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Voluntariado amplia acesso à saúde mental e mobiliza milhares de pessoas no Brasil

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Projetos oferecem escuta psicológica gratuita em espaços públicos, escolas e pela internet, além de capacitar profissionais para atuação em situações de trauma

Por Yan Simon - sexta-feira, 28/08/2026 - 08h41

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Porto Velho, RO – Uma rede formada por cerca de 7 mil voluntários passou a oferecer apoio emocional em diferentes regiões do Brasil, com atendimentos presenciais e remotos voltados principalmente a pessoas que enfrentam dificuldades para acessar serviços de saúde mental. As ações incluem escutas em espaços públicos, palestras em escolas e contatos pela internet, além de iniciativas destinadas a populações atingidas por situações traumáticas.

A mobilização integra diferentes projetos que ganharam destaque neste Dia Nacional do Voluntariado, celebrado nesta sexta-feira (28). Psicólogos e outros profissionais relatam que a participação nessas atividades permite ampliar o alcance de orientações e atendimentos gratuitos, sobretudo entre jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade.

Uma das iniciativas de maior alcance começou em São Paulo, em 2017. Seis amigos que haviam enfrentado episódios de depressão passaram a deixar mensagens em pontes e viadutos da capital paulista, acompanhadas de números de telefone para quem precisasse conversar.

Felipe Santos, atualmente coordenador nacional do Projeto Help, lembra que os contatos começaram justamente a partir dessas mensagens. A iniciativa cresceu e, segundo ele, reúne hoje aproximadamente 7 mil voluntários distribuídos por todas as unidades da Federação. O perfil do projeto no Instagram soma cerca de 389 mil seguidores.

As atividades são realizadas por profissionais de saúde mental e voluntários de outras áreas. Parte do trabalho ocorre em rodoviárias, parques, estações e outros locais de circulação pública, onde são montados espaços conhecidos como “cantinho do desabafo”.

Nesta semana, uma dessas ações ocorreu na estação ferroviária de Francisco Morato, em São Paulo. O serviço também pode ser iniciado remotamente por meio do WhatsApp.

De acordo com Felipe Santos, jovens estão entre os públicos que mais procuram o projeto. Ansiedade, depressão, dependência de tecnologias e problemas relacionados a apostas pela internet aparecem com frequência nos relatos recebidos pelos voluntários.

“Temos uma atenção especial com os mais jovens”, afirmou o coordenador ao destacar o aumento das demandas envolvendo problemas emocionais nessa faixa etária.

Em Brasília, a coordenação do grupo é realizada pelo militar da Marinha Thiago Domingos, de 31 anos. Ele decidiu aderir ao voluntariado depois de tomar conhecimento de casos de suicídio envolvendo jovens das Forças Armadas.

Thiago explica que uma das propostas do trabalho é atuar na prevenção e alcançar pessoas que não dispõem de recursos financeiros para consultas particulares com psicólogos.

Na capital federal, aproximadamente 5 mil pessoas foram atendidas nos últimos anos, segundo o coordenador. Atualmente, 15 psicólogos participam regularmente das ações voluntárias na cidade.

Além das escutas realizadas em locais públicos, integrantes do projeto promovem palestras em escolas. Nessas atividades, segundo Thiago, aparecem relatos relacionados a bullying e a diferentes tipos de sofrimento emocional.

A psicóloga Juliana Cei, de 38 anos, integra esse grupo de profissionais. Embora trabalhe na área organizacional de uma empresa, ela utiliza parte do tempo livre para participar das ações em espaços públicos.

Na avaliação da psicóloga, o enfraquecimento das relações sociais e das redes de apoio tem aparecido com frequência nos atendimentos. Ela considera que a solidão e a redução do convívio familiar podem aumentar a vulnerabilidade emocional, principalmente entre adolescentes e jovens.

Juliana também percebe uma procura expressiva de mulheres pelo serviço. Algumas apresentam situações consideradas sensíveis e encontram no projeto um espaço para serem ouvidas.

Entre os episódios que mais chamaram sua atenção está o contato com uma adolescente que, depois da conversa, demonstrou interesse pela própria profissão de psicologia e pela possibilidade de futuramente trabalhar como voluntária.

Para Juliana, esse tipo de retorno demonstra que a assistência pode gerar efeitos além do atendimento imediato. “A gente acaba plantando uma sementinha”, resumiu.

Outra frente de voluntariado envolve públicos que enfrentam dificuldades específicas de acolhimento. O psicólogo brasiliense Lucas Hedler, de 45 anos, decidiu organizar um grupo de apoio destinado a pessoas trans.

A proposta surgiu da intenção de criar um ambiente onde experiências, inseguranças e histórias pessoais possam ser compartilhadas com acompanhamento psicológico e segurança.

Lucas relata que integrantes da comunidade LGBTQIA+ podem enfrentar conflitos e situações de insegurança dentro do próprio ambiente familiar. Entre os casos lembrados por ele estão pessoas trans que sofreram agressões ou foram expulsas de casa durante o período da pandemia.

O psicólogo pretende ampliar os projetos voltados a esse público e também vem se especializando em autismo.

O trabalho voluntário em saúde mental também ultrapassa as fronteiras brasileiras. A psicóloga Esly Carvalho, que atua em Brasília e acumula 45 anos de experiência profissional, passou a colaborar com iniciativas humanitárias relacionadas a terremotos, guerras, enchentes e outras situações de emergência.

Especializada no atendimento de pessoas que passaram por experiências traumáticas, ela se dedica à capacitação de equipes que lidam com pacientes afetados por estresse pós-traumático.

Entre as técnicas utilizadas está a abordagem psicoterapêutica EMDR, voltada ao processamento de memórias traumáticas. Esly afirma que intervenções coletivas podem ser empregadas em cenários de desastres.

Na Venezuela, onde mais de 6 mil pessoas morreram após o terremoto ocorrido em junho, segundo as informações apresentadas pelo projeto, foi desenvolvido um programa de intervenção voltado a profissionais.

Mais de 100 pessoas receberam treinamento para aplicação das técnicas e, a partir dessa capacitação, mais de 500 atendimentos foram realizados. As atividades continuam às quintas-feiras, com participação remota da psicóloga brasileira e de equipes venezuelanas.

A psicoterapeuta Deglya Flores, de 59 anos, que vive em Caracas, esteve entre as profissionais orientadas após o terremoto. Ela conta que o impacto das imagens e da dimensão da tragédia provocou forte abalo emocional entre trabalhadores que atuavam nas áreas atingidas.

Segundo Deglya, o apoio oferecido por videoconferência ajudou profissionais que estavam emocionalmente afetados pelo desastre.

“O resultado foi maravilhoso”, afirmou ao recordar o atendimento recebido enquanto enfrentava sentimentos de angústia e desespero diante das consequências do terremoto.

De acordo com a psicoterapeuta, existem apenas 17 profissionais especializados em tratamento de traumas na Venezuela.

Depois da capacitação, o grupo venezuelano também passou a prestar assistência remota a pessoas atingidas pelo terremoto na Colômbia. As ações incluem profissionais de saúde mental e outros voluntários preparados para oferecer escuta, inclusive em acampamentos instalados em La Guaira, apontada como uma das áreas mais afetadas.

Para Esly Carvalho, a capacitação de profissionais em regiões atingidas por crises permite multiplicar o conhecimento e ampliar o número de pessoas alcançadas pelo atendimento.

“O trabalho de voluntariado preenche um lugar muito especial no meu coração”, afirmou.

Além das iniciativas voluntárias, pessoas que necessitam de apoio emocional podem buscar serviços gratuitos como o Centro de Valorização da Vida, pelo telefone 188, a Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde e grupos de apoio como Alcoólicos Anônimos.

Com informações de: Agência Brasil

AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)





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