Conversa no Resenha Política percorre passado recente da Secretaria, disputas por repasses, tensões com entidades e bastidores culturais e esportivos de Rondônia
Porto Velho, RO – O estúdio do Resenha Política parecia seguir o ritmo usual, com câmeras alinhadas, microfones calibrados e a cadência conhecida de Robson Oliveira, quando Paulo Higo sentou na cadeira destinada aos convidados. A entrevista, transmitida em plataformas digitais, pela TV Rema e prestes a chegar à Jovem Pan News em sua versão televisiva e radiofônica, começou por caminhos previsíveis — até que o apresentador decidiu revisitar o passado recente da Sejucel. Era impossível contornar o assunto. Júnior Lopes, antecessor do atual secretário, havia sido afastado do cargo por ordem judicial e chegara a ser preso preventivamente em um caso envolvendo prestações de contas. O nome reapareceu como uma sombra no estúdio.
Robson comentou, com a naturalidade de quem narra eventos que se tornaram públicos, que a Secretaria costuma sair “das páginas de esporte para as páginas policiais” quando surgem problemas. E, então, lançou a pergunta, direta, quase coloquial: se o atual titular estava tomando cuidado com o próprio CPF. Paulo Higo ouviu, ajeitou o corpo na cadeira e respondeu sem rodeios. Disse que tem conversado com os órgãos de controle, participado de reuniões, recebido orientações e ajustado procedimentos internos. “A gente precisa tomar cuidado, né, Robson?”, afirmou, numa frase que parecia resumir não apenas uma prudência administrativa, mas um mantra de sobrevivência burocrática.
A conversa seguiu para o cotidiano da pasta. Paulo descreveu o fluxo de repasses da Sejucel como um sistema exigente, sustentado por um volume de recursos que obriga atenção constante. Ele listou etapas, conferências, prazos e documentos, sempre retornando à necessidade de rigor interno. “É um volume de recurso muito alto que é movimentado através desses fomentos e a gente precisa se cercar desses cuidados”, disse, deixando claro que os alertas emitidos pelos órgãos de controle tiveram impacto direto sobre as rotinas da Secretaria.
Havia, porém, outro capítulo nessa engrenagem: a pressão de entidades que buscam o apoio financeiro da Sejucel mesmo sem condições legais para receber os repasses. Robson narrou o trajeto recorrente — associações que, impedidas por falhas documentais, procuram gabinetes parlamentares e, depois, tentam reverter decisões dentro da Secretaria. Paulo descreveu esse movimento com a precisão de quem acompanha o fluxo diariamente. Afirmou que algumas entidades “não falam a verdade” quando tentam intermediação política e que foi obrigado a endurecer a postura. Definiu que, sem documentação, sem prazo legal de funcionamento ou sem características mínimas, não há termo de fomento possível.
O secretário disse que, depois de adotar esse posicionamento firme, as tensões diminuíram. Comentou que conversou com o governador sobre o tema e recebeu o respaldo necessário. Explicou que o parlamento passou a compreender o método da pasta e que, com isso, a demanda irregular perdeu força. As falas vinham sempre acompanhadas de um retorno ao episódio envolvendo o ex-gestor — não como comparação, mas como aviso interno. “A gente vem de um problema, de um histórico”, afirmou. E, ao dizer isso, parecia admitir que ninguém sentado naquela cadeira ignora o peso da função.
Ao tratar da relação com parlamentares, Paulo descreveu um processo gradual: apresentar as dificuldades, destrinchar entraves, expor cada detalhe técnico. Segundo ele, é assim que as situações deixam de se transformar em conflitos desnecessários. O movimento é lento, mas segundo o secretário, tem funcionado.
A entrevista então se deslocou para o território da cultura. Robson mencionou percepções políticas que costumam diminuir a importância da área, e Paulo seguiu reconstruindo o histórico recente de apropriações simbólicas e disputas de espaço. Afirmou que a cultura foi tratada durante muito tempo como território de determinados grupos, carregada quase como propriedade. Depois, ampliou o tema, dizendo que a convivência social sempre teve componentes culturais instalados no processo de formação humana.
Seguiu para o debate mais recorrente: a crítica de que investimentos culturais competem com saúde e educação. Paulo relatou que essa percepção reaparece em ciclos e então listou impactos da participação cultural sobre indicadores de saúde. Falou em redução de índices de depressão, ansiedade e risco de doenças cardíacas, frisando que essas associações, segundo ele, são comprovadas. A fala, ainda que técnica, mantinha o tom narrativo do resto da conversa.
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
O bloco seguinte envolveu esporte e o programa ProAtleta. Paulo explicou que o Estado compra passagens para atletas — um dos elementos mais custosos — e que planeja incorporar, a partir do próximo ano, a política federal do Bolsa Atleta. Segundo ele, o governo está finalizando ajustes para captar recursos do Ministério e lançar editais voltados ao alto rendimento. Informou que, em 2025, mais de 1.800 competidores viajaram representando Rondônia e que cerca de 85% retornaram com medalhas. Mencionou modalidades diversas, viagens para outros estados e países, e disse que o programa tende a crescer para incluir apoio à alimentação.
A conversa migrou novamente, agora para o motocross. Robson lembrou momentos de projeção nacional da modalidade, e Paulo contou que etapas recentes do circuito estadual têm atraído grande público em Porto Velho, Buritis, Machadinho e Espigão. Comentou problemas passados da federação, relacionados a questões jurídicas e de prestação de contas, e avaliou que a reorganização atual ajuda a restabelecer a confiança entre atletas e público.
O duelo na fronteira — Flor do Campo, vermelho, contra Malhadinho, azul — entrou na pauta como exemplo de manifestação cultural amparada pelo Estado. Paulo descreveu o equilíbrio necessário para lidar com as duas agremiações e relatou um episódio em que, ao comparecer a uma reunião vestido de azul, provocou olhares desconfiados de torcedores do boi vermelho. Explicou que o evento deve reunir cerca de 15 mil pessoas, distribuídas em três noites de apresentação e uma de apuração, com arquibancadas provisórias para acomodar o público. Mencionou que a festa foi reconhecida como patrimônio imaterial cultural e receberá um plano de salvaguarda financiado pelos recursos da “Política Nacional de Blanc”, com impacto previsto na rede hoteleira de Guajará-Mirim e Nova Mamoré.
O secretário também tratou das intervenções estruturais realizadas pela Secretaria de Obras, em parceria com o município, incluindo pavimentação e ajustes em uma área citada pelo apresentador como “bombom”. Disse que novas arquibancadas serão instaladas para o evento deste ano.
Em Porto Velho, comentou mudanças no Flor do Maracujá e no Parque dos Tanques, como a divisão de ambientes, aplicação de rejeito de asfalto para reduzir poeira e planejamento para recapeamento do complexo. Relatou conversas com quadrilhas e bois-bumbás sobre circulação de alegorias, com intenção de captar recursos para construir um palco fixo. Citou ainda que planos de salvaguarda semelhantes ao do duelo na fronteira estão previstos para o Flor do Maracujá e para a Banda do Vai Quem Quer, com diretrizes para dez anos.
Nos momentos finais, a entrevista se deslocou para reflexões sobre juventude, cultura e saúde mental após a pandemia. Paulo mencionou que tendências de doenças emocionais já estavam presentes antes do período, mas teriam se intensificado. Comentou mudanças na geração Z, que, segundo ele, se comunica cada vez mais pelas telas, com redução de expressões faciais e corporais. A observação surgiu quase como comentário lateral, mas preservou o tom analítico do restante da conversa.
O apresentador então mencionou rondonienses que ganharam visibilidade nacional, incluindo o participante do reality gastronômico identificado como Diogo Sabrião, que abriu um restaurante descrito como “lotado”. O secretário citou o caso como demonstração de que a projeção pública contribui para autoestima local e reforça a relevância do fomento cultural.
A entrevista se encerrou com Robson desejando que Paulo Higo continue cuidando da juventude, do esporte, da cultura, do lazer — e “do teu CPF”. O secretário agradeceu, classificou o Resenha Política como um programa “de gente grande” e “super bem acompanhado pela população”, e disse que seguirá dialogando com atletas, federações, agremiações, órgãos de controle e parlamento. A edição foi gravada nos estúdios do programa e transmitida pelas plataformas e canais previstos.




