Apuração da Senacon reacende debate sobre os limites entre informação, entretenimento e propaganda de apostas esportivas nas plataformas digitais.
Porto Velho, RO – A abertura de uma investigação pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) sobre a divulgação de apostas esportivas nas transmissões da CazéTV durante a Copa do Mundo de 2026 ampliou a discussão entre especialistas sobre a necessidade de atualizar as regras que disciplinam a publicidade em plataformas digitais. O caso também trouxe à tona questionamentos sobre a separação entre conteúdo informativo, entretenimento e ações comerciais.
A discussão ocorre em um momento de forte crescimento do mercado de apostas no Brasil. Levantamento divulgado pela Agência Macfor mostrou que, no mês anterior ao início da Copa do Mundo, mais de 18 milhões de buscas pelo termo “bet” foram registradas no país. O estudo também apontou que seis em cada dez brasileiros pretendiam apostar, enquanto o interesse pelo segmento aumentou 496% nos últimos cinco anos. Dados do Ministério da Fazenda indicam que o setor movimentou lucro bruto de R$ 37 bilhões em 2025. Em comparação internacional, o interesse diminuiu 19,6% no Reino Unido, 53% em Portugal e 12,6% na Espanha, enquanto cresceu 268,8% na Argentina.
Empresas de apostas esportivas também consolidaram presença entre os maiores anunciantes da Copa do Mundo, ficando atrás apenas do segmento de alimentos e bebidas. Nas transmissões realizadas por Rede Globo, SBT e CazéTV, as casas de apostas aparecem entre os patrocinadores oficiais.
No caso da CazéTV, a Senacon apura possíveis irregularidades relacionadas à promoção de apostas de quota fixa durante as transmissões. Conforme o órgão, a investigação busca verificar se houve desrespeito às normas que regulamentam esse tipo de publicidade. Durante partidas e programas de pré-jogo, foram exibidas recomendações de odds, além de orientações sobre possíveis apostas e resultados considerados mais prováveis.
Levantamento realizado pelo portal ICL Notícias, após acompanhar 48 partidas exibidas pela plataforma, identificou 74 sugestões de apostas. Segundo o estudo, 61% das previsões feitas não se confirmaram. As indicações estavam vinculadas às três empresas anunciantes da CazéTV durante o torneio: Bet365, Betnacional e KTO.
Para o professor da Universidade Federal de Alagoas e coordenador do Observatório das Transmissões de Futebol, Anderson Santos, o diferencial da CazéTV está justamente na integração entre entretenimento, informação e merchandising. Segundo ele, essa estratégia funciona para produtos de consumo comum, mas passa a exigir maior cautela quando envolve apostas esportivas, consideradas por ele uma questão de saúde coletiva por seus impactos financeiros, físicos e mentais. “Transformar isso como algo do dia a dia é extremamente perigoso”, afirmou.
Na avaliação da professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Janaine Aires, o endurecimento das regras para publicidade na televisão tradicional acabou favorecendo a migração desse tipo de estratégia para plataformas digitais. Ela explicou que, enquanto a publicidade na TV aberta permanece separada do conteúdo editorial, no ambiente digital essas fronteiras acabam sendo incorporadas ao formato das transmissões, revelando uma lacuna regulatória.
A pesquisadora também afirmou que, diante dessa brecha, investidores e patrocinadores acabam estabelecendo suas próprias dinâmicas até que mecanismos de controle sejam implementados. Segundo ela, esse cenário amplia o espaço para práticas mais agressivas de publicidade.
Criada em 2022 por meio de uma parceria entre a LiveMode e o streamer Casimiro Miguel, a CazéTV ganhou espaço após a aprovação da Lei do Mandante (Lei nº 14.205/2021), que ampliou a liberdade dos clubes para negociar direitos de transmissão. Em 2022, o canal exibiu 22 partidas da Copa do Mundo em parceria com a Fifa. Na edição de 2026, tornou-se a única plataforma a transmitir os 104 jogos da competição, consolidando posição entre os principais veículos esportivos do país.
Anderson Santos classificou o modelo adotado pela plataforma como uma cobertura voltada prioritariamente ao entretenimento e ao engajamento do público, mais do que ao jornalismo esportivo tradicional. Segundo ele, esse formato oferece maior liberdade aos apresentadores e comentaristas, fazendo com que a experiência se aproxime de uma conversa informal entre amigos acompanhando uma partida.
O pesquisador também avalia que esse movimento não representa o fim da televisão aberta. Para ele, os diferentes formatos devem coexistir, com adaptações ao comportamento do público e ao consumo simultâneo de conteúdo em múltiplas telas, tendência intensificada após a pandemia.
Janaine Aires acrescenta que o modelo híbrido adotado pelas plataformas digitais também levanta discussões sobre as relações de trabalho na comunicação. Segundo ela, ao evitar a classificação do conteúdo como jornalístico, empresas deixam de se submeter a determinadas regras profissionais e sindicais, reduzindo custos de produção.
Enquanto o debate avança, duas propostas de regulamentação seguem em tramitação no Congresso Nacional: o Projeto de Lei nº 2.478/2026, na Câmara dos Deputados, e o Projeto de Lei nº 2.470/2026, no Senado. Ambos propõem restringir a publicidade e o patrocínio de empresas de apostas esportivas e jogos online em diferentes meios de comunicação e eventos, por iniciativa da Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental.
Ao comparar o cenário atual com o histórico da publicidade do tabaco, Janaine Aires afirmou que o amplo patrocínio exercido pelas empresas de apostas em diversos setores pode dificultar futuras restrições. A pesquisadora também alertou para possíveis impactos desse financiamento no debate público e na formulação de políticas relacionadas ao setor.
Com informações de: Agência Brasil
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