Escândalo do Banco Master expõe explicações frágeis, desgaste político e o custo das relações com Daniel Vorcaro
A toxidade aguda da companhia de Daniel Vorcaro provoca reações diversas entre os políticos vitimados pelo contágio. Espantosa, porém, a incidência de um efeito colateral desastroso, embora não letal. É o que a Neurociência classifica como Comprometimento Cognitivo Leve (CCL). Caracteriza-se pelo declínio nas funções mentais (memória, atenção ou raciocínio), sem afetar a independência ou autonomia nas atividades diárias. Exatamente por isso é devastador.
O diagnóstico faz sentido! Possui, quando pouco, maior teor de verossimilhança e plausibilidade que as explicações estupidificadas e aparvalhadas das autoridades colhidas em flagrante envolvimento com o ex-banqueiro. O aparente emburrecimento dos contaminados fica evidente na sintomática produção de desculpas esfarrapadas, nas vãs tentativas de explicar e ou justificar o contágio. É aí que o CCL exibe seu efeito deletério. Não há, entre todas as declarações publicadas, uma única capaz de parar em pé. Mas em todas elas, invariavelmente, o autor se mostra compungido, aparentemente convencido de que fala a verdade. Dessa vez!
Se você não sabe exatamente o significado do vocábulo, vou poupá-lo de buscar no Google: Compungido (adj) – “Pessoa tomada por profundo arrependimento, pesar ou dor moral. Refere-se a quem se sente profundamente tocado ou abalado por um erro cometido, que manifesta tristeza ou contrição”. Tudo isso embalado por um ar inocente, de quem se sente politicamente perseguido. Então? Lembra algum caso assemelhado? Vou ajudar.
O senador Jacques Wagner vai deixar a liderança do governo não exatamente pelo dinheiro e outros agrados que possivelmente terá recebido do banco Master. Isso é coisa ainda em investigação. Mas a queda será creditada à conversa fiada do apartamento para a filha. Que pode até ser verdadeira, mas é também absurdamente inverossímil. Pode ou não haver crime nesse relacionamento, mas isso é com a Justiça. O desastre está na quebra de confiança política, por carregar o escândalo rampa acima no Planalto.
Com o senador Flávio Bolsonaro acontece o mesmo. Ele sofreu uma debandada do eleitorado nas pesquisas de todos os institutos. Não somente pelos milhões recebidos e outros mais prometidos. Nem pelo destino até agora nebuloso da fortuna. O eleitor pune a mentira deslavada lançada nas explicações apresentadas às bancadas do PL após a confissão. Mentiu ao dizer que “foi apenas uma visitinha, para colocar um ponto final na história” e garantiu que tudo seria rapidamente esquecido.
Já apareceram várias outras “visitinhas” para demonstrar que o ponto final está longe e que o caso não será esquecido tão cedo. Até porque o senador esqueceu-se de combinar com o presidente do PL, Waldemar da Costa Neto, que o desmentiu ao dizer que a razão da visita a São Paulo foi uma tentativa de receber o troco do dinheiro prometido pelo ex-banqueiro. Foi desmentido também pelo próprio irmão, Eduardo, que admitiu participação no novo tarifaço de Trump, bem como no envolvimento em negociações com o Pix.
O senador Ciro Nogueira, aquele que abriu a porteira da fase política do escândalo, tem surfado na onda do esquecimento. É que as mesadas de R$ 300 e 500 mil mais mordomias recebidas de Vorcaro até parecem coisa pouca perto das dezenas de milhões destinados a outros figurões. O problema é que seu caso está perto de ser levado a julgamento e ele sabe que poderá ser preso. Com isso, trocou a cara de inocente pela de “abatido e muito preocupado”, o que mereceu até um “jantar de consolo” promovido em Brasília por lideranças de partidos ligados ao Centrão. Coisa de rico. Quando pobre está na iminência de ser preso, os amigos prometem pacote de cigarros. Rico ganha banquete. Difícil é ter apetite!

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