Informa Rondônia
PREVENÇÃO AO SUICÍDIO

Apostas online elevam alerta sobre saúde mental e risco de suicídio, dizem especialistas

Apostas online elevam alerta sobre saúde mental e risco de suicídio, dizem especialistas
Pronto
0%Atalhos: Espaço (play/pausa), S (parar), ←/→ (volta/avança)
🛠️ Acessibilidade:

Dependência de bets pode provocar endividamento, isolamento, ansiedade e agravamento de quadros depressivos; profissionais defendem abordagem aberta e busca precoce por ajuda

Por Yan Simon - quinta-feira, 10/09/2026 - 10h30

Informa Rondônia Compartilhe esta reportagem
0 ações
Link copiado.

Porto Velho, RO – Mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, aumento do consumo de álcool, desesperança e comentários relacionados à morte estão entre os sinais que exigem atenção de familiares e amigos. Profissionais de saúde alertam que pessoas que apresentam risco de suicídio não devem permanecer sozinhas e precisam receber atendimento especializado.

A discussão ganha destaque nesta quinta-feira (10), Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, em meio à preocupação de especialistas com pacientes que apresentam sofrimento psíquico associado à dependência de apostas virtuais. Segundo profissionais ouvidos pela Agência Brasil, o crescimento das bets acrescentou um novo fator de risco aos casos acompanhados em serviços de saúde mental.

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, defende que pensamentos suicidas sejam discutidos diretamente durante consultas e grupos terapêuticos. Segundo ela, abordar o assunto de maneira adequada permite identificar riscos e ampliar as possibilidades de intervenção.

“A ideação suicida deve ser tratada de forma mais aberta tanto no consultório quanto nos grupos terapêuticos”, afirma.

De acordo com a especialista, muitos pacientes que procuram atendimento para ludopatia — condição caracterizada pela dificuldade de controlar o impulso de continuar jogando — já apresentam sintomas depressivos e elevados níveis de ansiedade. As perdas financeiras podem contribuir para pensamentos relacionados à morte e, nos quadros mais graves, para a ideação suicida.

A psiquiatra Giovanna Quinet, que atua no Rio de Janeiro, ressalta que não é possível afirmar que toda pessoa que aposta desenvolverá depressão ou terá pensamentos suicidas. O risco aumenta quando o jogo deixa de ser eventual e passa a ocupar posição central na rotina, acompanhado de perda de controle e consequências negativas.

“O problema está principalmente quando o jogo deixa de ser uma atividade eventual e passa a ocupar espaço central na vida da pessoa, com perda de controle e consequências negativas”, afirma.

A disponibilidade permanente das plataformas também é apontada como uma característica preocupante. Diferentemente de outras formas de jogo, as apostas online podem ser acessadas pelo celular praticamente durante todo o dia, além de aparecerem associadas ao esporte, às redes sociais e à publicidade.

Esse ambiente pode dificultar a percepção sobre o momento em que uma atividade inicialmente recreativa passa a apresentar características problemáticas. Em alguns casos, a pessoa começa apostando por diversão ou pela expectativa de obter algum ganho. Após sucessivas perdas, pode aumentar os valores apostados na tentativa de recuperar o dinheiro e começar a esconder da família a dimensão do problema.

Nesse processo, podem surgir dívidas, conflitos familiares, dificuldades profissionais, insônia, ansiedade, culpa, vergonha e isolamento. Giovanna Quinet explica que o acúmulo dessas consequências pode gerar desesperança, condição que pode estar relacionada à depressão e elevar o risco de comportamentos suicidas.

A especialista também afirma que perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não estimula esse comportamento. A abordagem, segundo ela, pode permitir que a pessoa fale sobre um sofrimento que vinha mantendo em silêncio. Dependendo do quadro, tratamento psiquiátrico e medicamentos também podem ser necessários.

O neurocirurgião Orlando Maia explica que o comportamento compulsivo relacionado às apostas envolve ainda mecanismos cerebrais ligados à recompensa. A expectativa de ganhar pode estimular a liberação de dopamina e influenciar áreas relacionadas ao controle das decisões e do comportamento.

“O sistema de recompensa pode começar a falar mais alto do que os mecanismos de controle das decisões”, explica.

Segundo o médico, a repetição desse estímulo pode fortalecer o comportamento de apostar. Quando as perdas se acumulam, a frustração contínua também pode contribuir para o agravamento de quadros depressivos.

O tratamento, conforme Orlando Maia, deve envolver diferentes estratégias e áreas profissionais. Medicina, psicologia e prática de atividade física podem integrar o acompanhamento necessário para que o paciente consiga reduzir os estímulos relacionados ao jogo e recuperar gradualmente o controle sobre a rotina.

O especialista acrescenta que a própria pessoa nem sempre consegue identificar a dependência. Familiares e amigos, portanto, podem ter papel importante ao perceber alterações no comportamento e incentivar a procura por atendimento.

Katia Branco afirma que os impactos também atingem diretamente as famílias. Além do adoecimento emocional, parentes podem acompanhar processos de endividamento progressivo de pessoas que perderam valores significativos com apostas e passaram a apresentar agravamento de depressão e ansiedade.

A psicóloga Claudia Feres, que trabalha em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, recomenda que pacientes e familiares busquem assistência profissional assim que identificarem sinais de sofrimento intenso.

Ela relata que os serviços recebem pessoas que apresentaram pensamentos suicidas ou realizaram tentativa de tirar a própria vida. Nesses casos, o atendimento procura acolher o paciente e incluir a família na construção das estratégias de cuidado.

Segundo Claudia, essas situações precisam ser compreendidas para além da relação individual entre o usuário e o celular. Para a psicóloga, as respostas ao problema também precisam envolver ações coletivas e redes de apoio.

Os especialistas defendem que a prevenção não deve ocorrer apenas quando a situação alcança níveis extremos. Identificar antecipadamente o endividamento, a perda de controle sobre as apostas, o isolamento e alterações emocionais pode permitir que o atendimento seja iniciado antes do agravamento do quadro.

No contexto do Setembro Amarelo, campanha dedicada à conscientização sobre prevenção ao suicídio, os profissionais reforçam a necessidade de ampliar o diálogo sobre diferentes fatores capazes de provocar sofrimento e desesperança. Entre eles está o jogo problemático, cujos efeitos podem ultrapassar as perdas financeiras e atingir a saúde mental, a vida profissional e as relações familiares.

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirma considerar importante o debate sobre prevenção ao jogo problemático e proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade. A entidade destaca que, desde o início do mercado federal regulado, em janeiro de 2025, empresas autorizadas passaram a seguir regras e mecanismos específicos voltados à proteção do consumidor e ao jogo responsável.

“O jogo problemático é uma questão séria e seu enfrentamento exige atuação coordenada entre poder público, reguladores, empresas, entidades e sociedade”, afirma o instituto.

Sobre publicidade, o setor informa que as ações de comunicação passaram a obedecer regras específicas após a regulamentação do mercado.

Em situações de risco de suicídio, a orientação dos profissionais é não deixar a pessoa sozinha e buscar atendimento imediatamente. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado pelo telefone 192. Pessoas em sofrimento emocional também podem procurar o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece atendimento gratuito 24 horas pelo número 188. A Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo os Caps, também disponibiliza acompanhamento especializado.

Com informações de: Agência Brasil

AUTOR: YAN SIMON (DRT 2240/RO)





COMENTÁRIOS: