Primeiro confronto televisivo do segundo turno teve divergências sobre SUS, criminalidade, relações com os Estados Unidos e quebra de sigilos; suspeita de bomba mobilizou a polícia após o programa.
Porto Velho, RO – Uma suspeita de explosivo em um veículo estacionado nas dependências da TV Bandeirantes mobilizou o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar de São Paulo na noite de domingo (18). O automóvel estaria ligado à equipe do candidato Flávio Bolsonaro (PL), que havia participado de um debate presidencial com Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante a inspeção, jornalistas e convidados foram impedidos de deixar a emissora. Nenhum artefato foi localizado, e a circulação acabou liberada.
O episódio ocorreu após o primeiro confronto televisivo entre os dois candidatos no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Ao longo do programa, foram discutidas propostas para a segurança pública, mudanças na jornada de trabalho, atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), relações internacionais e medidas de combate à corrupção. As discussões também envolveram acusações pessoais e intervenções dos mediadores Adriana Araújo e Eduardo Oinegue.
Entre os temas trabalhistas, o fim da escala 6×1, recentemente aprovado pelo Congresso Nacional, provocou divergências. Flávio Bolsonaro afirmou ter apoiado a mudança após ouvir trabalhadores e reconsiderar sua posição anterior. O senador declarou que está disposto a modificar opiniões quando entende que isso pode beneficiar a população.
Lula respondeu questionando a experiência do adversário com o cotidiano dos trabalhadores e com os serviços públicos. Durante a discussão, o presidente afirmou que Flávio não conhece diretamente a realidade de quem depende do transporte coletivo e exerce atividades profissionais diariamente.
Na área da segurança pública, as diferenças apareceram nas estratégias apresentadas pelos candidatos. Flávio Bolsonaro defendeu a classificação de organizações criminosas como narcoterroristas e anunciou a intenção de criar 500 mil vagas no sistema penitenciário, caso seja eleito. Também propôs ampliar o uso de câmeras com reconhecimento facial pelo país e endurecer as punições.
O presidente, por sua vez, reiterou o compromisso de instituir um Ministério da Segurança Pública. Segundo Lula, a nova estrutura permitiria estabelecer atribuições entre municípios, estados e União, além de ampliar a participação federal no enfrentamento à criminalidade.
O atual chefe do Executivo também mencionou o programa Celular Seguro, desenvolvido para facilitar o bloqueio de aparelhos roubados ou furtados, ao responder às propostas apresentadas pelo senador.
Outro ponto de confronto envolveu as saídas temporárias de presos. Flávio citou os assassinatos de Renata Teles, ocorrido em dezembro de 2023, e de um sargento da Polícia Militar de Minas Gerais para criticar a concessão do benefício. O candidato questionou se Lula defendia a continuidade das chamadas saidinhas.
Em resposta, o presidente afirmou ser favorável à manutenção da medida para detentos com bom comportamento e em processo de reintegração social. Entretanto, defendeu que condenados por estupro, violência contra mulheres e outros crimes graves não tenham acesso ao benefício.
A discussão foi acompanhada de acusações sobre a possibilidade de concessão de indulto ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado e organização criminosa. Lula questionou a posição de Flávio em relação a uma eventual medida destinada ao pai e seus possíveis efeitos sobre outros condenados.
Na saúde, Flávio Bolsonaro apresentou o nome do médico Cláudio Lottenberg, presidente do Hospital Albert Einstein, como possível ministro caso vença as eleições. O candidato afirmou que pretende estabelecer um “padrão Einstein no SUS”, utilizando a instituição privada como referência para a qualidade do atendimento público.
Lula reagiu questionando se a proposta representaria uma intenção de privatizar o sistema de saúde. O presidente também criticou a condução da pandemia de covid-19 durante o governo Jair Bolsonaro, mencionando as mais de 716 mil mortes registradas no país e os atrasos na aquisição de vacinas.
Na avaliação apresentada pelo petista, parte das mortes poderia ter sido evitada caso as recomendações científicas tivessem recebido maior atenção. Flávio contestou as críticas e argumentou que a pandemia representou uma situação inédita para os governantes, defendendo que seu pai procurou enfrentar a emergência sanitária da melhor maneira possível.
O confronto sobre o assunto exigiu a intervenção da mediadora Adriana Araújo depois que Flávio interrompeu Lula fora de seu tempo regulamentar de fala.
As acusações envolvendo supostas irregularidades financeiras também ocuparam parte do debate. No terceiro bloco, Lula propôs que ambos os candidatos autorizassem a abertura de seus sigilos bancários e telefônicos, incluindo informações de familiares, para permitir a investigação de eventuais irregularidades antes da votação.
“Eu desafio você. Amanhã abrimos a nossa conta bancária, abrimos o nosso sigilo telefônico para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão desse país”, declarou o presidente.
Flávio respondeu que não teria informações a esconder, mas não confirmou expressamente a aceitação da proposta nas condições apresentadas. Na sequência, acusou Lula, sem apresentar provas, de manter recursos financeiros fora de suas contas bancárias.
As acusações pessoais já haviam aparecido no primeiro bloco. Lula questionou o senador sobre R$ 134 milhões que, segundo sua declaração, teriam sido recebidos do banqueiro Daniel Vorcaro. Também levantou perguntas sobre a atuação na defesa de um acusado de matar uma criança, possíveis vínculos com os assassinos da vereadora Marielle Franco e posicionamentos adotados por Flávio durante sua passagem pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Entre os temas mencionados pelo presidente estavam a oposição à identificação numérica de cápsulas de munição e o voto contrário à ampliação da licença-maternidade.
Flávio não respondeu diretamente àquelas perguntas e direcionou questionamentos ao filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, investigado por suspeita de participação em um esquema de tráfico de influência. O candidato do PL também atribuiu ao governo federal responsabilidade pelas irregularidades envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O esquema investigado teve origem em período anterior ao atual mandato de Lula e envolveu descontos realizados durante diferentes administrações. No governo atual, foram adotadas medidas de investigação e ressarcimento dos aposentados prejudicados.
Na política externa, a relação do Brasil com os Estados Unidos foi outro assunto discutido. Lula manifestou preocupação com a possibilidade de interesses estrangeiros influenciarem a exploração de minerais críticos brasileiros, utilizados na fabricação de baterias e equipamentos tecnológicos.
O presidente também acusou integrantes da família Bolsonaro de alinhamento aos interesses norte-americanos. Flávio, por outro lado, defendeu a cooperação entre países no combate ao crime organizado e negou participação em iniciativas destinadas a impor tarifas comerciais contra empresas brasileiras.
A discussão ocorreu em meio às posições defendidas por Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato do PL, que está nos Estados Unidos e se manifestou favoravelmente à aplicação de tarifas sobre exportações brasileiras.
O encontro terminou sem consenso entre os presidenciáveis sobre as principais propostas discutidas. Lula defendeu maior coordenação federal na segurança pública, a manutenção de políticas sociais e a preservação dos serviços públicos. Flávio apresentou medidas de endurecimento penal, expansão do sistema penitenciário e mudanças na administração da saúde.
Os dois candidatos disputam o segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo, 25 de outubro de 2026.
Com informações de: Agência Brasil
AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)
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