Medicamento é aplicado a cada dois meses e será submetido à avaliação da Conitec; negociação de preço com a fabricante está em andamento
Porto Velho, RO – A maior facilidade para manter a prevenção contra o HIV é apontada como uma das principais vantagens do cabotegravir injetável, medicamento que pode ser incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) até o fim de 2026. Diferentemente da profilaxia pré-exposição oral, que exige o uso diário de comprimidos, a nova opção é administrada a cada dois meses.
Em uma pesquisa conduzida pela Fundação Oswaldo Cruz com 1,4 mil participantes de seis cidades brasileiras, 83% disseram preferir a aplicação injetável. O acompanhamento também mostrou que 94% compareceram aos serviços de saúde dentro do prazo previsto para receber as doses. Nenhuma infecção pelo HIV foi registrada entre os participantes durante o estudo.
Dados de vida real divulgados pelas farmacêuticas ViiV Healthcare e GSK, responsáveis pelo desenvolvimento do medicamento, também indicaram elevada eficácia. A taxa anual de infecção observada foi de 0,1%.
O cabotegravir atua de forma prolongada, impedindo a replicação do vírus. A intenção do Ministério da Saúde é encaminhar, na próxima semana, o pedido de incorporação à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).
Antes da adoção de uma nova tecnologia pela rede pública, são avaliados fatores como eficácia, impacto financeiro e relação entre custo e benefício. A Conitec poderá recomendar ou rejeitar a proposta, mas a definição final será tomada pelo Ministério da Saúde.
As condições comerciais para a compra do cabotegravir ainda estão sendo negociadas com a GSK. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o número de doses e o valor definitivo não foram fechados. A empresa, entretanto, teria apresentado uma oferta considerada adequada pelo governo.
Durante entrevista coletiva realizada antes da abertura da 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro, Padilha afirmou que novas tecnologias de proteção prolongada são vistas com expectativa pelo governo. Ele ressaltou, porém, que os medicamentos precisam ser disponibilizados aos sistemas públicos por valores compatíveis.
“Exigimos que elas sejam oferecidas, sobretudo aos sistemas nacionais de saúde, com os preços adequados, não preços estratosféricos”, declarou.
O custo também influenciou a escolha do cabotegravir em vez do lenacapavir, outra opção de prevenção injetável. Esse segundo medicamento oferece proteção por até seis meses, mas, conforme Padilha, foi apresentado ao Brasil por um preço considerado inviável.
O ministro afirmou que o governo brasileiro se dispôs a pagar até dez vezes o valor oferecido a países com características semelhantes, como Indonésia e Tailândia. Mesmo assim, não teria sido possível alcançar um acordo com a fabricante.
“Não vamos drenar o recurso dos impostos dos cidadãos brasileiros pelo interesse de lucro de uma empresa”, disse Padilha.
Apesar de ter participado dos testes do lenacapavir, o Brasil não foi incluído no acordo de licenciamento voluntário firmado pela farmacêutica Gilead. O entendimento autorizou seis empresas a produzirem versões genéricas do medicamento destinadas a 120 países.
A exclusão brasileira foi criticada por representantes presentes na Conferência Internacional de Aids, entre eles integrantes do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids). O lenacapavir é considerado uma tecnologia relevante para as estratégias de enfrentamento da epidemia, e entidades da área defendem a ampliação de seu acesso mundial.
Em nota, a Gilead informou que reconhece a urgência de ampliar a disponibilidade do medicamento na América Latina e no Caribe. Nos países que não integram o território abrangido pelo licenciamento voluntário, como o Brasil, a empresa declarou que procura alternativas sustentáveis de longo prazo, considerando as condições locais de mercado e as prioridades da saúde pública.
A farmacêutica acrescentou que o Brasil está entre os países considerados prioritários para possíveis parcerias de fabricação. Um memorando de entendimento foi assinado com a Fundação Oswaldo Cruz para avaliar oportunidades de transferência de tecnologia capazes de ampliar o acesso ao lenacapavir no país e em outras regiões.
Atualmente, a PreP já é disponibilizada gratuitamente pelo SUS em sua versão oral. Os comprimidos devem ser usados diariamente para garantir a proteção. Mais de 350 mil pessoas já tiveram acesso ao tratamento preventivo, cuja eficácia também é comprovada.
Com informações de: Agência Brasil
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