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EDITORIAL
Chrisóstomo é exposto pelo Metrópoles após gabinete pagar mais de R$ 2 milhões a familiares — e conquista a fama que sempre quis

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Deputado que empunha bandeiras de “Deus, pátria e família” mergulha em contradição ao empregar companheira, cunhada e concunhados com salários milionários na Câmara

Por Informa Rondônia - sábado, 08/11/2025 - 09h37

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O caso revelado pelo Metrópoles, assinado por Tácio Lorran, é mais do que uma denúncia pontual de suposto nepotismo: é um retrato de uma hipocrisia política cada vez mais comum em Brasília — a de parlamentares que, em nome da moral e dos “valores cristãos”, constroem discursos inflamados enquanto multiplicam privilégios e cargos para os seus.

O deputado Coronel Chrisóstomo (PL-RO), aliado fiel de Jair Bolsonaro e autodeclarado defensor dos princípios “de Deus, da pátria e da família”, foi flagrado transformando o próprio gabinete em um reduto doméstico. Segundo a apuração, ele empregou a companheira Elizabeth Dias de Oliveira, a cunhada Naara Star, a concunhada Gabriela Aparecida e o namorado desta, Luy Sobral. Somados, os salários e benefícios pagos pela Câmara dos Deputados a esses quatro nomes ultrapassam R$ 2,1 milhões.

A revelação é simbólica porque desmascara o abismo entre o discurso moralista e a prática política de quem se apresenta como guardião da “retidão”. Enquanto ergue o estandarte da família como valor divino, Chrisóstomo o converte em instrumento de vantagem. “Eu tenho o emprego que eu quiser”, respondeu Elizabeth à reportagem quando questionada sobre o caso — uma frase que sintetiza o espírito de impunidade que se enraizou na administração pública.

Em defesa própria, o deputado alegou que não via irregularidade nas nomeações, sustentando que parte dos familiares já atuava na Câmara antes da união estável formalizada em 2022. O argumento, porém, esbarra na interpretação consolidada pelo Tribunal de Contas da União e pelo Supremo Tribunal Federal: a união estável cria vínculo de afinidade e, portanto, ao menos na teoria, caracteriza nepotismo. Mesmo assim, só após a repercussão da reportagem ele informou ter demitido todos os parentes.

A contradição é gritante. Em discursos inflamados, o parlamentar costuma associar a corrupção à “falta de valores morais” e evocar Deus como juiz das ações humanas. Mas, quando a farra dos cargos atinge a própria família, o rigor desaparece. A moral pregada em púlpitos e redes sociais sucumbe diante do conforto proporcionado por folhas de pagamento generosas.

O caso de Chrisóstomo ecoa outros episódios recentes de deputados do mesmo partido envolvidos em práticas semelhantes, o que levanta uma questão incômoda: a defesa da moral e da ética, quando instrumentalizada politicamente, vira apenas retórica — um biombo para encobrir vícios tão antigos quanto o próprio poder.

No fim, o episódio serve de espelho para o eleitorado conservador que, movido por slogans de fé e patriotismo, depositou confiança em figuras que prometeram “limpar Brasília”. Em vez disso, o que se vê é a repetição de um padrão — a conversão da máquina pública em extensão do lar.

O discurso moralista, sem coerência prática, perde qualquer legitimidade. E, quando a fé serve de escudo para o privilégio, resta apenas a velha política travestida de cruz e bandeira. Não ironicamente, Chirsóstomo, enfim, achou a fama nacional que sempre quis.

AUTOR: INFORMA RONDÔNIA





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