Levantamento realizado em dez capitais indica que ruas e transporte público concentram a maior parte dos casos e mostra divergências entre homens e mulheres sobre divisão de tarefas domésticas
Porto Velho, RO – Levantamento realizado em dez capitais indica que ruas e transporte público concentram a maior parte dos casos e mostra divergências entre homens e mulheres sobre divisão de tarefas domésticas
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Um levantamento divulgado nesta quinta-feira (5) aponta que sete em cada dez mulheres afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio moral ou sexual. O dado integra a pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres 2026, desenvolvida pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec.
De acordo com o estudo, a maior parte das ocorrências foi registrada em ruas, praças, parques e outros espaços públicos. Esses locais foram mencionados por 54% das entrevistadas. Em seguida aparece o transporte público, citado por metade das mulheres. O ambiente de trabalho foi apontado por 36% das participantes, enquanto bares e casas noturnas aparecem com 32%. Situações de assédio no ambiente familiar foram relatadas por 26% das entrevistadas e casos em transporte particular, como táxis ou veículos por aplicativo, somaram 19%.
Entre as mulheres que participaram da pesquisa, 5% relataram ter sofrido assédio em todos os seis ambientes analisados. A diretora de Opinião Pública e Política da Ipsos-Ipec, Patrícia Pavanelli, afirmou durante o lançamento que a sensação de insegurança é recorrente no cotidiano feminino e que uma parcela expressiva das mulheres segue relatando episódios de assédio.
O estudo foi realizado em dezembro de 2025 e entrevistou 3,5 mil pessoas nas cidades de Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Do total de participantes, 2.066 eram mulheres.
Mesmo com a redução em relação a 2014, quando 74% das mulheres afirmaram já ter sofrido assédio, as instituições responsáveis pela pesquisa avaliam que a proporção permanece elevada nas dez capitais analisadas.
O levantamento também investigou quais medidas são consideradas prioritárias para enfrentar a violência contra mulheres. O aumento das penas para agressores apareceu como a principal demanda, com 55% das menções. Em seguida, 48% dos entrevistados apontaram a necessidade de ampliar os serviços de proteção às vítimas. Agilizar a investigação das denúncias foi citado por 37%.
AS ÚLTIMAS OPINIÕES
Segundo Patrícia Pavanelli, os resultados indicam uma combinação de demandas por punição e por fortalecimento de estruturas de apoio às vítimas. Ela também defendeu maior aproximação entre a população e os agentes de segurança, além de treinamento de profissionais para atendimento às mulheres. A pesquisadora destacou ainda que quase três em cada dez homens consideram prioritária a criação de políticas de segurança comunitária.
Durante o debate realizado após a divulgação da pesquisa, especialistas discutiram estratégias de enfrentamento à violência de gênero. A promotora Fabíola Sucasas, responsável pela Promotoria de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público de São Paulo, avaliou que o problema não será resolvido apenas com o aumento de punições. Para ela, a ideia de que o direito penal seria suficiente para enfrentar a violência reflete uma visão patriarcal.
A promotora observou que o feminicídio já possui pena máxima prevista de até 40 anos de prisão e que, apesar disso, os casos continuam crescendo, assim como o descumprimento de medidas protetivas de urgência.
Na avaliação de Naiza Bezerra, coordenadora de Políticas para Mulheres da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, os dados reforçam a necessidade de repensar políticas públicas e mecanismos de proteção. Ela afirmou que muitas mulheres não se sentem seguras nem em casa e enfrentam ainda mais insegurança ao circular em espaços públicos ou no transporte coletivo.
A coordenadora também relatou que a rotina de deslocamento das mulheres é frequentemente marcada por cuidados relacionados à segurança, como evitar determinados horários ou trajetos.
Além da violência, a pesquisa analisou a percepção sobre a divisão de tarefas domésticas. Entre todos os entrevistados, 39% afirmaram que as atividades da casa são responsabilidade de todos, mas acabam sendo realizadas principalmente pelas mulheres. Já 37% disseram que os afazeres são divididos de forma igual entre homens e mulheres.
Quando o recorte é feito por gênero, as percepções se diferenciam. Entre os homens, 47% acreditam que as tarefas são divididas igualmente. Entre as mulheres, esse percentual cai para 28%. Por outro lado, 32% dos homens reconhecem que as mulheres realizam a maior parte das tarefas domésticas, índice que sobe para 44% quando a resposta vem das próprias mulheres.
Com informações de: Agência Brasil
