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VIOLÊNCIA SEM FIM
Violência vicária volta ao centro do debate após tragédia em Itumbiara e expõe padrão de agressões contra mulheres por meio dos filhos

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Caso em Goiás mobiliza autoridades, especialistas e entidades, que apontam recorrência desse tipo de crime e reforçam que a responsabilidade é exclusivamente do agressor

Por Vinicius Canova - domingo, 15/02/2026 - 12h11

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Porto Velho, RO – A morte de duas crianças em Itumbiara, no sul de Goiás, reacendeu o debate nacional sobre a violência vicária, modalidade em que o agressor atinge pessoas próximas à mulher para provocar sofrimento psicológico ou punição. O episódio ocorreu quando o então secretário de Governo do município, Thales Machado, atirou contra os próprios filhos e, em seguida, tirou a própria vida. Um dos meninos, de 12 anos, morreu antes do socorro, enquanto o irmão, de 8, chegou a ser hospitalizado em estado gravíssimo, mas não resistiu horas depois.

O conceito foi detalhado pela secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, Estela Bezerra, que explicou tratar-se de situações em que a dor é direcionada a quem mantém vínculo afetivo com a vítima, sobretudo filhos, mas também familiares e até animais de estimação. Segundo ela, na maioria das ocorrências, crianças e adolescentes são utilizados como meio de atingir a mãe. Ao comentar o caso de Itumbiara, afirmou que o pai “matou os dois filhos para atingir a mãe”, classificando a perda como a maior penalidade emocional possível.

Antes do crime, o agressor publicou nas redes sociais uma carta mencionando crise conjugal e suposta traição. De acordo com Estela, é comum que autores construam narrativas para se colocar como vítimas e responsabilizar a mulher. Ela destacou que há manipulação nesses discursos e reforçou: “Quem mata escolheu matar. Não é responsabilidade da mulher”. Para a secretária, a culpabilização social da vítima é agravada por fatores culturais e pela persistência de desigualdades de gênero.

A avaliação de que esse tipo de violência é recorrente, embora pouco discutido, também foi reforçada por especialistas. Estela afirmou que a prática ocorre de forma sistemática, variando de situações sutis a episódios extremos, e citou outro caso recente envolvendo agressões a criança e ex-companheira por um servidor público federal.

Organizações da sociedade civil também se manifestaram. O Instituto Maria da Penha classificou a violência vicária como forma de violência de gênero que atinge mulheres por meio de crianças e adolescentes, frequentemente utilizada como mecanismo de controle, punição ou chantagem. A entidade destacou que não se trata de conflito familiar, mas de grave violação de direitos humanos, historicamente naturalizada e invisibilizada. Segundo a ONG, o reconhecimento oficial dessa modalidade pelo país, por meio de resolução conjunta de conselhos nacionais, estabelece diretrizes para prevenção, proteção e atuação integrada do sistema de garantia de direitos.

A Defensoria Pública do Estado de Goiás, em nota, reforçou que ferir filhos para atingir a mãe configura violência vicária e que a responsabilidade é sempre de quem pratica o crime. O órgão lembrou campanha institucional voltada ao enfrentamento da culpabilização feminina e reiterou que a exposição de vítimas pode, inclusive, caracterizar crime.

AUTOR: VINICIUS CANOVA (DRT 1066/RO) – LinkedIn





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