Em entrevista ao Rondônia Dinâmica, Amir Lando, de 81 anos, afirma que está à disposição do MDB para disputar vaga na Câmara ou no Senado, critica o sistema de emendas parlamentares e defende neutralidade do partido na eleição presidencial de 2026
A entrevista concedida por Amir Lando ao jornal Rondônia Dinâmica, nesta sexta-feira, 13, recoloca no centro do debate político de Rondônia uma figura cuja trajetória se confunde com capítulos relevantes da história institucional brasileira. Aos 81 anos, o ex-senador, ex-deputado federal e ex-ministro da Previdência Social reaparece no cenário com a disposição declarada de disputar novamente uma vaga no Congresso Nacional, seja na Câmara dos Deputados, seja no Senado. A possibilidade não foi apresentada como candidatura formal, mas como disponibilidade política diante de um eventual espaço dentro do MDB.
A declaração não surge isolada. Ela é acompanhada de uma revisitação detalhada de uma carreira que atravessou momentos decisivos da política nacional, incluindo investigações parlamentares que marcaram a República nas últimas décadas. Professor, advogado e político com longa atuação em Rondônia, Amir Lando ocupou postos relevantes em Brasília, assumindo o Senado em 1990 após a morte de Olavo Pires. Naquele período, tornou-se relator da CPI do PC Farias, investigação que desembocou no processo de impeachment do então presidente Fernando Collor. Anos depois, voltaria a ocupar cadeira no Senado, exerceria a liderança do governo Lula no Congresso e assumiria o Ministério da Previdência Social em 2004.
Essa trajetória inclui ainda a condução de investigações parlamentares de grande repercussão, como a CPMI do Mensalão e da Compra de Votos, além da relatoria da CPMI dos Sanguessugas, que investigou o escândalo conhecido como Máfia das Ambulâncias. Ao recordar esses episódios, Amir Lando sustenta que sua atuação sempre esteve baseada na análise de provas e na correção dos fatos. “Eu faria tudo a mesma coisa”, afirmou ao comentar as consequências políticas das investigações. Em outro momento da entrevista, reforçou a mesma ideia ao declarar: “Não fui eu, não fui eu que inventei nada. Estava lá a prova já acolhida pela Polícia Federal”.
A disposição de voltar à política, contudo, aparece acompanhada de uma leitura crítica sobre o funcionamento atual do sistema político. Segundo ele, a atividade parlamentar tem sido progressivamente deslocada para uma lógica de gestão de emendas, em detrimento da formulação de projetos estruturantes para o país. Na conversa com o Rondônia Dinâmica, o ex-senador utilizou uma expressão contundente ao se referir ao modelo que, em sua avaliação, passou a dominar parte da dinâmica do Congresso. “Essa bandalha mercado persa das emendas, eu quero destruir”, disse ao comentar o que considera uma fragmentação orçamentária que impede transformações mais profundas.
Esse diagnóstico é ampliado quando ele discute investigações e escândalos recentes. Como ex-ministro da Previdência Social, Amir Lando abordou a discussão sobre possíveis irregularidades envolvendo o INSS e defendeu que qualquer desvio de recursos públicos seja tratado com rigor. Ao comentar a questão, declarou: “Eu sou contra qualquer apropriação, qualquer vantagem ilícita. Para mim é crime, e o crime só tem uma forma, a cadeia”.
Apesar da defesa de investigações rigorosas, o ex-senador também advertiu sobre os limites e a forma de condução das comissões parlamentares de inquérito. Segundo ele, a busca por responsabilização não pode se transformar em espetáculo político. “Não pode ser um espetáculo. Não pode ser uma encenação apenas do ridículo. Tem que ser buscar, através do secreto, do discreto, a investigação e ao subsolo, debaixo do tapete onde se esconde o mal feito”, afirmou ao explicar como entende que uma CPI deve funcionar.
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A entrevista também revisitou episódios delicados de sua trajetória, incluindo a investigação conduzida pelo Ministério Público Federal sobre suposto favorecimento ao banco BMG durante o período em que esteve à frente da Previdência. Amir Lando classificou a acusação como “uma bobagem” e afirmou que sua atuação tinha como objetivo reduzir juros considerados abusivos no crédito consignado. Segundo ele, o processo terminou com absolvição em todas as instâncias. “Não houve nenhum ato de corrupção, não houve acusação. Houve que o presidente Lula teria tido uma vantagem política com essa questão”, declarou ao tratar do caso.
Se o passado ocupa parte central da conversa, o presente também aparece como objeto de análise. Ao comentar o cenário político nacional e o debate interno do MDB sobre a eleição presidencial de 2026, Amir Lando defendeu que o partido, em Rondônia, deveria adotar postura de neutralidade. Em sua avaliação, a legenda precisa discutir internamente o tema antes de assumir qualquer alinhamento. Ao explicar sua posição, afirmou: “Eu acho que nós podemos marchar por uma neutralidade para buscar sucesso”.
A crítica à polarização política também aparece na entrevista. Para o ex-senador, o confronto entre campos ideológicos opostos tem se transformado em uma armadilha que impede o enfrentamento dos problemas concretos do país. Nesse ponto, sintetizou sua visão ao dizer: “Eu acho que nós temos que ter a coragem de sair dessa cilada”.
Mas talvez a passagem mais simbólica da entrevista tenha surgido quando Amir Lando explicou por que, mesmo aos 81 anos, considera legítimo cogitar um retorno ao Congresso. Ao comentar a própria biografia e a experiência acumulada ao longo de décadas de atuação pública, ele afirmou: “Eu penso que as pessoas que foram para Brasília, na Câmara e no Senado, não me substituíram. Porque o político tem que ter duas coisas, convicções e compromisso”.
A frase revela uma visão de política ancorada na ideia de responsabilidade pública, algo que o próprio entrevistado procura associar à sua trajetória. Ao tratar do futuro, o ex-senador recorreu a uma formulação que resume a forma como pretende encarar essa eventual volta à cena política. “Eu quero ser um testemunho no canto do cisne da minha existência, vamos dizer assim, no final, eu quero ser um testemunho daquilo que eu acredito, daquilo que precisa ser dito”.
Nesse sentido, a entrevista ao Rondônia Dinâmica acaba funcionando também como uma espécie de registro geracional. Amir Lando pertence a uma leva de políticos que testemunharam de dentro do Congresso os movimentos que marcaram a redemocratização brasileira e as crises institucionais que se seguiram nas décadas posteriores. Ao colocar novamente seu nome à disposição do MDB, ele sugere que ainda vê espaço para transformar essa memória política em participação ativa no debate público.
Se essa disposição resultará ou não em candidatura é uma questão que dependerá das decisões partidárias e do desenho eleitoral que se consolidará nos próximos meses. O que a entrevista revela, contudo, é que Amir Lando ainda se apresenta como personagem que deseja intervir no presente a partir da experiência acumulada no passado, transformando a própria trajetória em argumento político e, nas palavras que ele próprio escolheu, em testemunho final de convicções construídas ao longo de uma vida dedicada à política.





