Coletiva da Polícia Civil apresenta novos detalhes do inquérito sobre a morte de Marta Isabelle dos Santos; pai, madrasta e avó foram presos e são investigados por tortura, feminicídio e outros crimes
Porto Velho, RO – Novos detalhes sobre a morte da adolescente Marta Isabelle dos Santos, de 16 anos, foram divulgados pela Polícia Civil durante coletiva de imprensa realizada pela delegada Leisaloma Carvalho, diretora da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa. A jovem foi encontrada morta no dia 24 de fevereiro dentro da residência da família, localizada na rua Afonso Brasil, no setor chacareiro do bairro Jardim Santana, em Porto Velho.
Segundo a delegada, as diligências confirmaram as informações iniciais levantadas pela investigação. De acordo com o inquérito, a morte da adolescente ocorreu após um período prolongado de agressões físicas, castigos e sofrimento psicológico dentro da própria casa. “Quero deixar claro que a causa da morte dela não foi um ato isolado, mas uma sucessão de fatos, como tortura, castigo e sofrimento físico e psicológico dentro da própria casa, que deveria ser um local de proteção e cuidado, nas mãos de quem tinha o dever legal de protegê-la”, declarou a autoridade policial.
As investigações apontam que Marta Isabelle deixou a Paraíba ainda criança para morar com o pai, José da Silva, e a madrasta, Farias de Souza. Conforme os relatos reunidos pela polícia, episódios de violência já ocorriam desde então, porém as agressões teriam se intensificado nos dois meses que antecederam a morte.
De acordo com o inquérito, a adolescente foi afastada do convívio com vizinhos e amigos. A medida teria sido utilizada para impedir que ela buscasse ajuda. As apurações indicam ainda que a jovem recebia restos de comida como alimentação e permanecia amarrada ao colchão durante a noite com fios elétricos, presos para evitar que deixasse o local.
Durante os exames periciais realizados na residência, foram identificadas lesões graves em várias partes do corpo da vítima. A perícia constatou quadro severo de desnutrição, múltiplos ferimentos e ossos expostos, incluindo o rádio do braço esquerdo e parte da clavícula. Também foram registradas feridas com presença de larvas, lesões nas costas compatíveis com permanência prolongada deitada e um dente frontal quebrado.
Os peritos informaram que o estado físico da adolescente indicava que ela dificilmente teria chegado caminhando até a casa, como foi relatado inicialmente. Segundo os especialistas, o quadro de lesões sugeria dores intensas e sofrimento prolongado.
No exterior da residência, policiais localizaram uma fogueira contendo roupas e grande quantidade de fraldas descartáveis parcialmente queimadas. O material foi apagado pelos agentes e passou a ser analisado, pois levantou suspeita de tentativa de destruição de vestígios. A quantidade de fraldas também indicaria que a adolescente poderia estar no local há mais tempo do que o informado inicialmente.
A Polícia Militar foi acionada por volta das 19h após denúncia encaminhada pelo Centro Integrado de Operações Policiais (CIOP). A informação repassada indicava que a adolescente, considerada desaparecida há cerca de três meses, teria retornado à residência na manhã daquele dia com diversos ferimentos e apresentado agravamento do estado de saúde no final da tarde.
Ao chegar ao local, a guarnição foi recebida pela madrasta da vítima, identificada pelas iniciais I.F.S.F., que conduziu os policiais até o quarto onde a adolescente estava. A jovem foi encontrada deitada sobre uma cama, coberta por um lençol e já sem sinais vitais. A área foi isolada para preservação da cena até a chegada das equipes do SAMU, da Polícia Civil, do Departamento de Homicídios e do Instituto Médico Legal.
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
Durante os depoimentos iniciais, a madrasta apresentou versões divergentes sobre o período de desaparecimento da adolescente e sobre a tentativa de acionar atendimento médico. Ela afirmou que a jovem retornou extremamente debilitada, mas admitiu que não buscou socorro imediato, limitando-se a prestar cuidados em casa.
A avó paterna, identificada pelas iniciais B.M.S., também confirmou que encontrou a neta em estado crítico, mas não acionou serviços de emergência ou autoridades policiais.
O pai da adolescente, identificado pelas iniciais C.J.S., foi localizado posteriormente na residência da própria mãe. Após ser detido, afirmou que a filha não estava desaparecida. Segundo o relato apresentado à polícia, após fugir de casa, a jovem teria sido levada de volta e mantida em cárcere privado por mais de dois meses.
Conforme o depoimento, durante a noite os braços da adolescente eram amarrados à cama com fios elétricos. Durante o dia, ela permanecia trancada dentro da residência. O homem não conseguiu explicar a origem das múltiplas lesões identificadas no corpo da filha.
A Polícia Civil também investiga a suspeita de abuso sexual praticado pelo pai contra a adolescente. Testemunhas ouvidas durante a investigação relataram histórico de maus-tratos na residência.
As apurações revelaram ainda que o relacionamento entre o pai da vítima e a mãe da adolescente era marcado por conflitos e episódios de agressão física. Após a separação, Marta Isabelle permaneceu na Paraíba até os 10 anos de idade, quando passou a morar com o pai.
De acordo com a delegada responsável pelo caso, havia registros anteriores de violência. Uma ocorrência chegou a ser formalizada por outra filha do investigado, e uma audiência judicial relacionada ao caso estava marcada para março deste ano. Segundo a autoridade policial, as providências foram adotadas dentro dos procedimentos legais disponíveis à época.
Diante dos elementos reunidos até o momento, pai, madrasta e avó paterna foram presos e encaminhados à Central de Flagrantes. O pai e a madrasta já foram indiciados por tortura e feminicídio. Os investigados também poderão responder por cárcere privado, maus-tratos e omissão de socorro no contexto de violência doméstica.
Com informações de: Polícia Militar de Rondônia
