Colunista relata presença crescente de agentes públicos em eventos religiosos e questiona o uso da fé em contexto pré-eleitoral em Rondônia
Assisti ao que deveria ser apenas um momento de profunda espiritualidade no último sábado, no Centro de Convenções da Assembleia de Deus, em Porto Velho. A consagração de diáconos, presbíteros, evangelistas e pastores, organizada pela CEMADERON e ligada à CGADB, tinha todos os elementos de um ato solene, daqueles que marcam a caminhada de fé de uma comunidade. Mas, inevitavelmente, o ambiente acabou atravessado por algo que, infelizmente, já se tornou previsível em anos pré-eleitorais: a presença estratégica de políticos que reaparecem nos templos com a mesma regularidade com que a Copa do Mundo surge no calendário.
Não digo isso por acaso. Chamo esse fenômeno de “políticos Copa do Mundo”. São figuras que, a cada quatro anos, surgem nas igrejas, cumprimentam lideranças, posam para fotos e, depois do pleito, desaparecem do convívio com a comunidade. Não questiono o direito de ninguém frequentar um culto — a casa de Deus deve permanecer aberta a todos. Mas é impossível ignorar o contexto e as motivações quando a fé passa a dividir espaço com gestos claramente calculados.
Entre os presentes estavam nomes conhecidos da política rondoniense, como Fernando Máximo, Marcos Rogério, Léo Moraes e Ezequiel Neiva. Reitero: não há problema em estarem ali como cidadãos. O ponto central não é a presença em si, mas a intenção que a acompanha. Quando o templo deixa de ser apenas lugar de culto e passa a funcionar como vitrine, algo precisa ser dito.
A discussão sobre fé e política não é nova. Desde os tempos bíblicos, a relação entre poder e o povo de Deus sempre foi permeada por tensões. Ao longo da história, vimos momentos em que essa mistura trouxe confusão, feridas e descrédito, especialmente quando o púlpito foi transformado em extensão do palanque. Para mim, isso é um limite claro: a casa de Deus não pode virar palco de politicagem. O templo é espaço de arrependimento, adoração e transformação. Política se faz no debate público, na construção de políticas e no diálogo com a sociedade, não instrumentalizando a fé.
Falo com a autoridade de quem nasceu e foi criado na Assembleia de Deus, onde fui batizado nas águas. Embora não congregue há quase dez anos, mantenho profundo respeito pela instituição e por sua história em Rondônia. Justamente por isso me preocupa ver a fé sendo espetacularizada em períodos eleitorais. Há quem compareça aos cultos apenas para ser visto, porque, na lógica eleitoral, visibilidade significa lembrança nas urnas. O objetivo é evidente: manter-se no poder.
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O que me inquieta não é a divergência política, mas a incoerência. Não se pode usar o altar como estratégia de marketing enquanto, fora dele, a prática pública não reflete os valores que se pretende representar diante da comunidade de fé. Essa dissonância é percebida, e cada vez mais.
Ainda assim, reconheço algo que me dá esperança: existe um povo de Deus consciente. Uma parcela significativa da comunidade evangélica discerne, observa e não se deixa levar por gestos pontuais ou aparições oportunistas. A fé, quando genuína, não é manipulável.
O episódio do último sábado reacende um debate necessário em Rondônia: qual é o limite entre a manifestação legítima de fé por parte de agentes públicos e o uso estratégico de espaços religiosos para fins eleitorais? Essa é uma pergunta que não diz respeito apenas à política, mas à integridade das instituições e ao respeito à espiritualidade de milhares de pessoas.
À medida que o calendário eleitoral avança, é natural que a presença de políticos em templos e eventos religiosos se torne mais frequente. O que não pode se tornar natural é a banalização da fé como ferramenta de campanha.
Sigo acreditando que a igreja deve permanecer como lugar de encontro com Deus, não como cenário de conveniência. E, diante de tudo isso, só me resta repetir uma oração sincera: que Deus tenha misericórdia do seu povo.

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