Em entrevistas exclusivas ao Informa Rondônia, lideranças analisam reação após o primeiro turno; estudante Mayra Mello conta como participou da organização, relata ameaças e explica sua motivação pessoal para ir às ruas
Porto Velho, RO – A mobilização de milhares de pessoas em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no domingo (11), em Porto Velho, foi organizada por sete coletivos juvenis e reuniu participantes que, segundo as lideranças ouvidas, não estavam necessariamente envolvidos nas atividades tradicionais da militância partidária. O ato ocorreu duas semanas antes do segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro, e provocou avaliações sobre o comportamento dos eleitores depois da votação de 4 de outubro.

Em entrevistas concedidas exclusivamente ao Informa Rondônia, a ex-senadora e deputada estadual eleita Fátima Cleide (PT), a ex-candidata ao Senado Luciana Oliveira (PT) e o secretário estadual de Movimentos Populares do partido, Ramon Cujuí, falaram sobre a organização da caminhada, a participação estudantil, a reação da militância e os desafios enfrentados pela campanha de Lula em Rondônia.
Os relatos também incluem o depoimento de Mayra Mello, estudante de 24 anos que participou da organização da manifestação. Ela contou que nunca havia participado de um protesto, explicou como sua experiência com a educação pública influenciou a iniciativa e afirmou ter recebido ameaças durante os preparativos.
A caminhada teve concentração a partir das 16h, na Praça das Três Caixas d’Água. Os participantes seguiram pela Avenida Presidente Dutra, passaram pela Rua 7 de Setembro, percorreram a Avenida Percival Farquhar e retornaram ao ponto inicial. Houve uma parada nas proximidades de uma instituição de ensino. Compareceram milhares de pessoas, sem estimativa oficial de público.

Para Fátima Cleide, o tamanho da manifestação chamou atenção por uma razão relacionada à própria experiência política. A parlamentar, que já exerceu mandato no Senado Federal e foi eleita deputada estadual em 2026, comparou a caminhada com atos realizados em Porto Velho durante as mobilizações pelas eleições diretas e as greves dos anos 1980 e início da década de 1990.
“Há muito tempo eu não via uma manifestação tão grande nas ruas de Porto Velho, né?”, afirmou. Ao recuperar acontecimentos anteriores, acrescentou: “Eu, para falar a verdade a você, assim, eu me lembro da gente botar muita gente na rua na época das diretas dos anos 80, sabe?”. Em seguida, fez uma comparação ainda mais contundente: “Mas como ontem em Porto Velho eu não tenho lembrança de outro momento.”
A deputada eleita atribuiu parte da reação dos apoiadores do presidente ao resultado do primeiro turno. Segundo sua avaliação, havia uma expectativa de que Lula pudesse vencer antecipadamente a disputa, enquanto a participação nas ruas estava mais concentrada nas juventudes de partidos como PT, PCdoB e PSOL.

Fátima afirmou que o desempenho eleitoral de candidaturas identificadas com a direita provocou uma reação de outros segmentos juvenis, que passaram a participar das manifestações.
“A moçada resolveu se manifestar também. Entendeu que não dá para ficar parado de braços cruzados na internet, que é preciso tomar a internet e tomar também as ruas, né?”, declarou.
A parlamentar relacionou essa movimentação à preocupação com direitos individuais, civis, coletivos e trabalhistas. Na entrevista, criticou propostas que, em sua avaliação, podem representar redução de garantias sociais e mencionou especificamente o debate sobre o encerramento da escala de trabalho 6×1.
Ao tratar da jornada de trabalho, Fátima defendeu que os trabalhadores tenham pelo menos dois dias de descanso por semana, mas revelou uma posição que vai além da proposta de escala 5×2.
“Na realidade, eu já estou um pouco mais adiantada, porque eu já sou defensora da escala 4×3”, afirmou.
A ex-senadora argumentou que jornadas menores poderiam ampliar as possibilidades de estudo, lazer e convivência familiar. Para exemplificar, contou ter conversado com uma trabalhadora de supermercado que relatou dificuldades para estudar devido ao horário de trabalho e ao tempo necessário para retornar para casa.
Fátima também avaliou que a participação popular pode alcançar eleitores que evitam manifestações políticas por receio de consequências no ambiente profissional. Segundo ela, existem pessoas que demonstram apoio de maneira discreta por estarem próximas de empregadores que acompanham seu comportamento.
A deputada eleita acredita que a mobilização poderá contribuir para a disputa presidencial, mas apresentou essa possibilidade como uma expectativa política, associada à participação de pessoas que não haviam se manifestado anteriormente.
Luciana Oliveira, que disputou o Senado pelo PT, apresentou uma distinção sobre a autoria da manifestação. Em sua entrevista exclusiva ao Informa Rondônia, fez questão de esclarecer que a organização não partiu diretamente da estrutura partidária.
“Eu acho que é importante destacar que esse não é um movimento do PT. Foi uma grande manifestação puxada, organizada pela juventude de Rondônia”, afirmou.
Segundo Luciana, sete grupos se articularam depois do primeiro turno. O PT participou oferecendo apoio à realização da caminhada, inclusive em questões de segurança e infraestrutura.
“Eram sete grupos que se formaram após o primeiro turno e aí sim o PT deu todo o suporte que pôde, com segurança, com estrutura, né? E ajudou nessa mobilização”, explicou.
A ex-candidata destacou a participação de estudantes acompanhados dos pais, além de militantes que atuam no partido há décadas. Fátima Cleide e integrantes ligados à fundação do PT em Rondônia estavam entre os participantes mencionados por ela.

“São duas gerações de progressistas, de pessoas que optam por militar para a reeleição do presidente Lula”, declarou. Depois, reafirmou a diferença entre o envolvimento partidário e a origem da iniciativa: “Mas, sem sombra de dúvidas, foi um grande levante de juventude. Não do PT.”
Luciana, que também realizou uma transmissão da manifestação para o portal Brasil 247, relatou ter encontrado participantes que historicamente votam em candidatos da direita, mas que, segundo sua percepção, passaram a apoiar a reeleição de Lula.
Ela também mencionou jovens interessados em ingressar no Partido dos Trabalhadores e pessoas que declararam ter realizado filiação recentemente.
A ex-candidata reconheceu, entretanto, que a mobilização representa uma parcela do eleitorado de uma capital na qual Flávio Bolsonaro obteve vantagem no primeiro turno. Ao avaliar a situação do próprio campo político, apontou dificuldades de aproximação com setores da sociedade.
“Então há um vácuo do Partido dos Trabalhadores, do governo Lula, que precisa ser preenchido para que essas pessoas não recorram a promessas fáceis”, declarou.
Na avaliação de Luciana, a manifestação teve importância para os apoiadores do presidente, mas não representa, isoladamente, uma mudança nas intenções de voto da população.
“Esse movimento de ontem, essa manifestação, ela é muito simbólica”, afirmou, antes de relacionar a atividade à organização dos apoiadores de Lula para a segunda etapa da eleição.
Entre os objetivos mencionados pela ex-candidata estão a busca por eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno, o diálogo com indecisos e a tentativa de conquistar votos de pessoas que escolheram outras candidaturas.
“Estamos permanentemente mobilizados para que as pessoas que não foram votar no primeiro turno, por algum motivo, agora compareçam às urnas”, declarou.
Luciana também citou a realização de manifestações em Cacoal, Jaru, Ji-Paraná, Rolim de Moura e Guajará-Mirim, relacionando essas atividades à organização de grupos contrários ao bolsonarismo.
O secretário estadual de Movimentos Populares do PT em Rondônia, Ramon Cujuí, apresentou informações sobre os preparativos da caminhada e fez uma avaliação sobre o comportamento da militância antes da eleição.
Em entrevista exclusiva ao Informa Rondônia, o dirigente identificou sete coletivos juvenis envolvidos na organização. Entre os grupos mencionados estão Juventude de Rondônia, Marcha pela Democracia e Jovens pela Cultura.
Ramon explicou que o PT participou da primeira reunião de organização e forneceu apoio, incluindo carro de som. A condução da manifestação, porém, permaneceu com os coletivos de estudantes e jovens.
Ao justificar a participação da legenda sem assumir diretamente a organização, o dirigente afirmou que “a estratégia nossa é deixar a sociedade tomar conta da campanha do Lula”.
A avaliação mais contundente de Ramon surgiu quando foi questionado sobre a diferença entre a movimentação registrada depois das urnas e o comportamento dos apoiadores durante o primeiro turno.
“Olha só, me parece que havia uma certa acomodação, havia até um sentimento de vitória no primeiro turno e que o resultado espantou, deu um susto em todo mundo”, declarou.
O secretário incluiu o próprio partido nessa avaliação e disse que havia uma percepção de tranquilidade diante da candidatura do presidente. O desempenho de Flávio Bolsonaro, segundo ele, alterou esse ambiente.
Ramon descreveu o PT como uma legenda que também havia demonstrado acomodação durante a primeira etapa da disputa. Ao comentar o resultado, disse que a militância percebeu que a situação eleitoral era diferente da expectativa anterior.
O dirigente relacionou essa reação a manifestações em outras partes do país, inclusive em São Paulo, onde ocorreu uma caminhada na Avenida Paulista com a presença de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e de outras lideranças políticas.
Um levantamento do Comitê Popular de Luta reuniu 156 ações em 76 cidades brasileiras, entre marchas, caminhadas, carreatas, bandeiraços e panfletagens. Os números correspondem a registros e programações de mobilização, sem constituir uma contagem independente de todas as atividades efetivamente realizadas.
Ramon também falou sobre preocupações com a segurança dos organizadores. Segundo ele, uma das jovens envolvidas na coordenação recebeu ataques e ameaças pelas redes sociais antes da caminhada.
Apesar disso, afirmou que a atividade ocorreu sem incidentes durante o percurso. “Tudo correu ontem sem nenhuma intercorrência, foi muito tranquilo”, relatou.
Os depoimentos foram concedidos após um primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou com vantagem sobre Lula em Rondônia. No estado, o candidato do PL recebeu 652.988 votos, equivalentes a 67,45% dos votos válidos, enquanto o presidente obteve 250.667 votos, ou 25,89%. A diferença ultrapassou 402 mil votos.
Em Porto Velho, Flávio Bolsonaro conquistou 169.992 votos, correspondentes a 59,37% dos válidos. Lula recebeu 90.889 votos, equivalentes a 31,74%. A distância entre os dois na capital foi de 27,63 pontos percentuais.
Além das avaliações políticas de Fátima Cleide, Luciana Oliveira e Ramon Cujuí, a organização da manifestação ganhou outra dimensão no depoimento de Mayra Mello, de 24 anos. A estudante relatou a experiência de participar de uma mobilização de rua pela primeira vez e apresentou razões pessoais para seu envolvimento.
Em entrevista exclusiva ao Informa Rondônia, Mayra contou que a iniciativa começou individualmente e depois se uniu a outros grupos de juventude.
“Na verdade não, eu tive uma iniciativa sozinha”, respondeu quando questionada se já integrava algum coletivo.
A estudante afirmou que entrou em contato com conhecidos de outros estados para divulgar a mobilização. Entre eles estavam amigos do Rio de Janeiro, que também compartilharam a iniciativa.
“Foi a primeira manifestação que eu participei”, contou.
Mayra relacionou a decisão de participar da organização à própria trajetória educacional. Ela disse que veio de uma família pobre, que seus avós não tiveram oportunidade de estudar e que conhece as dificuldades enfrentadas por estudantes que dependem de recursos públicos.
A jovem relatou ter conseguido uma vaga em Engenharia Civil, mas precisou interromper os estudos por dificuldades financeiras relacionadas ao deslocamento até a universidade.
“Consegui uma vaga, mas não consegui me manter lá, porque eu não tinha condições de ir todos os dias”, afirmou.
Segundo Mayra, a situação a obrigou a trancar o curso. Anos depois, ela conseguiu uma vaga em Medicina na Argentina, experiência que também relacionou aos desafios enfrentados por estudantes.
Durante a entrevista, a jovem criticou cortes de recursos na educação que atribuiu ao governo Bolsonaro e afirmou que a defesa do ensino público foi uma das motivações para sua participação na marcha.
Mayra também fez questão de distinguir sua posição política da finalidade que atribuiu à mobilização. Disse ter afinidade com o PT, mas afirmou que sua iniciativa estava relacionada principalmente à defesa da democracia, da educação, da saúde pública e dos direitos trabalhistas.
“Então, a minha luta não foi nem pela questão do partido. Eu gosto do partido do PT, mas não foi pelo partido, e sim pela questão da democracia”, explicou.
A estudante afirmou que não tinha histórico de envolvimento em atividades políticas e que passou a considerar necessária uma participação mais direta diante de preocupações com o futuro do país.
“Eu nunca tive interesse por política, não tive”, declarou.
Mayra também apresentou sua avaliação sobre os riscos que associa à candidatura adversária de Lula. Segundo ela, a preocupação não se limita ao resultado de uma eleição, mas envolve a possibilidade de mudanças nas garantias democráticas e nos direitos da população.
A jovem afirmou que sua origem familiar e as dificuldades enfrentadas durante os estudos influenciaram essa percepção. Ao defender a participação dos cidadãos nas decisões políticas, relacionou a educação ao exercício dos direitos e deveres.
Um dos relatos mais delicados da entrevista envolveu a segurança dos organizadores. Mayra afirmou ter recebido ameaças repetidas durante os preparativos e disse que foram utilizadas contas falsas em redes sociais para tentar prejudicar a manifestação.
Segundo ela, houve também a utilização da identidade visual da marcha em publicações destinadas a atrair grupos contrários à mobilização.
Mayra relatou ainda que uma adolescente de 14 anos, integrante de um dos grupos envolvidos, recebeu conteúdo pornográfico enviado por um homem. Segundo seu depoimento, foram obtidas informações sobre o responsável pelo envio, mas a adolescente preferiu não dar prosseguimento à denúncia, que dependeria do envolvimento de seus responsáveis.
Essas informações foram apresentadas pela estudante como relatos de situações enfrentadas durante a organização, sem documentação independente apresentada na entrevista.
Ao avaliar os resultados da caminhada, Mayra evitou afirmar que a manifestação tenha efetivamente alterado a intenção de voto dos eleitores. Disse acreditar, entretanto, que a mobilização pode ter contribuído para despertar a atenção de participantes para os direitos que considera ameaçados.
“Não temos como viver em um país sem democracia”, afirmou ao explicar sua preocupação.
A estudante também recordou o período da ditadura militar e mencionou pessoas que sofreram censura e violência durante aquele regime, relacionando essa lembrança à importância que atribui ao direito de participação política.
Para Mayra, mesmo uma contribuição pequena para o debate sobre direitos e democracia já justificaria sua participação na organização da marcha.
Enquanto Fátima Cleide comparou o tamanho da caminhada às mobilizações políticas de décadas anteriores, Luciana Oliveira insistiu no protagonismo da juventude e Ramon Cujuí reconheceu que o primeiro turno havia surpreendido parte da militância, Mayra apresentou uma perspectiva ligada à própria experiência de vida.
Questionada sobre a possibilidade de a manifestação influenciar o segundo turno, a estudante não apresentou uma previsão sobre o resultado eleitoral. Sua avaliação foi de que a mobilização havia permitido abordar questões que, segundo ela, parte dos participantes ainda não compreendia inteiramente.
Mayra afirmou acreditar que a caminhada conseguiu produzir alguma conscientização, ainda que não fosse possível medir seu efeito sobre as escolhas nas urnas.
AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)
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