro trabalhador, ele diz que vão colapsar. Antes da Lei Áurea, se a gente fosse querer abolir a escravatura em 2026, na era da informação, no terceiro milênio, no século XXI, o discurso seria o mesmo: olha, o Brasil vai quebrar. Isso é uma tolice”, afirmou.

Na sequência, Samuel tentou ilustrar a rotina do trabalhador comum e transformou a resposta em um relato mais descritivo, mantendo o raciocínio em primeira pessoa. “As pessoas estão adoecendo com doenças oriundas de doenças psicossomáticas, depressão, ansiedade. Tu acha que uma mulher que mora no Jardim Santana, na Zona Leste de Porto Velho, e que vem trabalhar aqui na van da Jorge Teixeira ou de bicicleta, ela entra na loja 9 horas da manhã. A jornada de trabalho dela começa às 6h30, fazendo café e tendo que levar a menina, dando banho em menino e levar a menina pra escola. Ela sai de lá, ela vai dar uma pernada de bicicleta de 10km. Ela chega suada, tem que trocar de roupa. Aí ela trabalha 8 horas, com uma hora de descanso. Quando ela sai, seis horas, qual o tempo que ela vai ter pra se profissionalizar?”, questionou.

Já no fim da entrevista, o pré-candidato voltou a cobrar posicionamento de lideranças de esquerda que, segundo ele, não abraçam sua pré-candidatura. Samuel citou contatos com Vinícius Miguel e manifestações de respeito a Roberto Sobrinho, mas afirmou não compreender a resistência de outros dirigentes. “Eu não sei qual é a dos caras. Eu não sei se eles têm receio de, sei lá, vir um recurso financeiro para a minha campanha e eu virar as costas. Ou, ah, o Samuel, se ele pegar o apoio… Porque a verdade é a seguinte: se tu pegar todos os oito pré-candidatos, mais ou menos, e tivesse uma prova de conhecimento, eu acho que a maior nota ia ser a minha”, declarou.

No mesmo encerramento, Samuel incluiu críticas a nomes como Célio Lopes e voltou a comparar gastos eleitorais. “Cadê o Célio, que até agora não participa de nenhuma reunião? Eu fui participar em Cacoal, chamaram ele pra ir pra mesa, ele viu a bandeira do PC do B, me pareceu que era o diabo fugindo da cruz. Só na campanha da Euma Tourinho e do Célio Lopes foram gastos mais de seis milhões de reais em Porto Velho. Quanto foi gasto? Duzentos mil. Ainda tive que dar cem mil para os vereadores”, afirmou. Na despedida, já em tom menos agressivo, Samuel agradeceu o espaço e disse acompanhar as análises do apresentador como forma de orientação em momentos de dúvida, encerrando a entrevista.

AUTOR: VINICIUS CANOVA (DRT 1066/RO) – LinkedIn





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