Informa Rondônia
ANTAGONISTA RO

Democracia anacrônica? Uma democracia que não chega à mesa do trabalhador

Democracia anacrônica? Uma democracia que não chega à mesa do trabalhador
Pronto
0%Atalhos: Espaço (play/pausa), S (parar), ←/→ (volta/avança)
🛠️ Acessibilidade:

Coluna questiona os limites de uma democracia restrita ao voto, discute desigualdade, concentração de poder e mobilidade social e defende que a riqueza produzida em Rondônia se traduza em qualidade de vida

Por Samuel Costa - quarta-feira, 07/10/2026 - 15h37

Informa Rondônia Compartilhe esta reportagem
0 ações
Link copiado.

Por Samuel Costa

Depois de anos acompanhando a política de Rondônia, participando do debate público e observando de perto a distância entre o discurso político e a vida cotidiana, uma pergunta se tornou inevitável: de que vale uma democracia que garante o direito de votar, mas ainda não consegue assegurar a milhões de pessoas condições dignas de existência?

Não faço essa pergunta de fora da política. Faço a partir dela, conhecendo seus mecanismos, suas disputas e suas contradições. É possível votar livremente e continuar sem poder alterar as condições fundamentais da própria vida. É possível trocar governos sem modificar estruturas. E é possível garantir igualdade perante a lei enquanto patrimônio, renda, influência e acesso ao poder permanecem concentrados.

Esse é o paradoxo que me leva a questionar se a democracia, tal como a praticamos, não corre o risco de se tornar anacrônica. Não porque devamos abandoná-la, mas porque precisamos exigir que ela entregue mais do que eleições periódicas.

A ilusão da ascensão

Uma das narrativas mais persistentes do liberalismo selvagem é a ideia de que todos podem chegar ao topo se trabalharem suficientemente. A realidade, entretanto, é que as pessoas não partem das mesmas condições.

Um trabalhador pode estudar, empreender, aumentar sua renda e conquistar uma vida melhor, mas isso não significa que tenha ingressado na elite econômica. Renda não se confunde com patrimônio, assim como salário não se transforma automaticamente em capital.

Quem depende do próprio trabalho para manter seu padrão de vida continua sujeito às condições do mercado, mesmo quando recebe uma remuneração acima da média. A elite econômica, por outro lado, dispõe de patrimônio, empresas, investimentos, herança, influência e acesso permanente aos centros de decisão.

Por isso, em determinadas circunstâncias, parece mais provável que um trabalhador comum seja atingido por um meteoro ou meteorito do que consiga, partindo das mesmas condições materiais, superar todas as barreiras que o separam do verdadeiro andar de cima da sociedade. O problema não é a existência de exceções, mas a tentativa de apresentá-las como prova de que as oportunidades estão igualmente distribuídas.

A luta de classes não desapareceu

Minha experiência no debate político também reforçou uma percepção: a luta de classes não acabou; apenas mudou de linguagem.

Ela pode ser percebida na distância entre quem possui patrimônio e quem possui apenas sua força de trabalho, entre quem pode suportar períodos de crise e quem depende do salário do mês, ou ainda entre quem participa da formulação das regras e quem apenas precisa se adaptar a elas.

Isso não significa demonizar empresários, produtores ou pessoas que enriqueceram por meio do trabalho e da iniciativa privada. O problema surge quando a concentração econômica se converte em concentração de poder e esse poder passa a atuar para preservar os próprios privilégios.

Nesse ambiente, trabalhadores podem ser levados a enxergar outros trabalhadores como seus principais adversários, enquanto questões estruturais permanecem fora do debate.

Rondônia é o nosso laboratório

Essa discussão ganha uma dimensão concreta quando olhamos para Rondônia.

O estado possui um PIB na ordem de R$ 80 bilhões, mas ainda convive com deficiências importantes em saúde, educação, saneamento, infraestrutura e outros serviços essenciais. Para quem acompanha a realidade rondoniense, o contraste é difícil de ignorar.

A pergunta não pode ser apenas quanto Rondônia produz, mas quanto dessa riqueza se transforma efetivamente em qualidade de vida para quem vive e trabalha aqui.

Uma economia pode crescer sem que a maioria consiga acumular patrimônio. A arrecadação pode aumentar sem que desapareçam as carências básicas. Grandes investimentos podem chegar sem produzir, na mesma proporção, mobilidade social.

Por isso, crescimento econômico e desenvolvimento não são sinônimos. O primeiro mede a expansão da riqueza; o segundo precisa ser percebido na vida das pessoas.

O voto não basta

Todos temos um voto, mas não possuímos o mesmo poder social. O cidadão comum participa das eleições em intervalos determinados, enquanto grupos com grande patrimônio dispõem de recursos, especialistas, relações institucionais e capacidade de acompanhar permanentemente os processos de decisão.

A desigualdade econômica, portanto, também produz desigualdade política.

É por isso que democracia não pode ser reduzida ao momento da eleição. Ela também depende da existência de escola de qualidade, atendimento de saúde, saneamento, segurança, trabalho digno e condições para que uma família construa algum patrimônio e ofereça aos filhos oportunidades melhores.

Sem essas condições, a liberdade política permanece formalmente garantida, mas materialmente limitada.

O que Rondônia precisa discutir

Rondônia precisa ir além da celebração isolada dos indicadores econômicos. O debate público deveria perguntar quem se beneficia do crescimento, quanto da riqueza produzida retorna à sociedade e por que um estado com dezenas de bilhões de reais em atividade econômica ainda convive com carências básicas.

Também precisamos discutir mobilidade social de maneira menos ingênua. Não basta dizer ao trabalhador que ele pode ascender se trabalhar mais. É necessário oferecer educação, serviços públicos eficientes, crédito, oportunidades e condições para que ele possa acumular patrimônio.

Depois de acompanhar a política e a realidade social de Rondônia, chego a uma conclusão: a democracia não precisa ser destruída; precisa ser ampliada para além da urna.

Ela precisa alcançar quem trabalha, mas não consegue acumular; quem produz, mas continua sem acesso ao básico; e quem vota, mas sente que as decisões fundamentais são tomadas muito longe de sua realidade.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas quem vai governar.

É outra, mais incômoda:

quem realmente participa das decisões sobre a riqueza que todos ajudam a produzir?

E, no fim, talvez seja essa a pergunta que a democracia brasileira e a democracia rondoniense ainda não conseguiram responder:

para quem, afinal, ela está funcionando?

Samuel Costa é rondoniense, advogado, professor, jornalista e cientista político. Escreve periodicamente para diversos sites e jornais eletrônicos.

Com informações de: Samuel Costa

Rodapé da coluna

[Saiba como o Informa Rondônia seleciona seus colunistas e especialistas convidados]

AUTOR: SAMUEL COSTA





COMENTÁRIOS: