Candidato do PV reconhece relação histórica do PT com Acir Gurgacz, busca votos dentro da federação e defende liberdade de escolha entre aliados
Porto Velho, RO – Aires Mota chegou à disputa pelo Senado como candidato de uma federação que apresenta dois nomes para as vagas disponíveis, mas afirmou no RD Entrevista que ainda não havia conhecido pessoalmente a outra candidata ao cargo apresentada pelo PT. Ao jornalista Vinícius Canova, o candidato do PV também reconheceu que enfrenta uma disputa por apoio dentro do próprio campo político e disse não pretender usar a condição de integrante da federação para exigir votos ou criar conflitos com aliados de outras candidaturas. A entrevista foi gravada nos estúdios do Rondônia Dinâmica, em parceria com o Informa Rondônia.
A declaração ocorreu quando Canova perguntou como funcionava, na prática, a relação entre os dois candidatos ao Senado dentro da mesma federação. Mota explicou que existe fidelidade partidária e disse desejar sucesso à candidatura apresentada pelo PT, mas revelou que os dois ainda não haviam conversado pessoalmente. “Nós trabalhamos internamente ali com nossos candidatos. O PT tem uma outra candidata que eu não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. Eu ouço falar muito bem dela. Não tivemos a oportunidade porque, no período de convenções, ela não estava na cidade e nós não conversamos pessoalmente ainda. Desejo muita sorte a ela, que ela tenha sucesso, porque o sucesso dela vai ser o sucesso da federação, como o meu sucesso também será o sucesso da federação”, afirmou.
“A população vai sofrer no bolso”
Do pedágio ao preço final dos produtos
Ódio no voto, “rinha de galo” e política de curtidas
Sem imposição ao PT e sem confronto com Acir
Campanha com a conta “praticamente zerada”
Do 0% ao ataque à ideia de “voto perdido”
Cooperação, trabalho e desenvolvimento
Da infância em Porto Velho à direção partidária
As dez frases da entrevista
Durante a resposta, Aires chegou a dizer que acreditava que a candidata fosse do interior e mencionou Ji-Paraná. O apresentador interveio e informou conhecê-la como jornalista de Porto Velho. A conversa prosseguiu sem que Mota transformasse a ausência de contato pessoal em crítica à companheira de federação.
O assunto voltou à entrevista quando Canova observou que Aires não era visto em determinados eventos políticos e mencionou uma parceria do PT com Acir Gurgacz. O candidato do PV respondeu que Gurgacz possui uma ligação anterior com Lula e uma relação de longa data com integrantes petistas e afirmou considerar essas circunstâncias ao avaliar a disputa pelos apoios.
“Eu poderia estar muito bem lá brigando: ‘Não, vocês têm que votar em mim, que eu estou na federação’, e tal. Mas eu não tenho o histórico que ele tem, eu não tenho a relação de amizade que eles têm ao longo dos anos. Então eu estou tentando convencer o pessoal do PT a votar em mim, estou lá apresentando minha proposta, fazendo-me ser conhecido no meio do PT. Eu vou deixar eles decidirem, porque a imposição não é comigo”, declarou Aires.
Ele aprofundou a posição ao dizer que, mesmo como dirigente partidário, nunca trabalhou impondo a candidatos uma determinada composição de votos. “Eu respeito a boa vontade de cada um, respeito a vontade. Eu sou dirigente partidário, eu nunca fiquei obrigando candidato a estadual a votar no meu federal. Eu tento convencer, tento mostrar para ele que esse é o caminho, a fidelidade partidária é importante e tudo mais. Imposição eu nunca fiz isso. Cada um é livre, vivemos num país livre, cada um é livre para fazer o que quiser”, afirmou.
Mota acrescentou que escolhas políticas trazem consequências, mas descartou transformar a situação em disputa pessoal. Disse que não pretendia telefonar para integrantes do PT para cobrar posicionamento nem “bater boca” com Gurgacz. Para ele, a campanha deveria seguir pelo convencimento. “Eu vou levar a minha proposta, tocando minha campanha. Quando me convidar, estarei lá com o maior prazer do mundo. Se não for convidado também, não vou, não tem problema”, afirmou.
A defesa do diálogo apareceu também quando a conversa passou pela polarização entre Lula e Bolsonaro. Aires afirmou considerar prejudicial ao país um ambiente em que o voto seja determinado pela rejeição ao campo adversário. “As pessoas estão escolhendo o candidato hoje não mais pela proposta, e sim pelo ódio. Ele vota em um com ódio do outro, vota no outro com ódio de um. Isso é péssimo para um país”, declarou.
Mota disse não se enquadrar de maneira automática em todos os posicionamentos atribuídos a um dos lados. Segundo ele, existem políticas associadas à esquerda das quais discorda e propostas identificadas com a direita com as quais concorda. Ao falar do PV, apresentou a responsabilidade ambiental como eixo central, mas rejeitou uma interpretação que colocasse proteção ambiental e produção de alimentos como interesses necessariamente antagônicos.

“Nós somos a favor de matar a fome das pessoas, mas, se eu sou a favor de matar a fome, eu não posso ser contra quem cria, quem planta, não posso ser contra as pessoas que produzem alimento. Então é só colocar uma responsabilidade ambiental”, afirmou. Ele recordou ainda os problemas de qualidade do ar vividos em Rondônia em 2024 como exemplo de tema que, em sua avaliação, exige gestão ambiental.
A crítica à polarização desembocou em uma avaliação severa de determinados comportamentos eleitorais. Sem identificar os candidatos aos quais se referia, Aires disse ver concorrentes tentando transformar debates em espaços de confronto e conteúdo para redes sociais. “Eu vejo cada aberração aqui de candidato que eu não vou citar nome, porque eu sou uma pessoa ética. Mas eu vejo cada coisa assim: não é possível que o povo não vai enxergar isso. Essa pessoa não tem compromisso com Rondônia, ela está querendo criar meme nos debates, está querendo arrumar confusão, está querendo ganhar curtida, ganhar like, e a proposta para o estado de Rondônia é muito pouquinha”, declarou.
Para Mota, casas legislativas não deveriam funcionar como uma “rinha de galo”. Ele afirmou preferir representantes capazes de ouvir, argumentar, analisar propostas e apresentar contraditório sem transformar o mandato em disputa permanente. A postura, segundo o candidato, também orientaria sua relação com um eventual governador pertencente a outro campo político.
Ao ser perguntado sobre suas prioridades no Senado, colocou a cooperação com o Governo de Rondônia no topo da lista. “Independente de quem seja governador, eu, eleito senador, não importa quem seja o governador, eu jamais vou fazer a política de quanto pior, melhor só para poder apontar os erros e defeitos da outra gestão. Vou fazer críticas construtivas, vou fiscalizar também, vou ficar de olho, mas eu não vou fazer a política do quanto pior, melhor”, declarou.
No mesmo bloco, Aires incluiu saúde, educação, segurança pública e saneamento entre as áreas abrangidas pela ideia de auxiliar a administração estadual em Brasília. Disse querer buscar recursos e ampliar mercados para Rondônia, mas reservou atenção especial à pauta trabalhista e ao movimento sindical.
Segundo o candidato, a defesa do trabalhador não deveria ser separada por ideologia. “Trabalhador de Rondônia, seja ele da iniciativa privada, servidor público da esfera municipal, estadual e federal, não importa se você é de direita, de centro, de esquerda, mas você vai concordar comigo: todos os benefícios que o trabalhador recebeu até hoje foram através do movimento sindical”, afirmou.
Aires também disse acreditar na aprovação do fim da escala 6 por 1. Na sequência, porém, ressaltou que sua agenda trabalhista pretende incluir igualmente a situação dos empregadores, principalmente micro, pequenos e médios empresários. Mota afirmou ouvir de empresários que o custo tributário dificulta novas contratações e sustentou que uma política de emprego precisa procurar equilíbrio entre os dois lados.
“Eu preciso dar condição, ter política para que o empregador consiga ter condições de empregar mais e, ao mesmo tempo, eu votar honrando o trabalhador que quer ingressar no mercado de trabalho através das vagas que nós vamos gerar com nossas políticas”, declarou.
A situação da BR-364 entrou na conversa quando Canova perguntou, sem individualizar parlamentares, se Aires considerava positivo o trabalho da atual bancada de Rondônia. O candidato respondeu que a avaliação estaria sendo feita pela população e citou a concessão abordada na entrevista como exemplo de decisão que, para ele, exigiria outra forma de acompanhamento.
“A privatização é um erro que nós não devemos seguir. Foi cometido um erro grave ali. Ninguém tem detalhe do contrato de como foi feito, qual é a participação, os detalhes do contrato que falam qual é a responsabilidade da empresa que ganhou a concessão. Os valores estão absurdos. Nada disso foi revisto antes”, disse. Aires defendeu que a discussão sobre a hidrovia do Madeira seja precedida por análise criteriosa dos termos para evitar a repetição do que atribuiu ao processo da BR-364.

Ele relatou ter acumulado “40 e poucos reais” em pedágios após viagens ao interior e questionou o efeito das cobranças para empresas que dependem de representantes comerciais e entregas rodoviárias. Segundo Mota, a despesa tende a aparecer no preço final dos produtos e, consequentemente, chegar ao consumidor.
O transporte aéreo também foi apresentado como problema a ser enfrentado por negociação. Questionado sobre preços e quantidade de voos, Aires disse que empresas buscam lucro e que o poder público teria de construir propostas economicamente viáveis para ampliar a conectividade. Citou moradores do interior que precisam viajar até Porto Velho ou mesmo Cuiabá para embarcar.
A campanha eleitoral de Mota, segundo ele próprio, é conduzida sob severa restrição financeira. O candidato afirmou que o Partido Verde não disponibilizaria recursos do fundo eleitoral para sua candidatura ao Senado e explicou que a legenda priorizaria candidaturas consideradas mais competitivas à Câmara dos Deputados. Ele citou um fundo de R$ 45 milhões, parcelas reservadas a candidaturas femininas e valores destinados a deputados federais ao detalhar sua leitura da distribuição interna.
“Então o partido resolveu fomentar a candidatura deles e deixar a gente aqui no sacrifício. Nós vamos para o sacrifício sem problema nenhum. Eu sou parte dele. Nós vamos fazer uma campanha sem dinheiro, você vai ver que minha conta vai estar praticamente zerada ao longo da campanha”, afirmou. Mota disse depender de amigos, diretórios municipais e oportunidades de exposição em veículos de comunicação.
A falta de recursos e o desempenho eleitoral foram colocados lado a lado quando Canova perguntou sobre uma pesquisa divulgada na véspera que, segundo a pergunta feita no programa, mostrava Aires com 0%. O candidato disse que levantamentos anteriores apresentaram resultados diferentes e afirmou não considerar pesquisas determinantes para sua permanência na disputa.
Para ele, a corrida ainda estaria aberta porque muitos eleitores sequer teriam escolhido os dois nomes para o Senado. Aires insistiu que os dois votos disponíveis ampliam a possibilidade de candidaturas menos estruturadas conquistarem espaço e criticou o raciocínio segundo o qual votar em quem aparece atrás seria desperdiçar o voto.
“Voto perdido não é quando você vota e o candidato perde. Voto perdido é quando você vota, o candidato é eleito e depois ele decepciona você. Depois ele vai preso, cassado por corrupção. Essa pessoa realmente perdeu o voto dela, e não quando você vota por conta que acha que o candidato tem chance ou menos chances”, declarou.
A trajetória pessoal ocupou a parte menos conflitiva da entrevista. Aires disse ter nascido e crescido em Porto Velho, ser filho de uma costureira e de um auxiliar de serviços gerais e ter perdido o pai aos seis anos de maneira trágica. Contou que seu primeiro contato com uma campanha ocorreu em 1990 e que passou a se interessar pela política partidária ao acompanhar dirigentes e analistas discutindo cálculos eleitorais, chapas e projeções.
Mota afirmou ter participado do registro de quase mil candidaturas ao longo da carreira partidária e citou administrações municipais e mandatos conquistados pelo PV em Rondônia como realizações da legenda. Também relatou participação desde o início na Caminhada Esperança, iniciativa que, segundo ele, pretendia reunir os partidos do campo progressista em torno de uma candidatura única ao governo e duas ao Senado, antes de diferentes decisões partidárias modificarem o desenho inicialmente pretendido.
Nos minutos finais, Aires voltou à imagem que procurou construir ao longo da entrevista: a de um candidato disposto a negociar com grupos diferentes sem abrir mão de suas prioridades. Pediu confiança principalmente aos trabalhadores, defendeu uma política construída “de mãos dadas” com empregados e empresários e disse que pretende ajudar Rondônia mesmo se o governador eleito não pertencer à sua coligação. “Eu não vou olhar para o nome, nem sigla partidária, eu quero ajudar o estado de Rondônia”, encerrou.
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A Quaest ouviu 804 pessoas de 16 anos ou mais entre os dias 21 e 24 de agosto de 2026. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi registrado no TSE com os números RO-05711/2026 e BR-00490/2026.
AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)
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