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Neidinha Suruí e o direito das mulheres de existir na política sem pedir licença

Neidinha Suruí e o direito das mulheres de existir na política sem pedir licença
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Caso da candidata ao Senado expõe uma discussão que ultrapassa a eleição de Rondônia: o que acontece quando mulheres, especialmente indígenas, ocupam espaços de poder, discordam e se recusam a aceitar decisões tomadas por outros em seu nome

Por Yan Simon - domingo, 06/09/2026 - 08h59

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Porto Velho, RO – O episódio envolvendo Neidinha Suruí deixou de ser apenas uma disputa interna de partido para colocar diante de Rondônia uma pergunta muito maior: até onde uma mulher pode exercer plenamente sua autonomia política sem ser constrangida, deslegitimada ou empurrada para fora do espaço que decidiu ocupar?

Neidinha denunciou ter sofrido violência política de gênero e pressões relacionadas à candidatura ao Senado. Diante dos acontecimentos partidários que atingiram sua participação na eleição, o Ministério Público Eleitoral abriu apuração preliminar para verificar a possível ocorrência desse tipo de violência.

A caracterização jurídica definitiva dos fatos não cabe à campanha, aos partidos ou ao debate público. Cabe às instituições competentes. Mas isso não impede que os acontecimentos produzam uma discussão política e social legítima sobre os obstáculos encontrados pelas mulheres quando deixam de ocupar posições secundárias e passam a disputar efetivamente espaços de poder.

Os atos partidários que buscaram afastar Neidinha da corrida eleitoral provocaram justamente esse debate. A candidata reagiu publicamente e declarou que não aceitaria ser silenciada.

A partir daí, o caso deixou de dizer respeito somente a uma candidata.

Uma mulher pode discordar da direção do próprio partido sem ter sua legitimidade política questionada? Uma mulher indígena pode entrar em uma disputa de poder sem que outras pessoas determinem até onde ela pode ir? Uma candidata pode sustentar suas posições ambientais, sociais e partidárias e continuar sendo reconhecida como dona da própria trajetória?

Essas perguntas poderiam ter qualquer nome feminino no lugar de Neidinha Suruí.

Porque o problema da participação das mulheres na política brasileira não termina quando uma candidatura é registrada.

Ele começa muito antes e continua muito depois.

A doutora em Direito Constitucional pela Universidade de São Paulo Luciana Oliveira Ramos aponta fatores estruturais para explicar a baixa representação feminina, entre eles a responsabilidade desproporcional das mulheres pelo trabalho doméstico e de cuidado, que frequentemente produz jornadas duplas ou triplas, além da própria violência política de gênero.

A contradição aparece nos números. Em 2026, mulheres correspondem a aproximadamente 52% do eleitorado em Rondônia e também são maioria entre os eleitores brasileiros. Ainda assim, as candidaturas femininas não ultrapassaram 35% do conjunto nacional, enquanto Rondônia registrou redução de 33% nesse contingente nesta eleição.

Ser maioria na urna, portanto, continua muito distante de significar maioria nos espaços em que o poder é exercido.

E violência política contra mulheres não se resume a agressão física ou ameaça explícita.

Ela também pode se manifestar por meio de constrangimentos, tentativas de impedir ou dificultar candidaturas, descredibilização, isolamento, retirada de autonomia e criação de obstáculos ao exercício dos direitos políticos. A existência ou não dessas condutas em um caso concreto precisa ser comprovada e definida pelas autoridades competentes, mas o fenômeno está reconhecido pela própria legislação brasileira.

Desde 2021, o país possui legislação específica destinada à prevenção, repressão e combate à violência política contra a mulher no exercício dos direitos políticos e das funções públicas.

Não se trata de uma proteção acessória.

Política é o espaço no qual se decide como serão distribuídos recursos para saúde, educação, segurança, infraestrutura, proteção social, meio ambiente, agricultura, combate à violência, direitos trabalhistas e dezenas de outras áreas que interferem diariamente na vida da população.

Se mais da metade de quem vota é mulher, a sub-representação feminina nos espaços onde essas decisões são tomadas não pode ser tratada como uma simples curiosidade estatística.

Existe ainda outra camada nessa discussão.

Mulheres não formam um grupo uniforme. Mulheres indígenas, negras, quilombolas, agricultoras, trabalhadoras, mães, profissionais liberais e lideranças comunitárias chegam à política trazendo experiências que historicamente estiveram pouco representadas nas estruturas tradicionais de poder.

É nesse ponto que o caso de Neidinha assume uma dimensão particular.

O Tribunal Superior Eleitoral registrou 191 candidaturas indígenas no país em 2026, equivalentes a 0,93% do universo considerado para a distribuição de recursos eleitorais. Neidinha não representa somente uma mulher disputando o Senado. Representa também a presença de uma liderança indígena e ambientalista em um espaço historicamente ocupado por homens.

Sua trajetória tampouco começou com a eleição.

Ela é resultado de décadas de atuação em defesa dos povos indígenas, da floresta e dos direitos humanos, trabalho que já a colocou diante de ameaças relacionadas à atividade indigenista.

Isso torna ainda mais importante distinguir participação simbólica de participação efetiva.

Não basta que partidos apresentem candidaturas femininas para cumprir percentuais. É necessário observar o que acontece quando essas mulheres adquirem voz própria, disputam recursos, discordam das direções, reivindicam protagonismo e passam a interferir nas decisões internas.

É aí que a democracia é realmente testada.

Rondônia apresenta outra fotografia dessa desigualdade. Mulheres representam 40% das candidaturas ao Senado nesta eleição, mas nenhuma concorre ao Governo do Estado. Na representação atual mencionada no debate, elas ocupam 25% das cadeiras rondonienses na Câmara dos Deputados e 21% na Assembleia Legislativa.

O Brasil, apesar do aumento da presença feminina entre as candidaturas, permanece distante de uma representação parlamentar proporcional ao peso das mulheres na população e no eleitorado.

Por isso, repetir simplesmente que “é preciso ter mais mulheres na política” já não basta.

É preciso perguntar quais mulheres conseguem chegar.

Quem recebe recursos para fazer campanha? Quem participa das decisões partidárias? Quem tem espaço real nas convenções? Quem é escutada quando concorda? E, principalmente, o que acontece quando discorda?

Também é preciso saber quantas mulheres entram na política e descobrem que sua presença é aceita apenas enquanto não ameaça estruturas já estabelecidas.

O caso de Neidinha Suruí transforma essas perguntas abstratas em uma discussão concreta da eleição rondoniense.

A democracia não deveria exigir docilidade como preço de ingresso para uma mulher.

Uma candidata não pode precisar escolher entre manter sua autonomia e permanecer politicamente viável. Divergência é parte da política. Disputa por espaço é parte da política. Confronto de ideias é parte da política.

Silenciamento não deveria ser.

Mulheres precisam estar na política não porque sua presença seja um gesto de generosidade dos partidos, mas porque são cidadãs, eleitoras e titulares do mesmo direito de exercer poder que qualquer homem.

Quando uma mulher precisa enfrentar ameaças, constrangimentos ou estruturas que possam fazê-la recuar apenas para continuar disputando esse espaço, o problema deixa de pertencer exclusivamente a ela.

Passa a dizer respeito à qualidade da própria democracia.

Porque, no fim, o que está em discussão não é somente o direito de Neidinha Suruí disputar uma cadeira no Senado.

É o direito de qualquer mulher entrar na política, discordar, disputar poder e permanecer de pé sem precisar pedir licença para existir ali.

AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)





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