A dupla destronou, juridicamente, o diretório nacional da própria legenda, garantindo a si próprios o direito de postulação
Na tarde da última quinta-feira, 03 de setembro, Samuel Costa e Neidinha Suruí conquistaram uma vitória que nenhum outro candidato de Rondônia poderá reivindicar nesta eleição. Não derrotaram um adversário do PL, do PSD, do PT, do União Brasil ou de qualquer outra legenda. Venceram uma tentativa de mudança eleitoral conduzida pela estrutura nacional do próprio PSB. Por 7 votos a 0, o Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia impediu que prevalecessem os efeitos produzidos depois da intervenção que dissolveu o comando estadual do partido e procurou redesenhar sua participação na eleição. Samuel continuou candidato ao Governo. Neidinha permaneceu na corrida ao Senado. A rebelião que começara dentro de casa terminou, ao menos naquele julgamento, com a casa-grande partidária derrotada.
A história se torna peculiar porque, poucas semanas antes, não havia sinal público de que Samuel representasse um problema para o PSB Nacional. Em 20 de julho, durante a convenção estadual realizada em Porto Velho, a comissão provisória presidida por Vinícius Miguel formalizou a candidatura de Samuel ao Governo, com Sargento PM Anderson Machado como vice, e apresentou Neidinha Suruí e Rosângela Cipriano para o Senado. Vinícius resumiu o espírito daquele momento numa frase conciliatória: “Fizemos um chamado ao diálogo construtivo com todo o campo democrático.”
No dia seguinte, 21 de julho, o próprio PSB Nacional deu publicidade à decisão de Rondônia. Em seu portal oficial, registrou: “O PSB referendou a candidatura de Samuel Costa ao governo de Rondônia”. Neidinha e Rosângela também apareciam na composição anunciada pelo partido. O que seria contestado em agosto havia sido, em julho, apresentado nacionalmente como escolha legítima da legenda.
A virada ocorreu rapidamente.
Em 13 de agosto, às 19h15, a Presidência Nacional do PSB editou a Resolução CEN nº 003/2026. O ato dissolveu a Comissão Provisória Estadual comandada por Vinícius Miguel, instalou uma nova direção e abriu caminho para a revisão das decisões eleitorais tomadas em Rondônia. A justificativa atribuída à cúpula nacional tratava a conduta estadual como uma “afronta às diretrizes do partido”.
Por trás da linguagem partidária havia uma divergência política bastante concreta. O grupo de Vinícius Miguel pretendia manter Samuel Costa candidato ao Governo. A nova orientação levava o PSB para uma composição que apoiaria Expedito Netto, candidato do PT. A disputa não tratava apenas de quem ocuparia uma sala ou assinaria documentos em nome da legenda. Tratava de retirar um candidato da eleição e reorganizar alianças no campo governista e progressista.
No dia 14 de agosto, a crise deixou de ser assunto interno. Samuel e Neidinha passaram a denunciar publicamente uma pressão para que abandonassem suas candidaturas. Segundo os dois, durante uma videoconferência, um representante nacional do PSB teria condicionado a não intervenção à retirada deles da disputa. A acusação ganhou dimensão maior porque a intervenção já estava em curso e porque o prazo eleitoral se aproximava do fim.
No dia seguinte, 15 de agosto, a nova comissão estadual agiu. Uma ata buscou anular deliberações tomadas em 20 de julho, 5 de agosto e 12 de agosto. Ao mesmo tempo, tentou conduzir o PSB para uma composição com a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, e com a Federação PSOL/Rede. Samuel deixaria de disputar o Governo. O partido passaria a integrar o bloco político organizado em torno de Expedito Netto.
Vinícius Miguel deixou formalmente o comando estadual, e José Evaldo Costa surgiu como presidente da nova comissão. A destituição havia sido decidida em Brasília, mas seus efeitos foram sentidos imediatamente em Rondônia.
Foi então que uma diferença de horários passou a ter importância maior do que muitos discursos. A nova direção tomou providências no dia 15. Vinícius e o grupo destituído receberam ciência formal da resolução nacional apenas no dia 16 de agosto, às 11h34. Primeiro vieram os efeitos. Depois, a comunicação.
Naquele mesmo dia, Samuel e Vinícius expuseram publicamente a tese que sustentariam contra a intervenção. Não negavam que o estatuto do PSB permitisse à direção nacional intervir numa comissão provisória. Contestavam outra coisa: a possibilidade de uma substituição administrativa apagar, depois de realizada, uma convenção eleitoral e as candidaturas decorrentes dela.
Samuel encontrou uma frase simples para traduzir a disputa: “Eles quiseram mudar a regra do jogo depois do jogo jogado”.
A nova direção defendia posição oposta. José Evaldo Costa sustentava que a Presidência Nacional possuía competência para agir diante da proximidade do prazo final de registro e que os atingidos poderiam exercer a defesa posteriormente. Também foram apresentadas alegações relacionadas à transmissão das decisões partidárias. Para o novo comando, a comissão instalada sucedera a antiga e assumira seus poderes de representação.
A controvérsia atravessou a fronteira partidária porque seus efeitos já estavam dentro do processo eleitoral. Vinícius, Samuel e Anderson Machado reagiram contra a substituição das deliberações. Em 17 de agosto, a antiga direção também apresentou recurso dentro do próprio PSB. No dia 18, a juíza federal Sandra Maria Correia da Silva, relatora do caso no TRE de Rondônia, cobrou com urgência a ata destinada a formalizar as mudanças promovidas pela nova direção.
A crise, a essa altura, já tinha outro componente.
Neidinha Suruí não tratava sua retirada como simples consequência de uma reorganização partidária. A candidata ao Senado classificou o episódio como violência política de gênero. Também deixou claro que não pretendia apoiar Expedito Netto. Citou como razões o voto do petista no processo de impeachment de Dilma Rousseff e posições que considerava incompatíveis com sua atuação ambiental. “As mulheres sofrem violência política diariamente […] Eu não ficarei calada”, declarou.
A posição de Neidinha acrescentou uma dificuldade política ao plano nacional. Não bastava reorganizar uma coligação. Era preciso lidar com uma candidata que se recusava publicamente a participar do novo desenho.
A intervenção começou, então, a recuar sobre parte de suas próprias decisões. Em 20 de agosto, candidaturas proporcionais foram preservadas ou restabelecidas, mas a tentativa de retirar Samuel e apoiar Expedito permaneceu. Cinco dias depois, em nova reunião, a comissão presidida por José Evaldo manteve Samuel fora da chapa para o Governo, porém confirmou Neidinha novamente como candidata do PSB ao Senado, com o número 400. Julio Olivar Benedito e Maria Berenice Alves de Azevedo da Silva passaram a compor a chapa como suplentes. Rosângela Cipriano, originalmente apresentada também ao Senado, voltou à disputa para deputada federal. Pastora Clara, Clarinda Nienke Ponciano, também apareceu nos rearranjos produzidos durante aquele período.
A situação de Neidinha, por isso, passou a ser diferente da de Samuel. Ela havia sido atingida pela intervenção, mas sua candidatura ao Senado já tinha sido recomposta pela própria direção interventora em 25 de agosto. Samuel continuava dependendo da derrota dos efeitos eleitorais da intervenção para permanecer na disputa ao Governo.
No centro político da confusão estava o nome de Expedito Netto.
A mudança pretendida pela nova direção beneficiava objetivamente sua candidatura: Samuel sairia da eleição e o PSB ingressaria na composição que apoiava o candidato do PT. Samuel foi além e passou a acusar Expedito, o presidente estadual do PT, Ernesto Ferreira, e a deputada estadual Cláudia de Jesus de participação na articulação. Falou em “golpe” e na “banda podre do PT”.
Expedito reagiu publicamente. “Quais as provas que eu intervim no PSB?”, perguntou. Depois acrescentou: “Não mando nem no PT”.
A resposta tocava no ponto mais delicado da disputa política. Uma coisa era o resultado pretendido pela intervenção: retirar Samuel e incorporar o PSB ao bloco de Expedito. Outra era atribuir ao candidato petista o comando da operação. A acusação foi feita por Samuel e apareceu na cobertura política daquele período, mas não veio acompanhada de prova independente capaz de demonstrar que Expedito tenha ordenado a intervenção nacional. Também não apareceu um pedido formal do PT à direção do PSB para que Vinícius Miguel fosse destituído. O benefício político era evidente; a autoria atribuída a Expedito permaneceu contestada.
Em 22 de agosto, o procurador regional eleitoral Leonardo Trevizani Caberlon apresentou parecer favorável à preservação da convenção original. O raciocínio era simples o suficiente para sobreviver sem o vocabulário dos tribunais: o PSB Nacional tinha poder para intervir, mas não para produzir efeitos eleitorais primeiro e permitir que os atingidos se defendessem depois.
Ao tratar das consequências já produzidas pela intervenção, Caberlon escreveu: “Não se tratou de providência meramente cautelar ou conservativa”.
A discussão, portanto, deixou de ser sobre a existência de autoridade da direção nacional. Ninguém precisava declarar o PSB Nacional incapaz de substituir uma comissão provisória. A questão era saber até onde essa autoridade poderia avançar quando a troca de comando passasse a apagar uma convenção realizada, retirar candidatos e alterar a eleição.
Na tarde de 3 de setembro, Sandra Correia apresentou ao plenário do TRE a resposta.
“A destituição de órgão partidário que produz efeito sobre o processo eleitoral deve observar o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.”
Os outros integrantes acompanharam a relatora.
Sete a zero.
A tentativa de fazer prevalecer as alterações eleitorais produzidas depois da intervenção foi derrotada. Samuel Costa continuou candidato ao Governo com Anderson Machado. A permanência de Neidinha ao Senado também foi registrada no desfecho da crise, embora sua candidatura já tivesse sido restabelecida pela direção interventora dias antes.
Não houve condenação de Expedito Netto. Não houve decisão declarando que o PT havia organizado um golpe contra o PSB de Rondônia. Até porque a vilania de ambos só fora declarada por Samuel Costa, mas não chegou a ser judicializada nem debatida institucionalmente. Logo, ocorreu uma derrota da forma como a cúpula socialista tentou mudar o curso eleitoral de seu diretório estadual.
Samuel respondeu ao resultado usando a figura que escolhera para si: “Samuel Costa é como massa de pão: quanto mais bate, mais cresce”. Depois retomou o confronto político: “A banda podre do PT tentou derrubar nossa candidatura no tapetão”.
Neidinha foi mais breve: “O bem sempre vence o mal. O povo rondoniense é decente.”
A vitória também não transformava Samuel, por decreto, em protagonista numérico da eleição. A **Quaest divulgada em 25 de agosto registrava Marcos Rogério com 24%, Adailton Fúria com 21%, Hildon Chaves e Expedito Netto com 10% cada e Samuel com 2%, além de 22% de indecisos. O placar do TRE garantia o direito de disputar, não os votos necessários para vencer.
Mas havia algo naquela vitória que pesquisa alguma conseguiria medir com dificuldade. Samuel chegou à campanha enfrentando uma eleição. Terminou agosto enfrentando também seu próprio partido. Neidinha começou como candidata referendada pelo PSB Nacional, foi atingida pelo redesenho da mesma cúpula e acabou permanecendo na chapa enquanto denunciava a operação que tentara afastá-la.
No espaço de poucas semanas, Vinícius Miguel perdeu o comando estadual, José Evaldo Costa assumiu uma nova comissão, o PSB tentou abandonar candidatura própria para apoiar Expedito Netto, Neidinha foi retirada e recolocada, Samuel resistiu à exclusão, o Ministério Público Eleitoral se posicionou contra os efeitos da intervenção e sete integrantes do TRE chegaram à mesma conclusão.
Samuel Costa e Neidinha Suruí ainda terão de enfrentar adversários, pesquisas, campanha e urnas. Nada no julgamento de 3 de setembro antecipou o resultado de outubro.
Mas uma eleição também produz histórias que independem da vitória final.
E, entre todos os candidatos que chegarão às urnas em Rondônia em 2026, apenas os dois poderão dizer que precisaram derrotar politicamente a direção nacional do próprio partido antes de terem o direito de continuar tentando derrotar os adversários.
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**A Quaest ouviu 804 pessoas de 16 anos ou mais entre os dias 21 e 24 de agosto de 2026. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi registrado no TSE com os números RO-05711/2026 e BR-00490/2026.

AUTOR: INFORMA RONDÔNIA
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