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RESENHA POLÍTICA
Abib traz esperança ao MDB, partido especializado em ‘arqueologia política’; ‘fumaça’ na RRS; e Léo herda desafio difícil em Porto Velho

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Em edição marcada por críticas ao envelhecimento político do MDB, alertas sobre bastidores da Rondônia Rural Show, análise dos desafios estruturais de Porto Velho e embates ambientais envolvendo Lúcio Mosquini, a coluna de Robson Oliveira percorre as contradições do poder em Rond

Por Robson Oliveira - quinta-feira, 21/05/2026 - 15h48

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ROBSON OLIVEIRA

MOFO

O MDB de Rondônia virou uma dessas velhas casas políticas onde o reboco cai antes mesmo da campanha começar. Houve um tempo em que a sigla ocupava espaços de poder com a naturalidade de quem respirava o ar do Palácio. Era máquina, musculatura, capilaridade e mando. O partido que já produziu governadores, senadores e uma militância inteira de caciques regionais hoje parece uma fotografia esquecida num álbum mofado da Nova República.

UTI

Sob o comando de Lúcio Mosquini, o MDB foi sendo conduzido lentamente ao estado vegetativo. Não houve explosão, nem incêndio cinematográfico. Foi pior: uma erosão silenciosa, dessas que vão levando parede, piso e telhado enquanto os moradores fingem que a estrutura ainda aguenta mais uma chuva. Mosquini segurou a legenda até o limite da insolvência eleitoral e, percebendo que no MDB seus votos não bastariam sequer para salvar o próprio mandato, atravessou a janela partidária como quem abandona um barco minutos antes do naufrágio. Migrou para o Partido Liberal levando consigo o pouco oxigênio que restava.

BOIA

O que ficou foi um MDB aos cacos tentando encontrar alguém disposto a carregar a bandeira de uma candidatura ao governo. E encontrou. Ou quase isso. O professor Pedro Abib surgiu como espécie de esperança acadêmica num partido especializado em arqueologia política. Currículo sólido, discurso novo e o benefício da novidade num ambiente frequentado pelas mesmas figuras de sempre, repetindo fórmulas eleitorais como se ainda estivéssemos em 1994, quando santinho de papel e reunião em sindicato decidiam eleição.

GESTO

A nova direção chegou a ensaiar euforia. Finalmente o MDB poderia vender ao eleitor a ideia de renovação. Uma espécie de banho de tinta fresca sobre as paredes rachadas do partido. Durou pouco. Segundo apurou a coluna, a convivência entre o “novo” e o “velho MDB” começou a azedar antes mesmo da campanha ganhar corpo. Pedro Abib teria decidido tocar a pré-campanha ignorando os conselhos da velha guarda emedebista – o que, convenhamos, talvez seja o gesto mais moderno produzido pelo MDB nos últimos anos.

JURÁSSICOS

E aí reside o drama. O partido ainda é habitado por uma geração de dirigentes que continua tratando eleição como se fosse uma extensão da política dos anos 1980: reunião fechada, controle interno e veneração hierárquica. Uma velha guarda que tem experiência, memória e contatos, mas também carrega vícios políticos envelhecidos como móveis de mogno em repartição pública. Servem para aconselhar, abrir portas, chamar antigos militantes e lembrar onde os corpos eleitorais estão enterrados. Mas insistem em querer dirigir campanha digital com a mesma lógica de quem distribuía santinho em feira livre ao lado de uma Kombi com alto-falante.

SOBREVIVÊNCIA

O MDB precisa da experiência dos antigos, mas não pode continuar prisioneiro deles. Renovação partidária não é colocar um rosto novo na vitrine enquanto os mesmos operadores seguem decidindo o cardápio na cozinha. Se quiser sobreviver, o partido terá de permitir que os novos militantes ocupem espaços reais, não apenas decorativos.

CONTAMINAÇÃO

O problema é que o mofo político contamina rápido. E talvez nem mesmo Confúcio Moura, ainda o melhor quadro que o MDB produziu nas últimas décadas em Rondônia, consiga impedir que a atmosfera pesada da velha engrenagem sufoque qualquer tentativa de oxigenação. O MDB, que já foi locomotiva eleitoral, hoje parece um museu tentando convencer o eleitor de que ainda fabrica futuro. E museu, na política, raramente ganha eleição.

CAOS

Volta e meia algum levantamento nacional reaparece decretando Porto Velho como uma das piores cidades do país para morar. Os indicadores expõem velhas feridas urbanas: saneamento precário, deficiência no abastecimento de água tratada, crescimento desordenado, mobilidade irregular e serviços públicos que ainda caminham atrás das necessidades de uma capital amazônica que cresceu mais rápido que sua capacidade de planejamento.

PANFLETOS

Nada disso é invenção estatística. Os problemas existem, são antigos e continuam exigindo vigilância permanente da sociedade e competência real dos gestores públicos. Porto Velho carrega décadas de improviso administrativo acumulado, obras interrompidas, expansão periférica sem infraestrutura e promessas recicladas a cada eleição como panfletos molhados pela chuva.

REAÇÃO

Mas há um detalhe importante que muitos relatórios frios ignoram: a cidade começou a reagir. Os números recentes do IPS Brasil mostram que Porto Velho registrou a 8ª maior evolução nominal entre as capitais brasileiras, saltando de 57,25 em 2025 para 58,59 em 2026. Um avanço concreto de 1,34 ponto. Continuou na última posição entre as capitais? Sim. Mas já não está parada no mesmo lugar de antes.

SINAIS

E isso, para uma cidade historicamente atolada em déficits estruturais, possui significado político e social relevante. Existe certa crueldade em analisar Porto Velho apenas pelo retrovisor do atraso, ignorando os sinais de melhora que seus próprios moradores começam a perceber no cotidiano.

AVANÇOS

A autoestima de uma cidade também depende da capacidade de reconhecer avanços sem fechar os olhos para os problemas. E Porto Velho, apesar das cicatrizes urbanas expostas, segue avançando lentamente onde durante décadas quase nada saía do papel.

HERANÇA

O prefeito Léo Moraes herdou uma máquina pública cercada de desafios históricos que não serão resolvidos num passe de mágica administrativa. O déficit de saneamento, por exemplo, é daqueles dramas nacionais que atravessam governos como uma herança maldita. Não depende apenas da prefeitura, mas de articulação com Estado, União e investimentos bilionários que raramente chegam na velocidade das necessidades da população.

AUTOESTIMA

Ainda assim, os avanços precisam ser preservados e ampliados. Porque cidades não se transformam apenas com concreto, tubos e estações de tratamento. Transformam-se também quando seus moradores conseguem voltar a acreditar que o lugar onde vivem pode melhorar.

RESILIÊNCIA

Porto Velho ainda convive com problemas severos. Mas também já não é exatamente a mesma cidade de alguns anos atrás. Entre estatísticas negativas e pequenas vitórias urbanas, a capital tenta escapar do velho destino amazônico de sobreviver apenas como promessa adiada.

PLANEJAMENTO

A tragédia do saneamento básico em Porto Velho não nasceu ontem, tampouco será resolvida na velocidade dos vídeos de redes sociais onde governos adoram inaugurar centímetros de asfalto como se descobrissem a pólvora administrativa. Trata-se de uma ferida antiga, aberta ainda nas décadas em que a capital cresceu sem planejamento, sem estrutura e sem qualquer compromisso sério de sucessivos governos com aquilo que separa civilização de abandono: água tratada e esgoto.

RETRATO

Ao longo dos anos, prefeitos passaram pelo relógio do poder municipal, governadores desfilaram promessas embaladas em campanhas milionárias e a União distribuiu discursos amazônicos adornados por palavras sofisticadas sobre sustentabilidade. No entanto, a realidade permaneceu brutalmente simples: bairros inteiros convivendo com lama, fossas improvisadas e igarapés transformados em corredores de dejetos humanos. A capital amazônica foi expandida como quem ergue puxadinhos sobre um terreno já condenado.

IMEDIATISMO

O prefeito Léo Moraes recebeu esse labirinto subterrâneo onde canos inexistentes contam mais sobre a história política de Rondônia do que muitos discursos inflamados da Assembleia Legislativa. É um problema estrutural, bilionário e que não depende exclusivamente da prefeitura. Exige participação efetiva do Estado e do governo federal, além de planejamento técnico contínuo – artigo raro numa cultura política acostumada a pensar apenas até a próxima eleição.

INEFICIÊNCIA

No centro desse colapso repousa a velha e combalida Caerd, estatal que há anos se tornou mais conhecida pelas dívidas acumuladas do que pela capacidade de universalizar saneamento. A companhia foi sendo consumida lentamente por administrações desastrosas, ingerência política, loteamento de cargos e incapacidade histórica de investimento. Em muitos momentos, parecia existir apenas para renegociar passivos e sobreviver administrativamente enquanto a população seguia esperando água encanada e rede de esgoto.

ATRASO

Agora surge a discussão sobre privatização dos serviços. E, como sempre ocorre quando o assunto ameaça estruturas envelhecidas do poder, aparecem os guardiões do atraso. Setores políticos ainda presos ao romantismo estatizante do século passado combatem qualquer mudança como se defendessem patrimônio sagrado. Parte da própria corporação interna reage olhando para o próprio umbigo funcional, nunca para a coletividade abandonada entre valas abertas e doenças evitáveis. O cidadão continua refém de uma guerra ideológica travada por gente que muitas vezes mora em bairros plenamente saneados.

BOMBA

A matemática do saneamento é cruel porque não produz glamour eleitoral imediato. Tubulação enterrada não rende selfie. Estação de tratamento não produz aplauso em carreata. Enterrar bilhões de reais no subsolo nunca despertou o mesmo entusiasmo político que pintar praça ou inaugurar portal luminoso. Por isso Porto Velho cresceu décadas acima da capacidade de sua infraestrutura, empurrando para o futuro uma bomba sanitária que agora explode no colo de todos os governos simultaneamente.

CORAGEM

O desafio da gestão atual talvez seja exatamente romper essa lógica histórica de improviso permanente. Se houver coragem política para enfrentar interesses corporativos e abandonar discursos decorativos, Porto Velho poderá começar a sair da condição humilhante de capital onde o esgoto corre a céu aberto enquanto autoridades fazem seminários sobre desenvolvimento sustentável em auditórios refrigerados. Caso contrário, a cidade continuará assistindo governos passarem como as águas barrentas do Madeira: volumosos nos discursos e rasos nas soluções.

FEIRA

A Rondônia Rural Show deixou de ser apenas uma feira agrícola há muito tempo. Desde os tempos do governo de Confúcio Moura, o evento cresceu como soja em terra adubada: rápido, volumoso e cercado de cifras. Em Ji-Paraná, ergueu-se uma espécie de catedral do agronegócio amazônico, onde tratores já parecem naves espaciais e colheitadeiras exibem mais tecnologia que muito gabinete público.

PROTAGONISMO

A cada edição, a feira amplia musculatura econômica. Gigantes do agro desembarcam com máquinas de última geração, drones, inteligência embarcada e promessas de produtividade quase bíblicas. Rondônia virou parada obrigatória no calendário nacional do setor. O dinheiro circula com velocidade de pregão financeiro e o produtor rural, antes tratado como coadjuvante da economia amazônica, agora desfila como protagonista de exportações, negócios e cifras bilionárias.

HOLOFOTES

O governo estadual compreendeu cedo que a Rondônia Rural precisava ser mais do que uma vitrine de máquinas polidas sob sol escaldante. O objetivo passou a ser transformá-la numa arena permanente de negócios, conectando produtores, compradores, investidores e bancos. E conseguiu. Hoje, o evento projeta produtos rondonienses para além das fronteiras regionais, vendendo a imagem de um estado agrícola moderno, eficiente e competitivo. Mas toda feira grandiosa também produz sombras proporcionais ao tamanho dos holofotes.

INDÍCIOS

E é exatamente aí que entra o secretário de Agricultura, Luís Paulo. Não há, até aqui, qualquer fato concreto que aponte irregularidades nos investimentos da infraestrutura do evento. Nenhum documento explosivo, nenhuma operação policial cinematográfica, nenhum servidor algemado sob lentes ávidas. Ainda não.

SUSSUROS

O problema mora naquele território pantanoso da política brasileira chamado “boca miúda”. O cochicho rasteiro. A conversa de corredor. O comentário atravessado servido entre cafezinhos e apertos de mão. E política, como se sabe, costuma transformar sussurros em tempestades com uma facilidade impressionante.

FUMAÇA

Por isso, talvez seja prudente ao secretário redobrar a vigilância sobre cada centavo empregado na estrutura da feira. Não apenas para fazer a coisa certa – obrigação elementar de qualquer gestor público -, mas para impedir que o burburinho ganhe densidade de fumaça tóxica. Porque existe um velho adágio que sobrevive intacto na República: onde há fumaça, cedo ou tarde alguém aparece vendendo fósforo.

COMBUSTÃO

E convenhamos: poucas áreas no Brasil são tão inflamáveis quanto obras, contratos e dinheiro público circulando em ritmo acelerado. Basta uma fagulha para transformar a grandiosa vitrine do agro numa fogueira política de proporções rurais.

CRUZADA

O deputado federal Lúcio Mosquini transformou o mandato numa cruzada permanente contra os mecanismos de fiscalização ambiental, como se Ibama, ICMBio e os órgãos estaduais fossem inimigos da produção rural e não instrumentos mínimos de contenção da barbárie fundiária na Amazônia. Em Brasília, atua como voz aguerrida do setor mais conservador do agronegócio. Em Rondônia, virou uma espécie de patrono político do afrouxamento ambiental.

DESMONTE

Ontem, a Câmara dos Deputados aprovou mais um projeto alinhado à agenda ruralista que escancara esse desmonte gradual das políticas ambientais. A proposta fragiliza a fiscalização remota de áreas desmatadas, proíbe embargos baseados apenas em imagens de satélite e ainda obriga a notificação prévia de produtores antes da aplicação de sanções. Na prática, o Estado passa a avisar previamente quem desmatou antes de puni-lo. É quase um convite oficial para apagar rastros.

RETROCESSO

O texto, celebrado pela bancada ruralista como parte do chamado “Dia do Agro”, representa um duro golpe nos instrumentos modernos de monitoramento ambiental. Em tempos de tecnologia avançada, satélites e inteligência territorial, o Congresso decide caminhar para trás, como se fiscais precisassem atravessar quilômetros de floresta de jipe e prancheta para comprovar crimes ambientais já detectados em tempo real por sistemas reconhecidos internacionalmente.

UMBIGO

Não se trata apenas de divergência ideológica. Há interesse econômico. Mosquini legisla olhando pela janela da própria porteira. Pecuarista e produtor rural, faz da Câmara Federal uma extensão das demandas de segmentos que enxergam a floresta como obstáculo contábil. Sua retórica costuma vestir a fantasia do “desenvolvimento”, embora frequentemente desemboque na velha tese segundo a qual preservar seria impedir o progresso – uma visão atrasada até para os padrões do lucro contemporâneo, onde sustentabilidade virou ativo econômico e geopolítico.

NEGACIONISTA

O parlamentar consolidou a imagem de negacionista ambiental ao atacar reiteradamente políticas de fiscalização, questionar mecanismos de controle e defender flexibilizações que reduzem o alcance do Estado sobre áreas protegidas. Sob o verniz da defesa do produtor, esconde-se uma política que beneficia justamente quem opera nas franjas da legalidade ambiental. O pequeno agricultor vira biombo moral para interesses muito maiores. Ele vota e é o grosso do eleitorado, mas Mosquini legisla para o grande proprietário e usa o pequeno como massa de manobra.

DEMAGOGIA

Em Rondônia, estado que convive há décadas com conflitos fundiários, desmatamento acelerado e ocupações desordenadas, o discurso do “libera geral” encontra plateia fácil. Afinal, sempre rende votos posar de perseguido pelos fiscais enquanto tratores avançam sobre reservas e rios agonizam sob o peso da exploração predatória. A floresta, no roteiro eleitoral de certos políticos, aparece apenas como estoque de madeira, pasto ou minério.

DELÍRIO

O mais irônico é que os mesmos grupos que demonizam a fiscalização dependem profundamente dela para manter mercados internacionais abertos. A Europa endurece regras ambientais, investidores exigem rastreabilidade e grandes compradores já evitam cadeias ligadas à devastação. Enquanto o mundo discute economia verde, parte da política amazônica ainda age como se estivesse presa nos anos 1970, sob o delírio desenvolvimentista de que floresta em pé seria atraso.

PREDADOR

Mosquini encarna essa contradição. Defende um modelo de expansão rural que frequentemente colide com a sustentabilidade, mas tenta vender isso como defesa da soberania nacional. No fundo, é a velha política da motosserra travestida de patriotismo econômico.

REFLEXOS

O problema é que a conta ambiental não desaparece por decreto parlamentar. Ela volta em forma de seca severa, rios assoreados, queimadas incontroláveis, isolamento comercial e crises climáticas cada vez mais agressivas. A natureza não lê discursos da tribuna nem se curva às conveniências eleitorais. Na Amazônia, afrouxar a legislação ambiental nunca foi apenas uma escolha administrativa. É uma aposta de alto risco contra o futuro. Mosquini é latifundiário, produtor e pecuarista e defende o seu, enquanto o lavrador da agricultura familiar que se vire.

Rodapé da coluna

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AUTOR: ROBSON OLIVEIRA





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