Como os números divulgados durante as campanhas deixam de apenas medir a opinião pública e passam a influenciar, distorcer e redirecionar o comportamento do eleitor nas democracias contemporâneas, segundo a ciência política
Toda vez que uma nova pesquisa eleitoral é divulgada, milhões de eleitores se debruçam sobre os números, analisando quem está na frente, quem está subindo ou caindo. Mas será que esses números apenas refletem nossa opinião coletiva, ou também a moldam? A ciência tem uma resposta surpreendente: as pesquisas não são apenas termômetros da intenção de voto, mas também instrumentos que alteram o comportamento eleitoral.
Um estudo publicado no International Journal of Public Opinion Research em 2021, conduzido por Mike Farjam, demonstrou experimentalmente que opções populares se tornam ainda mais populares quando as pessoas são expostas a resultados de pesquisas. É o chamado “efeito bandwagon” – a tendência de “pular no vagão” do vencedor. Em seu experimento com organizações políticas reais, Farjam confirmou que a divulgação de resultados de pesquisas não é neutra: ela influencia ativamente as escolhas dos eleitores.
Mas por que isso acontece? Pesquisadores europeus liderados por Joris Lammers publicaram em 2022, no Journal of Social and Political Psychology, uma descoberta fascinante: quando eleitores aderem ao candidato que está vencendo nas pesquisas, não estão necessariamente fazendo uma análise racional. Trata-se de um processamento heurístico – uma espécie de atalho mental que nos leva a seguir a maioria quase automaticamente. Por outro lado, quando alguns eleitores fazem o contrário e apoiam o candidato que está perdendo (o “efeito underdog”), isso reflete preocupações mais profundas com justiça e equilíbrio.
A evidência mais dramática vem da Índia. Em 2009, as autoridades eleitorais indianas proibiram a divulgação de pesquisas de boca de urna antes do fim de todas as rodadas de votação. Somdeep Chatterjee e Jai Kamal analisaram esse “experimento natural” e publicaram seus resultados na revista Public Choice em 2020. A conclusão? Quando as pesquisas deixaram de ser publicadas, os candidatos que estavam na liderança receberam menos votos. Isso significa que, quando as pesquisas circulam livremente, elas de fato impulsionam os líderes – provando que o efeito bandwagon não é apenas teoria, mas realidade mensurável.
Essa dinâmica se torna ainda mais complexa em sistemas com múltiplos partidos. Ian McAllister e Donley Studlar analisaram três eleições britânicas entre 1979 e 1987, publicando seus achados no Journal of Politics em 1991. Eles descobriram que as pesquisas facilitam o voto tático: eleitores que decidem seu voto durante a campanha são particularmente influenciados pelos números, muitas vezes abandonando seu candidato preferido para apoiar aquele com mais chances de derrotar sua opção menos desejada.
O renomado cientista político John Aldrich e seus colegas André Blais e Laura Stephenson dedicaram um livro inteiro ao tema em 2018: The Many Faces of Strategic Voting. Analisando eleições em oito países diferentes, eles demonstraram que eleitores ao redor do mundo usam informações de pesquisas como “dispositivos de coordenação” – ferramentas para tomar decisões estratégicas sobre onde colocar seu voto de forma mais efetiva.
O que tudo isso significa para nós, eleitores? Primeiro, que devemos consumir pesquisas eleitorais com consciência crítica. Os números que vemos não são apenas fotografias estáticas da opinião pública – são forças ativas que podem alterar o próprio fenômeno que pretendem medir. Segundo, que nossa liberdade de voto é mais complexa do que parece. Mesmo quando achamos que estamos fazendo uma escolha racional, podemos estar sendo guiados por atalhos mentais acionados pela simples exposição aos resultados de pesquisas.
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
Isso não significa que devemos proibir ou ignorar as pesquisas. Elas são ferramentas legítimas e úteis para compreender tendências políticas. Mas precisamos reconhecer seu duplo papel: ao mesmo tempo que informam, também transformam. Como eleitores em uma democracia, nosso desafio é usar essas informações de forma consciente, perguntando-nos sempre: estou votando em quem realmente prefiro, ou estou sendo levado pela corrente dos números?
A resposta a essa pergunta pode fazer toda a diferença no destino de uma eleição.
Referências:
ALDRICH, John H.; BLAIS, André; STEPHENSON, Laura B. The Many Faces of Strategic Voting: Tactical Behavior in Electoral Systems Around the World. Ann Arbor: University of Michigan Press, 2018.
CHATTERJEE, Somdeep; KAMAL, Jai. Voting for the underdog or jumping on the bandwagon? Evidence from India’s exit poll ban. Public Choice, v. 188, p. 431-453, 2020.
FARJAM, Mike. Bandwagon Effect in an Online Voting Experiment With Real Political Organizations. International Journal of Public Opinion Research, v. 33, n. 2, p. 412-421, 2021.
LAMMERS, Joris et al. Disentangling the factors behind shifting voting intentions: The bandwagon effect reflects heuristic processing, while the underdog effect reflects fairness concerns. Journal of Social and Political Psychology, v. 10, n. 2, p. 676-692, 2022.
MCALLISTER, Ian; STUDLAR, Donley T. Bandwagon, Underdog, or Projection? Opinion Polls and Electoral Choice in Britain, 1979-1987. The Journal of Politics, v. 53, n. 3, p. 720-741, 1991.









