Condução firme de Robson Oliveira extraiu do ex-prefeito momentos de lucidez e rigidez; à medida que o papo avança, ego se infla e tom se eleva, sem que compostura seja perdida
Porto Velho, RO – A entrevista concedida pelo ex-prefeito Hildon Chaves (PSDB) ao podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira e publicada pelo site Rondônia Dinâmica, escancara uma característica recorrente do tucano: sua transição gradual da serenidade para o tom impositivo, sem abrir mão da compostura. O episódio também reafirma o talento de Robson na condução de conversas densas. Com perguntas diretas, ritmo constante e postura imparcial, o jornalista conseguiu tirar do ex-prefeito tanto respostas técnicas quanto declarações carregadas de vaidade política.
Logo no início, Hildon foi só elogios. Chamou o podcast de “extraordinário” e elogiou o formato como uma das “coisas mais modernas” da comunicação atual. Estava leve, quase descontraído, mencionando com ironia que talvez só tenha sido convidado por estar “desempregado”. À medida que os temas incômodos surgem, no entanto, o tom muda. A voz se firma, o discurso se acelera e a sobriedade do início dá lugar a um orgulho latente — firme, mas sem rompantes.
Ao comentar as alagações em Porto Velho, Chaves foi direto: “É uma mentira deslavada se atribuir isso a Hildon Chaves. Tá na hora do prefeito começar a trabalhar. Deixar um pouco o TikTok e botar a mão na massa”. A fala, ainda que incisiva, subestima o uso estratégico que a atual gestão tem feito das redes sociais, sobretudo para apresentar obras e ações com visibilidade. Em apenas três meses de mandato, o atual prefeito tem recebido elogios justamente por aliar comunicação e execução. A crítica, portanto, tropeça na forma e no conteúdo.
Hildon também afirmou que não teceu críticas a prefeitos anteriores, citando Mauro Nazif e Roberto Sobrinho: “Cada um faz a sua parte, Robson”. No entanto, essa memória seletiva ignora o acervo institucional da própria Prefeitura, que, já em 2017, atribuía a gestões passadas diversos gargalos administrativos. A negação absoluta, dita com veemência, não resiste ao contraste com os documentos oficiais da época.
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No trecho sobre o IPAM, o ex-prefeito buscou ancorar-se em números. Disse que, ao assumir, havia cerca de R$ 300 milhões no instituto, e que, ao sair, a cifra era superior a R$ 1 bilhão. “Eu tripliquei as reservas. Então, caríssimo prefeito Léo Moraes, arregace as mangas e faça a mesma coisa”, desafiou. O embasamento técnico, nesse momento, se mistura a um discurso de superioridade, como se o resultado dispensasse outras explicações — inclusive o déficit atuarial ainda existente, que o próprio Hildon reconheceu.
Mas foi ao falar da nova rodoviária que o ex-prefeito se distanciou de qualquer tentativa de equilíbrio. Criticado pelo TCE, desferiu: “A justiça já desmanchou tudo. Tudo conversa besta. Eles deveriam ter ido na rodoviária. Eu não sei qual é a preguiça de levantar a bunda da cadeira e ir lá olhar”. A crítica, personalizada ao conselheiro Jailson Amorim, se repete com relação ao CREA: “O Neocréia e nada pra mim é a mesma coisa”, disse, chamando de “mentiroso” o relatório que apontava riscos estruturais. Em vez de contra-argumentar tecnicamente, desqualificou os autores e tratou o parecer com desdém.
Ao abordar o impasse com professores, Hildon sustentou que havia recursos, mas que questões legais impediram o pagamento do piso salarial. “Tinha. Eu acho que tem”, afirmou. Preferiu responsabilizar o atual prefeito, citando uma gravação de Léo Moraes prometendo resolver a questão em 30 dias: “Tudo eu posso não ter feito. Então ele, se ele prometeu, ele cumpre”. A estratégia parece fugir do centro do problema, deslocando o debate para o campo da retórica.
Outro momento emblemático ocorre quando o ex-prefeito, ao ser instado a comentar denúncias do Ministério Público Eleitoral contra seu ex-vice, disse: “Eu não estava lá, eu não era candidato… O problema é do Santana. Cada um cuida do seu CPF, como já dizia… A frase do ex-governador Ivo Cassol. Cada um que cuida do seu CPF”. O uso da frase como escudo revela uma tentativa clara de evitar qualquer vinculação ao episódio — mesmo tendo sido um aliado de primeira hora.
Em diversos momentos, Hildon se mostra um político experiente, consciente da força do discurso. Mas à medida que a pressão cresce, cede espaço ao próprio ego. O tom sobe, as ironias se intensificam e os argumentos se tornam menos racionais e mais reativos. A compostura é mantida, mas o verniz técnico se desgasta à medida que o orgulho ocupa a linha de frente.
Não há dúvida de que Hildon Chaves é um dos personagens centrais da política rondoniense. Como promotor, empresário e prefeito, construiu uma trajetória de impacto. Mas como demonstrou a entrevista ao Resenha Política, quando confrontado com críticas, muitas vezes permite que o ego tome o lugar do equilíbrio. Ao fazer isso, enfraquece a própria defesa — especialmente quando trata instituições técnicas com desdém, como no episódio envolvendo o CREA.
