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COLUNA DO MONTEZUMA
O jumento é nosso irmão

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Relato recupera bastidores pouco documentados da exploração do estanho e resgata o papel invisibilizado dos animais de carga na abertura das frentes minerais em Rondônia

Por Montezuma Cruz - domingo, 01/03/2026 - 12h08

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MONTEZUMA CRUZ

Em meio século de Rondônia, o jornalista cearense Ciro Pinheiro de Andrade viu a saga da cassiterita. Seu olhar sociológico traz para análise histórica o trabalho duro de animais de carga para garimpeiros e multinacionais do minério de estanho no período 1960-1970

Por óbvios motivos, as Redações de jornais prestavam mais atenção a balanços financeiros de fim de ano, volume de estanho apurado e enviado à Usina Siderúrgica de Volta Redonda, e nas festas promovidas pelas empresas, geralmente com almoços e jantares aos donos de jornais, rádios e TV.

Animais de carga são parte da história mineral de Rondônia (Foto: Marco Zero)

A pauta jornalística cometia ainda o pecado de não escalar repórteres para acompanhar o funcionamento de máquinas gigantes que resgavam a floresta para extrair minério. Muito menos se interessava por burros e jumentos que suportavam no lombo o peso dos sacos carregados com cassiterita apurada.

Tampouco historiadores disseram, até então, algo a respeito. O capital atropela a própria literatura, escondendo o heroico esforço animal no quintal e na floresta explorada por multinacionais. 

Quem analisar edições de jornais e revistas daquele período irá notar que as reportagens mostravam: aviões desaparecidos, indígenas, formação de vilas, o trem da Madeira-Mamoré, possíveis jazidas de diamantes, e a presença dos soldados do Exército em missões amazônicas. Burros e jumentos, se quiserem, só em fotos raríssimas de arquivos pessoais ou da Biblioteca do IBGE.

Jornalista Ciro Pinheiro, cearense, viveu décadas em Porto Velho (Foto: Gente de Opinião)

 Para Ciro Pinheiro, o burro e o jumento podem também ser vistos como pioneiros no Território Federal de Rondônia. Antes do Hino do Estado eles já eram destemidos pioneiros, eu concluo.

Algumas décadas atrás, jumentos ‘importados’ do Ceará, depois de anestesiados, eram amontoados em avião taxi aéreo e vinham parar nos garimpos do município de Porto Velho, cuja extensão era ainda mais gigantesca que os seus 34mil Km². “Verdadeira saga”, observa o jornalista.

Aqui, os animais eram usados pelas empresas mineradoras no transporte de cassiterita. “Somente o burro e o jumento, com suas colunas horizontais tinha condições de transportar o pesado minério de estanho, da lavra no meio da floresta, até o acampamento”, relata o jornalista.

Ciro presenciou várias vezes o embarque desses que considera conterrâneos, no antigo aeroporto Caiari. “Os bichinhos seguiam dormindo até o destino, lá nas minerações”, recorda-se.

Também o engenheiro agrônomo pinheiro na assistência técnica rural em Rondônia, ex-deputado estadual Luiz Carlos Coelho Menezes, conheceu a situação. “Quando cheguei aqui, no ano de 1970, meu tio Raimundo era muito ligado ao garimpo; ele era conhecido por Raimundo dos burros.”

Conta Menezes que o seu tio Ormidas trazia burros do Nordeste e vendia para seringalistas do Acre, Amazonas e Rondônia. “E o tio Raimundo participava dessa operação com mais dedicação, e por isso recebeu o apelido. 

Naquela ocasião, por trabalhar com garimpo ele tinha muito contato com o pessoal do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM e com o próprio governador, coronel João Carlos Marques Henrique.”

Em síntese: gente importante e animais anônimos abriram campos minerais neste que atualmente é o primeiro produtor de cassiterita no País.
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NOTA
Marivalda Kariri, forrozeira raiz que andou por aqui nos anos1980, gravou 25 discos em seus 60 anos de carreira, entre os quais, “A dança do jumento”. E ficou nisso a homenagem ao animal. Como Rondônia é ingrata!

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AUTOR: MONTEZUMA CRUZ





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